Morreu a salvar rega

A primeira vítima civil dos fogos “queria salvar dois mil metros de tubo da água e acabou por morrer”, explicou ontem José Fernandes, uma das últimas pessoas a ver António Tavares com vida. O habitante de Reigoso esteve com o reformado, na serra, pelas 14h30 e tentou convencê-lo a regressar de tractor à aldeia, mas ele insistiu em ir a pé.

16 de agosto de 2006 às 00:00
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A morte do homem, de 68 anos, na segunda-feira, chocou a aldeia, em Oliveira de Frades. “Andou dois quilómetros a pé e morreu a 50 metros da estrada”, diz José Fernandes: “Foi deixando cair o balde e o sacho pelo caminho, estava de barriga para cima e completamente carbonizado.”

António Tavares, antigo funcionário das bombas de gasolina da aldeia, era “um homem bom e trabalhador. Vinha com a filha à procura dele, quando, pelas 17h30, nos disseram que estava uma pessoa morta. A filha começou logo a chorar e foi-se embora”, conta o amigo. Luís Pereira, genro de António Tavares, recorda que o sogro andava “desde as 07h00 no fogo”. Um “grande choque” tomou conta da família que “não contava com uma coisa destas”. Fernanda Tavares, habitante de Reigoso, garante que “quem dissesse mal dele, dizia mal de Deus”.

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Viúvo há oito anos – a mulher morreu na sequência de uma queda quando estava a estender a roupa – António Tavares vivia sozinho. Deixa uma filha de 41 anos, proprietária de um posto de combustível em Reigoso e um filho, de 37 anos, emigrante na Suíça.

CRÍTICAS

Fernando Farreca, comandante dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Frades, critica “os maus acessos nas matas estatais” que tem sido o maior obstáculo ao seu trabalho e é um problema “causado pelo próprio Estado. A situação chegou a este ponto por culpa do Estado, que é o proprietário dos terrenos, mas não os limpa”, afirma.

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“A situação é vergonhosa. Estas matas são do Estado, mas não são limpas há vários anos. Os carros não conseguem entrar nestas matas, porque não há caminhos e a floresta é muito densa e alta”, explica o comandante dos bombeiros. Luís Vasconcelos, presidente da Câmara de Oliveira de Frades, adianta que “o Estado não pode obrigar os privados a fazer aquilo que ele próprio não faz”.

Um pedido de limpeza, que ficaria a cargo da autarquia, de uma das áreas consumidas pelo incêndio – no perímetro do Ladário – foi feito “há dois, três meses e até agora não recebemos nenhuma resposta”. Por isso, “não se pode condenar apenas os privados por não limparem”, conclui o autarca.

PENEDA-GERÊS SEM CALAMIDADE PÚBLICA

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O secretário de Estado da Administração Interna, Ascenso Simões, disse ontem que não se justifica a declaração de calamidade pública no Parque Nacional da Peneda-Gerês, reclamada pelos autarcas. O governante, que falava numa conferência de Imprensa no Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC), em Lisboa, agradeceu a colaboração dos ministérios da Agricultura e do Ambiente com o da Administração Interna. Esta declaração surge na sequência de Ascenso Simões ter admitido “dificuldades nas relações” com o Instituto para a Conservação da Natureza, tutelado pelo Ambiente, na construção de caminhos para defender as áreas protegidas.

O comandante nacional do SNBPC, Gil Martins destacou que os incêndios ocorridos no País entre o dia 5 e o passado domingo (nove dias) representam 32 por cento do total desde 15 de Maio (ver infografia). Acrescentou que a coluna de socorro portuguesa que esteve desde dia 8 na Galiza foi ontem desmobilizada, tendo regressado a Portugal, onde foi recebida em Carnaxide pelo ministro António Costa.

UM POR CONTROLAR

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Às 21h00 de ontem estava por controlar apenas um incêndio em todo o País. As chamas lavravam em Barco, Covilhã, desde as 13h20 e eram combatidas por 184 bombeiros, 52 viaturas, quatro helis, dois aviões médios e um pesado. Estavam no local três máquinas de rasto e grupos de reforço de Santarém e Portalegre.

ARCOS DE VALDEVEZ

O incêndio que consumiu uma vasta área do Parque Natural da Peneda-Gerês foi extinto na madrugada de ontem. Durante o dia mantiveram-se no terreno mais de 200 bombeiros.

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NEGATIVO

O presidente do CDS-PP, José Ribeiro e Castro, considerou ontem “extremamente negativos” os “sinais de desentendimento” entre os ministérios do Ambiente, Administração Interna e Agricultura no tratamento do dossiê dos fogos.

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