“Pensei: podia ter sido eu”
João André cresceu, já não é mais um menino, mas as memórias mantêm-no preso ao passado. Durante treze anos questionou-se vezes sem conta e recordou quase diariamente o dia 4 de Março de 1998. Combinou encontrar-se naquela tarde com o primo Rui Pedro, o menino de onze anos que desapareceu de Lousada, e também com Afonso, agora acusado de rapto. A mãe não o deixou.
"Durante treze anos questionei-me bastante. Muitas vezes pensava que podia ter sido eu a ser raptado, em outras ocasiões achava que se tivesse ido com o Rui Pedro ele hoje estaria connosco. A minha tia não teve a oportunidade de ver o filho crescer. Ela olha para mim e tenta ver o Pedro", explica, emocionado, João André.
João, que na altura tinha doze anos, recua no tempo e recorda o último dia em que viu o primo. "Saímos da escola às 13h00, quando o Afonso apareceu. Na última semana ele andava sempre por ali. Convidou-nos para ir fazer fisgas e depois disse para irmos ter com prostitutas. Éramos miúdos e nem sabíamos bem o que íamos fazer. Confiávamos no Afonso e não achámos que nos fosse fazer mal", recorda.
Rui e o primo combinaram enganar a família. O primeiro iria dizer à mãe que ia andar de bicicleta e João contaria que ia estudar para casa da tia Filomena. A mãe de João não acreditou e proibiu-o de sair. O menor não compareceu ao encontro, ao contrário de Rui Pedro que nunca mais foi visto.
"Foi um período muito difícil. Durante meses a minha vida foi falar com a polícia e ir a psicólogos. Não conseguia ir à escola, só pensava no meu primo e esperava que ele entrasse pela porta a qualquer momento. Ainda hoje mantenho a esperança", diz.
Para João, condenar Afonso não é o mais importante. Quer apenas saber o que aconteceu. "O importante é que ele conte a verdade. Queremos saber o que aconteceu e fechar este capítulo da nossa vida", explica.
AFONSO DEU NOME DOS PRIMOS AO FILHO
Após o desaparecimento de Rui Pedro, João apenas viu Afonso duas vezes. Não lhe dirigiu a palavra, mas não esconde a revolta que sente. Há uns anos, o jovem soube que o homem, que está acusado de rapto, deu o seu nome e o do primo Rui Pedro ao filho.
"O menino chama-se João Pedro, que é a fusão do meu nome e do meu primo. Quando soube, fiquei muito revoltado, até parece que nos queria atingir", explica João.
A família espera que o facto de Afonso ser pai de um menino, de 8 anos, o faça confessar o que aconteceu a Rui Pedro.
SOFRE CADA VEZ QUE PENSA NO DESTINO DO PRIMO RUI
João André pensa em Rui Pedro todos os dias, mas evita falar no primo desaparecido. Acredita que está vivo, mas sofre a cada vez que pensa no destino que o menino teve. "Pensar onde ele está ou o que estará a fazer dói muito. Não fazemos a mínima ideia do que lhe aconteceu e a incerteza é o que dói mais", explica João.
A frequentar a mesma turma, João e Rui Pedro eram inseparáveis. O jovem lamenta não ter crescido junto do primo. Não ter partilhado outras alegrias.
"Eu e os amigos do Rui crescemos, mas para nós ele continua a ser o mesmo menino de há treze anos", continua.
João critica a atitude das autoridades e diz que sempre teve a sensação de que os inspectores não acreditavam nele e nos amigos. "Olhavam para nós como se fossemos um bando de miúdos contratados para mentir", desabafa. n
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