"Luvas de boxe e pistola apontada à cabeça". As agressões dos polícias do Rato pela voz de uma vítima

"Pensei que ia morrer ali", afirmou. Havia um único "polícia humano" em dois turnos de serviço.

18 de junho de 2026 às 15:13
Esquadra do Rato foi palco de crimes cometidos por polícias Foto: Direitos reservados
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Uma das vítimas dos polícias da esquadra do Rato, em Lisboa, fez um relato impressionante da violência de que foi alvo às mãos de vários polícias. Diz ter sido espancado sem qualquer motivo, ameaçado de morte e que teve medo de morrer. Mas também admite que houve "um polícia humano" que lhe deu água, o "único" entre dois turnos de serviço.

De acordo com o relato de Youssef [nome fictício por razões de segurança] ao podcast de jornalismo de investigação 'Fumaça', o ataque ocorreu numa noite de outubro de 2024, na Baixa de Lisboa, depois de sair com um amigo norte-americano que estava de visita. "Quando saímos do sítio [um bar], vimos um grupo de pessoas à civil. Estavam a bater em alguém. Eram umas cinco ou seis a bater num homem de aparência africana. O meu amigo perguntou-me: “O que é que se está a passar? O que está a acontecer?” Eu disse: “Isto não é nada connosco. Não percebo, mas não quero de todo envolver-nos.” Os dois estrangeiros tiveram de contornar o aglomerado para seguir caminho. "Era a única passagem possível. Aí, um virou-se ao meu amigo e empurrou-o com muita força. O meu amigo quase caiu. Não percebeu o que é que estava a acontecer, levantou-se e ia na direção do homem para lhe perguntar o que se estava a passar. Nisto, eu vi que um deles tinha um rádio walkie-talkie, e outro tinha uma arma. Percebi imediatamente que eram polícias à paisana. […] Apanhei o meu amigo antes que ele fizesse alguma coisa. Disse-lhe ao ouvido: “É a polícia.” […] Quando o agarrei, já estavam em cima de nós — dois em cima dele, e três em mim. Encostaram-nos à parede. Algemaram-nos. Nós dizíamos: “Não estamos a resistir. Não sabíamos que eram polícias. Somos contra a violência. Estávamos só a regressar a casa”. Coisas desse género, mas eles não ouviam rigorosamente nada. Não queriam ouvir. […] Colocaram-me num carro da polícia, sentado atrás, com o homem de aparência africana. O meu amigo seguiu noutro. E fomos levados para a esquadra do Rato", recorda Youssef.

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"Puseram-nos aos três num banco, algemados ao banco, e começaram a bater-nos com os joelhos e com as mãos. Um estava a usar luvas de boxe para nos agredir. Continuaram durante quase uma hora ou mais", continua. Como não tinha o passaporte para ser identificado, os polícias meteram-no num carro e levaram-no a casa. "Passavam a maior parte dos semáforos. Mas pararam num. Não sei porquê, o condutor… O semáforo estava vermelho, tirou a arma do bolso, virou-se para mim e encostou-me a arma à cabeça durante uns cinco, seis segundos. Continuaram a insultar-me. O semáforo ficou verde. Ele voltou ao lugar. Guardou a arma. E continuámos até à esquadra. Quando chegámos, ainda lá esperavam o meu amigo e o outro homem. Sofremos outra ronda de agressões, algemados", garante o homem.

"Neste tempo todo, não nos deram água, não nos trataram de forma minimamente humana. […] A certa altura, às 8 da manhã, aqueles polícias desapareceram. E veio o novo turno. […] Essas pessoas também nos trataram mal, porque não sabiam. Para elas, éramos criminosos. Foi isso que o turno anterior disse. Havia um único polícia humano. Deu-nos água para beber. Como o meu amigo tinha algumas nozes no bolso, deixou-nos comê-las. Mas ficámos algemados todas estas horas. Ainda tenho algumas marcas. Já não estão em ferida…", relatou ao 'Fumaça".

"O que me lembro agora é de que senti que a minha vida estava a desmoronar-se. Senti que nunca mais ia sair dali. Que ia ser deportado, que ia perder tudo e que podia até ser morto ali dentro. E não ia dar em nada, porque, obviamente, sendo negro, imigrante — com a religião que queiras — senti que não tinha qualquer valor. Podia acontecer-me qualquer coisa. Era menos do que um ser humano. E os olhares deles… Eles não se importavam. Estavam a gostar daquilo. Sempre que defendíamos o rosto com as pernas, porque era a única parte do corpo que não estava algemada, um deles vinha baixá-las, para abrir espaço para outro nos acertar na cara. Senti-me humilhado. Senti que isto não podia ser o fim para mim. Já tinha passado quase um ano em Portugal. Ainda estava a tentar construir uma vida em paz […]. Não sei pôr este sentimento em palavras, mas espero que ninguém alguma vez esteja nesta posição", lamenta esta vítima.

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Este processo já levou à detenção, em meados de 2025, de dois polícias: Guilherme Leme, na altura com 22 anos, agente nem há dois, e Óscar Borges, de 25, com dois anos e meio de serviço. Já este ano, o Ministério Público acusou Guilherme Leme de 29 crimes, entre eles, seis de violação ou tentativa, e seis de tortura — aguarda julgamento em prisão preventiva. A Óscar Borges foram imputados sete crimes, dois deles de tortura. Está agora em prisão domiciliária. Em março e maio, foram detidos e constituídos arguidos mais 21 polícias. Sete estão em prisão preventiva, quatro em casa com pulseira eletrónica. Os restantes, diz a PSP, foram mudados de funções.

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