Homem escravizado durante 30 anos não sabia quem é o Presidente da República

Vítimas de rede de tráfico humano foram mantidas em cativeiro numa aldeia remota a 70 quilometros de Burgos, em Espanha.

30 de junho de 2026 às 01:30
PJ de Coimbra Foto: Direitos Reservados
PJ de Coimbra Foto: Carlos Jorge Monteiro

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Uma rede de tráfico humano liderada por uma família operou durante décadas entre Portugal e Espanha. O grupo recrutava pessoas em situação de vulnerabilidade social na zona de Coimbra com promessas de trabalho e remuneração em Espanha e mantinham-nas em cativeiro e sob ameaça constante. Um homem de 63 anos foi escravizado durante três décadas e foi resgatado, numa aldeia a 70 km de Burgos, pela Polícia Judiciária do Centro na operação ‘Mãos Livres’, em parceria com a Guardia Civil. A vítima vivia num anexo, fechada com um cadeado, que pertencia à casa dos traficantes para que os mesmos controlassem todos os seus movimentos. Além de privado da liberdade, cuidados médicos e alimentação equilibrada, o homem esteve isolado de toda a informação, inclusive não sabia quem é o Presidente da República. Durante três décadas, trabalhou todos os dias do ano, sem folgas, em terrenos agrícolas em condições deploráveis. Os exploradores ficaram com todo o dinheiro do homem, arrecadando ao longo dos últimos anos milhares de euros. Quando foi resgatado só tinha 40 euros na conta bancária e o desejo que expressou aos inspetores da PJ foi poder comer batatas fritas.

Também outro homem de 53 anos, que esteva em cativeiro 15 anos, foi resgatado durante a mesma operação. A PJ do Centro acredita que mais vítimas passaram por esta rede que tinha um esquema orquestrado entre os dois países. Após a retirada dos trabalhadores, os dois foram trazidos de volta para Portugal e estão numa instituição que acolhe vítimas de tráfico humano.

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Este esquema escapou à mira das autoridades espanholas durante vários anos uma vez que as vítimas, que não tinham “controlo sobre as suas vidas”, estavam inscritas na Segurança Social espanhola para os exploradores elaborarem contratos de trabalho. Era assim que tinham acesso aos salários das vítimas e benefícios resultantes de prestações sociais. Além disso, abriam contas bancárias e registavam viaturas em nome das vítimas, uma estratégia que dificultava a atuação das autoridades.

As vítimas foram resgatadas na primeira fase da operação, em março de 2025, mas só agora a Polícia Judiciária do Centro fez a detenção dos suspeitos. Foram detidas cinco pessoas, de nacionalidade portuguesa. Os três detidos em Espanha, com idades entre os 32 e os 35 anos, foram presentes à Audiência Nacional, em Madrid, para extradição para território nacional, e os dois detidos em Portugal, com 54 e 56 anos de idade, um dos quais com antecedentes criminais pela prática de crimes da mesma natureza, serão presentes às autoridades judiciárias, tendo em vista a aplicação das medidas de coação entendidas por mais adequadas. 

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