Mutilado por doze mil euros da droga

James Ross devia dinheiro do tráfico de haxixe a John Maclean. Cortaram-lhe cinco dedos e uma orelha em 13 dias de rapto

19 de outubro de 2010 às 00:30
Inglês, Rapto, Droga Foto: Luís Costa
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Enquanto o cadáver de James Ross era procurado no fundo e nas margens da barragem de Santa Clara pelos mergulhadores da GNR, já no segundo dia de buscas, o inglês raptado no Algarve deu ontem de manhã sinal de vida – contra todos os indícios recolhidos pela PJ, que apontavam no sentido do homicídio.

Foi encontrado no meio da estrada, em Alfontes, perto de Boliqueime, Loulé, por Carlos Pereira. "Vinha a cambalear e pediu-me para parar, de braços no ar. Não tinha a orelha esquerda, faltavam-lhe dois dedos na mão esquerda, um num pé e dois no outro. Tinha uma perna ferida."

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Marcas de 13 dias de tortura, por uma dívida de 12 mil euros do tráfico de haxixe, que Ross devia a John Maclean – um dos quatro raptores britânicos que já estão na cadeia, conforme o CM avançou ontem em primeira mão. O inglês já tinha sido ameaçado pelo grupo de compatriotas em Inglaterra, no dia em que lhe invadiram a casa, e, em 5 de Outubro, foi atraído ao Algarve, com Maclean a prometer-lhe que, se ajudasse a tratar de uma plantação de canábis no nosso País, podia amortizar parte da dívida. Aterrou em Faro às 21h00 e foi desde logo raptado.

Além de Maclean, a PJ prendeu Terrence Macgurk, Macleod Calum e Ronnie Rose, sexta-feira, na convicção de que já tinham assassinado a vítima. Mas, ontem, esta foi libertada por outros cúmplices, ainda à solta, numa casa da zona onde era torturado e mutilado por não pagar a dívida. Está por horas a detenção de mais suspeitos.

O trabalho da PJ e a notícia do CM sobre os quatro raptores que já estão na cadeia por suspeitas de terem matado a vítima, depois de ter sido encontrado o Mercedes do grupo, incendiado na barragem, terão feito com que elementos à solta "se assustassem", admitem fontes ligadas ao processo, tendo o britânico sido libertado logo depois de o jornal ter chegado às bancas.

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SILÊNCIO DA VÍTIMA POR MEDO PODE LEVAR À LIBERTAÇÃO DOS 4 RAPTORES

O testemunho de James Ross é agora fundamental para acusar qualquer um dos seus raptores – os quatro já presos ou outros. O britânico terá de fazer um reconhecimento positivo de todos, mas a Polícia Judiciária teme que a vítima agora se cale, alegando não conseguir reconhecer ninguém. Isto porque Ross e a família já foram ameaçados de morte várias vezes, inclusive quando lhes invadiram a casa de Manchester, com facas, em Agosto, por não pagar os 12 mil euros de dívida ligada à venda de haxixe. O inglês teme agora represálias dos elementos da rede de tráfico que se encontram à solta. Uma das medidas agora ponderadas, até ao julgamento, diz respeito à segurança pessoal da vítima – que ontem à tarde foi transferida do Hospital de Faro para São José, em Lisboa, depois de os raptores lhe terem cortado cinco dedos e uma orelha durante 13 dias de cativeiro no Algarve.

"ESTÁ ENFIADO NUMA JAULA E JÁ LHE PARTIMOS OS BRAÇOS"

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Dois dias depois de o marido ter sido raptado, pelas 16h00 de dia 7, Donna Ross recebeu uma chamada que a Polícia Judiciária identificou como tendo sido feita de uma cabina telefónica no Fórum Montijo. Do outro lado da linha, a mulher da vítima conheceu a voz de John Maclean, sendo que Terrence Macgurk e Macleod Calum estavam ao seu lado: segundo o raptor, James Ross estava metido dentro de uma jaula, no meio do mato, inconsciente, e já lhe tinham partido as pernas, os braços, os pés, os tornozelos e as costelas.

Há já dois dias que Donna vivia em pânico com os filhos, na casa perto de Manchester, a temer pela vida do marido, mas John Maclean terminou o telefonema a informá-la de que o marido seria poupado e regressaria a casa depois de curado, se ela não alertasse a polícia. Caso contrário, James Ross seria executado.

Esta conversa foi escutada pela polícia inglesa, em articulação com a Judiciária, que manteve vigilância apertada aos quatro raptores já conhecidos até à última sexta-feira, dia 15, altura em que foram feitas as quatro detenções. O grupo movimenta-se no Algarve e a passagem pelo Montijo, no dia 7, está relacionada com o facto de Maclean, cabecilha da rede, ter ali casa. Os quatro raptores nunca ‘conduziram’ a PJ à vítima, pelo que os investigadores consideraram a sua morte.

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