Lipoaspiração matou-a

Fátima Cristina Viegas Santos, de 25 anos, natural e residente na Fuseta, concelho de Olhão, queixava-se a colegas e amigos de ter umas gordurinhas a mais. Longe de ser obesa, queria ficar mais elegante. A 12 de Janeiro dirigiu-se a um consultório médico privado em Faro para uma lipoaspiração na zona da cintura. Após a cirurgia queixou-se a familiares de vómitos, tonturas e dores, mas o médico que a operou só lhe receitou antibióticos, analgésicos e anti-inflamatórios. Morreu na madrugada de 14 para 15, na residência que partilhava, desde há cerca de quatro meses, com o seu companheiro.

29 de fevereiro de 2008 às 00:30
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A autópsia apurou que foi vítima de tromboembolismo pulmonar (obstrução de uma artéria), sendo ainda detectadas queimaduras de segundo grau na zona da cintura e abdómen.

“Foi uma notícia que nos apanhou de surpresa e chocou, pois só soubemos da cirurgia plástica após a sua morte”, disse ao CM Ana Graça, colega da Fátima Santos no Centro Comunitário do Núcleo da Fuseta da Cruz Vermelha Portuguesa.

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“Disseram-nos que a lipoaspiração matou a Fatinha”, explica Ana Graça, que tem dificuldade em aceitar “a desgraça” da colega que dava aulas no Centro Comunitário. “Era órfã de pai e mãe, que perdeu nos quatro últimos anos, mas uma pessoa excepcional, sempre sorridente.”

Francisca Ferreira, directora do Centro Comunitário, recebeu a notícia da morte da jovem “com grande consternação”. “Tinha-se licenciado, há um ano, em Línguas e estava a tirar um estágio profissional na nossa instituição”, explicou Francisca Ferreira, que tem procurado “atenuar o trauma que os colegas sofreram”.

O companheiro e familiares mais directos de Fátima Santos, ainda em estado de choque, não prestam declarações. Por seu lado, o médico responsável pela ‘clínica de estética’ – a que os serviços de Saúde chamam consultório médico privado –, nefrologista do Hospital Central de Faro, não se mostrou disponível para comentar o caso que está a ser investigado pelas autoridades.

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MINISTÉRIO DA SAÚDE INVESTIGA

Fonte do Ministério da Saúde confirmou ontem ao CM que a família de Fátima denunciou o caso à Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) e ao gabinete do ministro da tutela. “A inspecção-geral já ouviu quem tinha de ouvir e já visitou a clínica.” De acordo com a mesma fonte, o processo de averiguações estará concluído “durante o mês de Março”. Os resultados serão comunicados às entidades competentes, caso se apurem indícios de ilícito criminal (Ministério Público), fiscal (Direcção-Geral de Impostos), laboral (Autoridade para as Condições do Trabalho) ou disciplinar (Ordem dos Médicos). A IGAS poderá requerer à tutela o encerramento do espaço. Está já a correr um processo no MP, resultante da queixa da família.

A IGAS, que apenas desde Agosto tem poder para intervir no sector privado, está atenta à proliferação da cirurgia estética no País. “Este ano vai ser dada visibilidade ao problema”, é a garantia.

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ORDEM AINDA NÃO RECEBEU QUEIXA

Martins dos Santos, responsável da Ordem dos Médicos (OM) na região algarvia, disse ao CM que “até ao momento não chegou qualquer informação à OM”. O médico adiantou que, “se isso acontecer, iremos actuar”. Martins dos Santos, cirurgião de profissão – sem querer falar neste caso específico, “por desconhecer detalhes” –, explicou que estas operações de cirurgia plástica “têm de ser alvo de várias precauções”, referindo, por exemplo, determinadas injecções que se devem prescrever. O responsável da OM no Algarve adiantou que o médico responsável pela lipoaspiração fatal está inscrito na Ordem dos Médicos como nefrologista, exercendo a profissão há mais de 20 anos. “Não tem dedicação exclusiva ao Serviço Nacional de Saúde, podendo exercer medicina privada”, disse.

40 é o número de inspectores da Inspecção-Geral de Saúde. A Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética alertou para a existência de clínicas não habilitadas para realizar cirurgias plásticas.

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2007 foi em Agosto desse ano que a fiscalização estendeu a sua actividade junto das clínicas de estética privadas.

LIPOASPIRAÇÃO

É a cirurgia estética mais procurada. Consiste numa pequena incisão na área pretendida (barriga, abdómen ou ancas), colocando-se um tubo que aspira a gordura debaixo da pele.

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NEFROLOGIA

O médico que realizou a lipoaspiração é nefrologista (especialidade médica que trata do diagnóstico e tratamento clínico das doenças do sistema urinário).

CLÍNICA DE ESTÉTICA

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A Inspecção-Geral de Saúde diz que a alegada clínica está classificada como consultório médico privado.

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