MUDANÇAS NA BELA VISTA
A Câmara de Setúbal está a ponderar a demolição do Bairro Azul da Bela Vista, naquela cidade. O projecto não tem ainda contornos bem definidos, mas a autarquia não esconde que está a considerar a hipótese. Os cerca de 15 mil habitantes que ali residem seriam depois realojados numa zona nova e dotada de melhores condições.
Para além do plano de recuperação dos bairros sociais do Forte da Bela Vista, Alameda das Palmeiras, 2 de Abril, 20 de Julho, e 25 de Abril, que apresentou no início deste mês, e onde planeia gastar 3,7 milhões de euros, o executivo autárquico sadino espera aproveitar as verbas do Programa Integrado de Qualificação das Áreas Suburbanas da Área Metropolitana de Lisboa (Proqual), para ir ainda mais além.
Em causa está a recuperação de uma zona, o Bairro Azul da Bela Vista, onde, segundo Carlos de Souza, presidente da Câmara de Setúbal, “já resta pouco espaço para obras de recuperação”.
“Devido à forma como foi construído, o Bairro Azul inviabiliza grandes melhoramentos”, referiu.
“Existem um grande número de casas, entregues pelo Estado à anterior gestão autárquica, visivelmente degradadas exterior e interiormente. A Câmara, enquanto senhoria de vários milhares de pessoas ali residentes, tem poucas possibilidades de financiar as obras de recuperação necessárias”, concretizou Carlos de Sousa.
ESTUDOS NECESSÁRIOS
As primeiras ideias para a demolição do Bairro Azul surgiram no início da actual gestão autárquica. Com o início do programa Proqual, começaram a ser recolhidos diversos estudos, que deixavam em aberto a possibilidade de aproveitamento de terrenos existentes nas imediações, para a construção de uma alternativa à urbanização do Bairro Azul.
“Existem no local 167 fogos, e a única possibilidade, nas imediações, para reconstruir uma urbanização semelhante, com condições superiores, seria nos terrenos situados nas traseiras do bairro, que vão ligar ao campus do Instituto Politécnico de Setúbal”, explicou Carlos de Sousa.
No entanto, até à concretização destes planos, “resta ainda muito trabalho”. As particularidades da zona da Bela Vista vão obrigar, segundo Carlos de Sousa, à realização de vários estudos, de diversas índoles.
“O que se pretende com a procura de soluções para a zona da Bela Vista é organizar as pessoas. Mais do que investir em cimento, espaços verdes ou equipamentos, há que apostar em acções que melhorem a auto-estima das pessoas”, concluiu.
POPULAÇÕES DEVEM SER PRINCIPAIS BENEFICIADAS
Mudar, desde que seja para ver melhoradas as condições de vida das populações. É esta a opinião dos responsáveis de associações e instituições de solidariedade social ouvidas pelo CM, e que operam no interior da Bela Vista.
Dirigente do Centro Cultural Africano (CCA), Mariana Frechaut referiu que já desde há algum tempo que corre no bairro, “em forma de boato”, a possibilidade de demolição do Bairro Azul. No entanto, enquanto este facto não assume contornos reais, importa, de acordo com a dirigente associativa, “tratar de problemas bem mais concretos”. “As casas, em todos os pontos da Bela Vista, estão em muito más condições. Por isso, a Câmara devia mobilizar as verbas disponibilizadas pelo Proqual, para efectuar uma melhoria geral no aspecto do Bairro”, salientou Mariana Frechaut. Se o caminho escolhido for, de facto, a construção de um novo empreendimento de habitação social, “ele só deve ir avante se servir para resolver as necessidades das pessoas”, acrescentou.
Opinião semelhante tem Eugénio Fonseca. Para o presidente da Cáritas Diocesana, presente igualmente na Bela Vista com uma série de valências de apoio a crianças e idosos, “todo o bairro foi construído, logo desde início, de uma forma errada, tirando condições de vida às populações”. Por isso, se a ideia da Câmara, ao demolir o Bairro Azul, for a de proporcionar melhores condições de vida às populações, “então a Cáritas apoia”. “No entanto, o diálogo com as populações é fundamental”, concluiu.
MORTE DO 'TONI'
Nos últimos dois anos, a Bela Vista mudou. A opinião é do presidente da Câmara de Setúbal, para quem a “morte trágica” de Manuel António Pereira, conhecido como ‘Toni’, “trouxe um maior sentimento de unidade ao bairro”.
ANÁLISE SOCIAL
Antes de proceder a quaisquer obras de reestruturação nos vários bairros que compõem a zona da Bela Vista, a Câmara de Setúbal quer efectuar um levantamento sociodemográfico de toda a zona.
PLANO REVISTO
Em paralelo à discussão dos planos de mudança para a zona da Bela Vista, a autarquia sadina procedeu, no início deste mês, à revisão do Plano Director Municipal do concelho, com o objectivo de identificar as áreas de maior necessidade.
PRAZOS TEMPORAIS
Carlos de Sousa não se compremete com prazos temporais. Em vez de adiantar uma data para o surgimento de uma nova Bela Vista, o presidente da Câmara de Setúbal prefere esperar pelo processo de análise de todas as alternativas.
ESTIGMA ERRADO
O executivo autárquico está frontalmente contra o estigma de bairro perigoso atribuído à Bela Vista. O presidente da Câmara de Setúbal chega mesmo a garantir que em diversas ocasiões, andou “na Bela Vista à noite, sozinho, sem quaisquer problemas”.
SESSÃO PÚBLICA
Em sessão pública de Câmara, o vereador do urbanismo, Aranha Figueiredo, mostrou-se convencido de que “as pessoas da Bela Vista querem mudar do que têm, para melhor”.
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