MORREU VESTIDO À BENFICA

"Estou cansado". Foram estas as últimas palavras de Afonso Figueiredo Santos, de 12 anos, que no passado sábado faleceu durante um jogo de futebol na aldeia de Alvoco da Serra, concelho de Seia. Morreu em campo vestido à Benfica, clube de que era adepto.

12 de abril de 2004 às 00:00
MORREU VESTIDO À BENFICA Foto: André Amaral
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"Estávamos a jogar cinco contra cinco e o jogo tinha começado há muito tempo. O Afonso deitou-se no chão, disse que estava cansado, virou-se, e não disse mais nada..." conta José Luís Pinto, um dos companheiros de jogo.

Segundo este colega de escola, "o Afonso era um rapaz que se dava bem com toda a gente, apesar de ser uma pessoa que se irritava com alguma facilidade" referiu.

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Afonso Santos estudava no 7.º ano na Escola EB 2,3 de Loriga e durante o passado ano lectivo participou "num torneio de futebol de escolas em Celorico da Beira" contou António Alves, tio do rapaz. "Nesse torneio ele sentiu-se mal, mas depois foi fazer exames e não lhe foi detectado qualquer problema" referiu.

Este familiar refere que o jovem era um adepto ferrenho do Benfica e que tinha ido para o jogo "com uma camisola do Benfica".

Carlos Antunes, um outro familiar, acrescenta, emocionado: "Duas horas antes tinha estado a falar com ele e perguntei-lhe se o Benfica ia conseguir ganhar o jogo contra o Paços de Ferreira".

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SENTIU-SE MAL

João Brito, presidente da Junta de Freguesia de Alvoco da Serra acompanhou de perto os acontecimentos: "Eles estavam a jogar normalmente e ele começou a sentir-se mal, depois sentou-se no chão e desmaiou".

O autarca acrescenta que o jovem tinha ido para a aldeia "acompanhado pelos pais, que tinham vindo assistir a uma cerimónia da Junta de Freguesia". João Brito refere ainda que "nunca tinha acontecido um caso destes aqui na zona".

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Os populares das aldeias de Vasco Esteves de Cima e de Alvoco da Serra estavam chocados com a morte de Afonso Figueiredo Santos. "É muito triste ver desaparecer uma pessoa tão jovem e ainda na flor da idade" afirmava uma idosa. E acrescentava: "Não há justiça neste mundo. Ver morrer pessoas assim tão novas, quando há por aí pessoas que não merecem cá andar".

MORTE SÚBITA

Segundo informações do Hospital de Seia, "o jovem deu entrada no serviço de urgência em paragem cardio-respiratória".

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Paulo Monteiro, o médico que prestou assistência naquele hospital, adianta que "o jovem entrou aqui com vida, mas apesar de todas as tentativas para o reanimar ele acabou por falecer na sala de urgência".

O médico adianta ainda que se trata de mais um caso de "morte súbita" à semelhança do que se passou com o jogador benfiquista Fehér.

Segundo aquele clínico "não foi utilizado um desfibrilhador, as tentativas de reanimação foram feitas através de massagens cardíacas".

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A autópsia ao jovem "que tem por objectivo apurar as causas que lhe provocaram a paragem cardio-respiratória ainda não foi feita e a sua marcação está dependente do Ministério Público da Guarda" referiu aquele médico.

ESTUDAR AS CAUSAS "ATÉ À EXAUSTÃO"

As causas da morte de Afonso Santos, de 12 anos, durante um jogo de futebol, deverão ser estudadas "até à exaustão", para aferir se o jovem terá morrido ou não de uma doença cardíaca — e se seria uma doença congénita.

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De acordo com Vítor Gil, presidente do Conselho Científico da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, a morte de Afonso poderá ter sido motivada por "um problema congénito no coração" - o mais comum é a miocardiopatia hipertrófica. No entanto, convém esclarecer se "há casos similares na família ou se já teria havido ameaças no jovem".

A incidência de casos de morte súbita em atletas é de 2 por 100 mil/ano, pelo que só a autópsia poderá revelar "se este não seria um caso que podia ter sido diagnosticado". Vítor Gil alerta ainda para o facto de "haver várias doenças cardíacas que são incompatíveis com a prática de actividades desportivas".

CINCO MORRERAM DEPOIS DE FEHÉR

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MADEIRA

Desde o caso de Miklos Fehér, a 25 de Janeiro, foram conhecidas cinco mortes em jogos de futebol amador originadas por problemas cardio-respiratórios. A primeira ocorreu logo dois dias depois e envolveu um funcionário do Nacional da Madeira, de 45 anos, que deixou três filhos menores.

VISEU

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A 1 de Fevereiro, um rapaz de 14 anos caiu inanimado no ringue durante uma partida de futebol entre amigos, na aldeia de Nelas, Viseu. Foi socorrido pelos bombeiros, mas veio a falecer no hospital. Era adepto do Benfica, tal como o jovem Afonso Figueiredo Santos, que faleceu no sábado.

BRAGA

Há seis semanas um instrutor de condução de 36 anos morreu quando jogava à bola com amigos, em Braga. Mais de 40 minutos de massagem cardíaca não chegaram para o salvar. No dia 17 de Fevereiro, em Beja, um militar da GNR de 44 anos faleceu em circunstâncias semelhantes.

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