MÉDICA SUCUMBE A PRESSÃO

A médica Maria da Fé Viseu Mesquita, uma das arguidas no caso da alegada megafraude com análises clínicas, que envolve a Casa Pia entre outras instituições, faleceu na madrugada da última quinta-feira, em Lisboa, ao que tudo indica, vítima de ataque cardíaco.

12 de julho de 2003 às 00:00
MÉDICA SUCUMBE A PRESSÃO Foto: josé barradas
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O corpo da malograda médica foi encontrado já sem vida deitado na cama, pela sua mãe, Laura Viseu de 85 anos, cerca das 9h30.

Na véspera, Maria da Fé não se sentira muito bem e mostrava sinais do 'stress' a que estava submetida, nomeadamente com a dilatação da jugular, de acordo com uma amiga que esteve com ela nesse serão.

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Segundo a família e pessoas amigas, a médica não terá resistido à pressão da Justiça, tanto mais que sofria de diabetes, erisipela (uma infecção linfática), tensão alta e tinha, no último ano e meio, desenvolvido dois princípios de ataques cardíacos declarados.

Aliás, aquando da sua apresentação à juíza do TIC, esta teria ficado impressionada com os sintomas claramente visíveis em Maria da Fé. Apesar de tudo, foi-lhe determinada a segunda medida de coacção mais grave (depois da prisão preventiva) e a médica, ironia do destino, faleceu no dia previsto em que lhe iria ser aplicada a pulseira de vigilância electrónica.

O estado de saúde de Maria da Fé, conhecida no bairro da Ajuda pela sua disposição em atender clinicamente as famílias mais desfavorecidas, nomeadamente de etnia cigana, agravou-se significativamente depois de 23 de Junho, quando, às 7h30 da manhã, uma brigada do TIC e Polícia Judiciária passou busca à sua habitação.

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"A senhora e os três ou quatro senhores que vieram aqui não levaram nada que a comprometesse. Não levaram nada porque não tinham nada que levar", contou ao CM a mãe da falecida, acrescentando: "Do consultório levaram-lhe papéis e as fichas dos doentes".

Já depois de decretada a prisão domiciliária e nomeadamente aquando da visita das duas técnicas do Instituto de Reinsercção Social, nos trabalhos preliminares para a aplicação da pulseira electrónica, Maria da Fé mostrara-se muito agitada.

De acordo uma amiga que a assistiu nos últimos dias, Maria da Fé preocupava-se com a necessidade de ter cuidados clínicos regulares e de como iriam, ela e a mãe, sobreviver, ao contrário do que se deixou transparecer, a médica vivia modestamente do seu trabalho, não se lhe conhecendo enriquecimento súbito.

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Só o medo da alternativa: a prisão preventiva em estabelecimento prisional, a fizeram aceitar esta medida imposta, apesar da carga psicológica adjacente, tanto mais que tinha a seu cargo a sua idosa mãe.

Suspeitas de megafraude

Maria da Fé fora constituída arguida no processo da megafraude das análises clínicas, juntamente com Maria Geraldo Marques - ambas do centro de recolha de análises Rapimédica - e com Delmira Costa, do Laboratório Subtil. Envolvido estaria também o médico Rui Dias, ex-director do serviço médico da Casa Pia, que trabalhava igualmente no laboratório Subtil e no Centro de Saúde de Sete Rios. A fraude, segundo o Ministério Público, envolverá a verba de 2,5 milhões de euros.

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