NÃO CONFIAVA DE TODO NELA
Foi um amigo que o apresentou a Maria da Graça, mulher cuja fama de burlona não lhe era desconhecida. Mas José Carlos Abreu, empresário, confiou e entregou-lhe jóias no valor de 500 mil euros para que a mulher as vendesse à nobreza espanhola.
“Tinha a convicção de que o negócio ia correr bem”, alega agora o empresário, depois de apresentar queixa na Polícia espanhola contra Maria da Graça, agora detida por extorsão, abuso de confiança e burla.
Luís Carlos Abreu queixou-se primeiro à Polícia Judiciária mas, face à inoperância, resolveu meter-se a caminho e, em Madrid, falou com as autoridades, motivando-as a investigarem, o que não foi difícil, pois Maria da Graça, de 54 anos, estará já indiciada pela prática de mais crimes de burla naquele país.
A mulher acabou por ser detida sexta-feira, dia em que, na posse de um mandado de busca, a Polícia revistou-lhe a casa e encontrou três dos anéis entregues pelo empresário e muitos documentos.
“Encontraram documentação em que todas as jóias foram penhoradas na Caixa de Madrid”, revelou o empresário à SIC, especificando: “Encontraram 27 cautelas de penhor de jóias que foram, em diferentes datas, postas no banco.” E através dos documentos apreendidos descobriu-se que “ela usou três nomes diferentes e um que ela neste momento utiliza em Espanha e que é falso”, acrescentou.
Proprietário de uma fábrica de telhas em Vila das Aves, Santo Tirso, Porto, José Carlos Abreu lamenta ter acreditado no amigo a quem chegou a pedir um termo de responsabilidade pela entrega das jóias a Maria da Graça: “Porque eu não confiava de todo nela”, frisa, acrescentando que quando aceite o pressuposto, foi a Espanha e entregou as jóias ao amigo e este entregou-lhe o documento exigido. Mas uma semana depois, a mulher telefona-lhe a pedir mais jóias para vender.
“Quando numa segunda vez me encontro com ela em Madrid diz-me que vai ser feita uma transferência de 75 mil euros de vendas que já tinha efectuado e entrega-me dois cheques do Banesto para pagar quatro anéis que tinham sido vendidos. A transferência bancária nunca aconteceu e os cheques foram devolvidos por falta de provisão.”
Ciente de que não ia reaver as jóias, o empresário pressionou a mulher. Mas ela retaliou dizendo-lhe que as jóias eram roubadas e que se as quisesse tinha que lhe dar 50 mil euros em dinheiro. “Pois muito bem; eu não roubo jóias, eu tenho facturas de tudo e para lhe provar que as jóias não são roubadas vou para a Justiça”, avisou-a.
ACUSADA
Maria da Graça foi acusada de ter pago a subinspectores e investigadores da PJ para que a livrassem dos mandados de captura por burlas com cheques.
PENA
O caso ficou conhecido como ‘Sãobentogate’ e Maria da Graça foi julgada à revelia, em 1993. Condenada à cadeia, não cumpriu a pena por estar em Espanha.
MADRID
Maria da Graça vive em Espanha desde finais dos anos 80. Casada, reside na Vila Maior de Santiago, em Madrid, cidade onde arranjou trabalho numa loja.
Filha de gente modesta, Maria da Graça Lopes Bastos nasceu no dia 31 de Dezembro de 1948, no Cais Novo, em Darque, Viana do Castelo.
Com 13 anos partiu para Paris, França, e empregou-se no Instituto Pasteur, acedendo à alta sociedade. Aos 19 anos casou com um espanhol, de quem teve uma filha. Separada do marido e da filha, que fica entregue ao pai, Maria da Graça fez vida em Paris.
Nos anos 70 regressou a Portugal e fixou residência no Porto. Aqui viveu no fausto, com dinheiro de terceiros, até finais dos anos 80, quando é acusada de burlas e detida em Custóias. Hoje vive em Espanha, Madrid, onde trabalha.
Francisco Nicholson escreveu ‘O Olhar da Serpente’, um argumento baseado na história de Maria da Graça. Na televisão, a vilã foi interpretada por Helena Laureano – ‘Maria dos Prazeres’ –, que sentiu dificuldade em encarnar uma mulher sem sentimentos maternais.
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