No reino da bruxaria

Desde anteontem à noite que, no reino da bruxaria, todos os caminhos vão dar a Vilar de Perdizes, no concelho de Montalegre, para o XX Congresso de Medicina Popular. Neste evento há espaço para todos: exorcistas, bruxos, endireitas, tarólogos, homeopatas, espíritas e, claro, charlatães. No Salão da Casa do Povo têm lugar as comunicações, que ainda hoje, 20 anos depois do primeiro congresso, arrastam muitos interessados, já que a sala está sempre repleta.

02 de setembro de 2006 às 00:00
No reino da bruxaria Foto: Luís C. Ribeiro
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Para a edição deste ano, António Lourenço Fontes, o místico padre de Vilar de Perdizes, escolheu como pontos fortes “exorcismo, satanismo e o poder curativo através das plantas”, temas que no ano passado arrastaram milhares de pessoas, como foi o caso do debate entre exorcistas.

“Esperamos milhares de pessoas, porque cada vez mais a cura através das plantas marca pontos nas populações. O espaço reservado ao ‘stand’, onde funciona a feira, este ano está melhorado para que quem compra e vende os seus produtos ou serviços tenha comodidade. Vinte anos depois, o Congresso continua actual, porque a descrença na medicina tradicional acentua-se”, disse o padre Fontes.

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O padre António Fontes disse ao CM que o Congresso é uma forma de promover a região, a sua gastronomia, tradições e a sua paisagem. “Muita gente pensa que tudo isto são apenas os dias do Congresso. Hoje, mais de uma dezena de mulheres dedica-se exclusivamente às ervas, desde a apanha à venda aos milhares de pessoas que visitam Vilar de Perdizes ao longo do ano”, disse.

O pároco lembrou que o congresso de Vilar de Perdizes nasceu numa altura em que as tradições e a medicina popular estavam a cair em desuso, devido à concorrência ou oposição da “medicina química ou moderna”. “O primeiro congresso nasce da necessidade de registar, dar a conhecer o uso da medicina caseira, tradicional, ainda muito válida apesar da chegada em 1975 do Serviço Nacional de Saúde ao País e às minhas paróquias”, salientou. Mais de 20 anos depois, o objectivo da iniciativa mantém-se actual porque pretende dar a conhecer às pessoas “o valor da medicina popular e o poder das plantas para combater as doenças”.

Na noite da abertura do XX Congresso de Medicina Popular falaram Ilda Costa Pereira, que desvendou 15 Segredos contra epidemias”, Denise Resende a falar sobre “sofrimento e libertação”, e Orlando Batista a debater “o cólon no século XXI”.

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“O congresso Vilar de Perdizes transformou-se num ponto de encontro de culturas, credos, medicinas, religiões, saberes, uma feira original, popular e erudita, um espaço para questionar métodos e crenças, novidades e antiguidades, uma ocasião para conhecer o País profundo, oculto e esquecido”, segundo o padre António Fontes, que reconhece que a junção do sagrado e do profano protagonizado por um padre deu mais-valia e chamariz ao congresso, “muito embora me tenha acarretado problemas junto dos meus superiores eclesiásticos”, finalizou.

Durante os quatro dias do congresso, videntes, médiuns, curandeiros e ervários vão estar espalhados por cerca de 60 ‘stands’ instalados em Vilar de Perdizes. Podem ainda ser encontrados ‘endireitas’ e massagistas que, além de intervirem no congresso, vão tratar as pessoas em demonstrações públicas.

UMA FEIRA POPULAR E ERUDITA

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Na feira, poucas novidades aparecem em relação ao ano passado. Uma das excepções é a moçambicana Graciete Andrade, que apresenta num ‘stand’ simples e sem grandes alaridos “a leitura da vida das pessoas através de ossos de animais africanos”.

Esta participante, residente em Penafiel, disse ao CM vir a Vilar de Perdizes para “conhecer por dentro o fenómeno do Congresso”.

Com uma navalha num canto da mesa e algumas moedas escuras, já fora de circulação, no lado oposto, Graciete ‘deita’ os ossos na mesa. “A partir daqui vemos o passado, presente e futuro das pessoas”.

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Quando confrontada do porquê dos ossos de animais africanos, explica: “Sou africana, frequentei cursos de medicina tradicional africana, guio-me através de guias espirituais de Moçambique, onde só se trabalha com ossos de animais. Todos os anos desloco-me a África para fazer uma cerimónia, com ‘mães espirituais’, além de aperfeiçoamentos com os meus Mestres”, explicou.

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