Problema não é a cor da pele
O padre Vaz Pinto, alto comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, diz que não houve ‘arrastão’ mas sim uma concentração anormal de jovens de raça negra no areal de Carcavelos, aproveitada por alguns para lançar a confusão. O alto comissário defende a atribuição da nacionalidade portuguesa aos filhos e netos de imigrantes.
Correio da Manhã – Tendo em mente o ‘arrastão’ na praia de Carcavelos, o que pensa da associação entre minorias étnicas e criminalidade?
Padre Vaz Pinto – Segundo as últimas informações, não houve qualquer ‘arrastão’. O dia coincidiu com o final das aulas e verificou-se um aumento anormal do número de jovens de raça negra no areal. Gerou-se o pânico e a confusão. Não quero dizer que não tivesse havido pessoas que se aproveitaram da situação.
– Como interpreta então o que aconteceu em Carcavelos?
– O que aconteceu chama a atenção para as situações de exclusão social que existem em redor das grandes cidades, nomeadamente Lisboa, que precisam de um olhar atento. Ontem [anteontem], um grupo de jovens brancos também provocou desacatos no Porto. O problema não é a cor da pele, mas a exclusão social. É claro que, independentemente da cor da pele, a polícia age perante a desordem.
– Em resposta ao ‘arrastão’, um movimento de extrema direita agendou uma manifestação contra a marginalidade.
– Nas últimas eleições, os votos na extrema direita não chegaram a cinco mil. Penso que a manifestação será pouco participada. De qualquer forma, ser for pela ordem pública... tudo bem. Já se for pela exclusão é inaceitável.
– Como avalia a atitude dos portugueses com imigrantes?
– Verificou-se uma melhoria significativa, embora ainda tenha de se fazer muito no sentido da compreensão. Há uma franja de pessoas que se sente ameaçada.
– O que pensa sobre o enquadramento legal da imigração?
– O Governo anunciou a alteração da Lei da nacionalidade no sentido de permitir aos filhos e netos de imigrantes adquirir a nacionalidade portuguesa. É um passo importantíssimo, na medida em que permitirá uma identificação positiva relativamente a Portugal.
– Há quem pense que está em causa a identidade nacional.
– Não é assim. Quem chega tem direito a manter a sua própria cultura, mas o imigrante é muito mais um elemento passivo do que activo de mudança cultural. E a Europa precisa, como do pão para a boca, de gente vinda de fora. Tenho da imigração uma visão muito positiva, nos contributos demográfico, económico, financeiro, cultural e humano. A imigração não é um problema, é um desafio e uma oportunidade.
– Os imigrantes ilegais reclamam a regularização imediata. É da mesma opinião?
– Não sou favorável a um novo processo de regularização, mas a que se tornem mais expeditos os que estão em curso. Defendo um sistema de quotas efectivo, em função das necessidades do mercado de trabalho. O que temos funciona mal: só quinhentos dos oito mil lugares foram preenchidos. Como a oferta e a procura demoram a encontrar-se, as pessoas entram na ilegalidade.
IMIGRAÇÃO ABAIXO DA MÉDIA
- Quantos imigrantes há em Portugal?
- Existem, aproximadamente, 450 mil imigrantes legais. Devem juntar-se a estes, num cálculo primário, 50 mil ilegais. Outros 70 mil encontram-se em processo de regularização ao abrigo do Acordo Lula e do registo prévio.
- Portugal pode receber mais?
- Os números da imigração em Portugal estão abaixo da média da Itália, da França ou da Inglaterra, por exemplo. Mas é um disparate dizer-se que podem vir mais cem ou duzentos mil. O processo de imigração não pode ser repentino.
António Vaz Pinto nasceu em Lisboa em 1942. Frequentou até ao 4º ano o curso de Direito na Universidade Clássica. Em 1965 entrou no Noviciado da Companhia de Jesus em Soutelo, Braga. Em 1970 concluiu a licenciatura em Filosofia e, entre 1971 e 1975, completou Teologia numa universidade alemã. Fez a ordenação sacerdotal em 1974.
Foi director do Centro Universitário Manuel da Nóbrega - Coimbra, entre 1975 e 1984, e do Centro Universitário Padre António Vieira - Lisboa, entre 1984 e 1997. É fundador e membro da direcção do Banco Alimentar contra a fome. Exerce desde 2002 o cargo de Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas.
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