O contra-ataque da terra

É a vingança da Terra. Depois de, a 30 de Junho de 1908, um corpo espacial de 50 metros de diâmetro ter caído sobre a Sibéria, devastando dois mil quilómetros quadrados de taiga, é a vez do Homem mostrar que não está de braços cruzados à espera de nova ameça vinda do céu.

03 de janeiro de 2005 às 00:00
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Há 96 anos na Sibéria, a tragédia podia ter sido uma das piores da história se a região afectada fosse povoada, por exemplo, como a Europa ocidental. Para tentar evitar uma catástrofe futura a NASA está a ultimar a ‘Deep Impact’ (Impacto Profundo), uma nave com lançamento marcado para 12 de Janeiro e rota traçada. Objectivo: colidir com o cometa Temple 1, criando uma cratera que pode ir aos 25 metros de profundidade e cem de diâmetro.

Podia ser o argumento de um filme, mas trata-se de uma missão bem real, que pretende identificar o que contém o interior do cometa e perceber o que se passa no seu núcleo. Os trabalhos, que começaram em Janeiro de 1999, terão o seu ponto alto a 4 de Julho, dia da Independência dos EUA, quando se prevê que a nave dispare um projéctil em direcção ao cometa, responsável por uma explosão capaz de libertar energia equivalente a 4,5 toneladas de TNT. Se tudo correr bem, será a primeira nave a tocar a superfície de um cometa, numa viagem de 431 milhões de quilómetros.

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FOGO-DE-ARTÍFICIO CELESTIAL

“Vai ser uma missão muito excitante e podemos ser todos testemunhas, enquanto a nave proporciona ao planeta o primeiro fogo-de-artifício celestial feito pelo Homem”, afirma Rick Grammier, um dos especialistas envolvidos no projecto. Um espectáculo que será da responsabilidade de uma espécie de projéctil de cobre, preparado para se autodestruir ao mesmo tempo que escavará a cratera.

Pelos cálculos da agência espacial norte-americana, a missão, que custou qualquer coisa como 243 milhões de euros, tem apenas um por cento de probabilidade de não cumprir os objectivos e atingir o alvo. E não há também risco da ‘Deep Impact’ colocar o cometa em rota de colisão com o nosso planeta.

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Pelo contrário, se tudo correr como o esperado, os cientistas vão conhecer mais sobre estes corpos, formados por gelo, gás, poeiras e detritos do sistema solar, alguns que datam da sua formação e, quem sabe, descobrir uma forma de afastar um cometa assassino da Terra.

'IMPACTOR' VAI SACRIFICAR-SE PELA HUMANIDADE

Ao longo de cinco anos, uma equipa da NASA, a agência espacial norte-americana, dedicou-se à construção da ‘Deep Impact’, uma nave com uma missão especial. Baptizada com o nome de um filme de 1998, que narra a história de um cometa em rota de colisão com a Terra, pretende ser a protagonista de uma cena digna do melhor filme de Hollywood.

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Composta por duas partes distintas – a nave e aquilo a que os americanos deram o nome de ‘impactor’, ou seja, o responsável pela explosão na superfície do cometa – a ‘Deep Impact’ transportará a bordo todos os instrumentos de navegação e terá capacidade para receber e transmitir dados.

Quanto ao ‘impactor’, a parte que se irá destacar do corpo principal da nave, irá dispor de um sistema de navegação próprio que lhe permitirá chegar até ao núcleo do cometa e, graças à energia produzida pelo impacto com o corpo celeste, escavar uma cratera de aproximadamente 100 metros de diâmetro e 25 de profundidade.

Um processo que será acompanhado a par e passo na Terra, através de imagens recebidas primeiro do ‘impactor’, antes da sua colisão com o cometa e, mais tarde, da nave que o transportou até ao local e que se espera que regresse à base sem problemas de maior.

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SE O COMETA DE 1908 CAÍSSE CÁ?

E se um cometa como o que devastou parte da Sibéria em 1908 caísse sobre o nosso país? Só a ideia já assusta, mas assustador é também o que poderia acontecer. A queda de um cometa ou meteoro com a mesma dimensão do da Sibéria sobre a Grande Lisboa resultaria na destruição de mais de 90 por cento da sua área. O mesmo acontecia se o destino tivesse sido o Porto, que teria desaparecido sob os escombros, ou os Açores, com o arquipélago devastado quase na totalidade. Mas a devastação não se fica por aqui. A destruição que arrasou a taiga siberiana tinha três vezes o tamanho da Madeira, pelo que aquele conjunto de ilhas também não escaparia se o mesmo lhe acontecesse. Um cenário negro, que os cientistas querem evitar.

'É SEMPRE IMPORTANTE'

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Máximo Ferreira, coordenador do Centro Ciência Viva de Constância.

Correio da Manhã – Qual a importância de uma missão como esta?

Máximo Ferreira – É sempre importante porque vai permitir verificar se aquilo que pensamos sobre o que é um cometa, estabelecido à distância, está ou não longe da realidade.

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– Qual a probabilidade da Terra ser atingida por um cometa ou asteróide?

– A probabilidade foi sempre pequena e é cada vez mais ínfima, já que eles vão caindo, existindo cada vez menos. Por outro lado, há mais recursos e tecnologia disponível para os detectar. Sendo assim, temos mais razões e é mais fácil pensar que vai ser possível desviar a trajectória de um asteróide que se encontre em rota de colisão com a Terra.

O MAIS ANTIGO

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Não restam muitas dúvidas aos cientistas que os dinossauros se extinguiram há 65 milhões de anos, como resultado de profundas alterações climáticas. E defende-se que o responsável de tudo isto tenha sido o impacte de um meteoro com o planeta Terra.

O MAIS RECENTE

Os relatos referem a existência de traços luminosos nos céus de Toungouska, na Sibéria, a 30 de Junho de 1908. Pouco depois da explosão de um meteorito, um corpo de 50 metros de diâmetro despenhou-se sobre uma floresta, destruindo 2 mil quilómetros quadrados.

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A VINGANÇA

A 4 de Julho próximo, a Terra vai contra-atacar, numa missão preparada durante cinco anos. A ‘Deep Impact’, uma nave concebida pela Nasa, vai partir em direcção ao cometa Temple 1, com o qual vai colidir, abrindo uma cratera que pode ser do tamanho de um estádio de futebol.

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