Ratos matam estudante

Um estudante do curso de Direito da Universidade Internacional (UI) da Figueira da Foz morreu devido a uma infecção sanguínea fulminante provocada pela leptospira, uma bactéria transmitida pela urina dos ratos. A vítima teve contacto com um objecto contaminado, em princípio uma lata de refrigerante ou uma bebida alcoólica.

27 de junho de 2007 às 00:00
Ratos matam estudante Foto: Raúl Cardoso
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Luís Daniel Maneca Nabais, de 34 anos, natural da Guarda e um dos principais dinamizadores da Imperial Neptuna Académica, terá sido contaminado na noite da Festa de Santo António, no dia 13, na Figueira da Foz, onde esteve com um grupo de amigos.

Passadas 24 horas, começou a sentir-se mal e foi transportado por amigos ao Hospital da Figueira da Foz, aonde chegou muito debilitado. Devido à gravidade do seu estado, foi transferido para o Hospital dos Covões, em Coimbra, onde ficou internado nos cuidados intensivos. Acabou por não resistir à infecção e faleceu na madrugada do dia 17.

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“A infecção generalizou-se no organismo muito rapidamente. Os médicos disseram-nos que tudo aponta para que tenha sido provocada pela urina de ratos”, explicou ontem Octávio Santos Nabais, pai do estudante, que ficou “sem palavras” quando os médicos lhe comunicaram o estado clínico do filho: “Eu nem queria acreditar que isso podia acontecer, mas a verdade é que a peste-negra continua a matar!”

Octávio Nabais disse ao CM desconhecer “por completo” em que local se encontrava o filho quando foi contaminado pela bactéria. Na ocasião foi indicado um armazém onde estavam latas de refrigerante, uma das quais terá bebido.

Luís Nabais frequentava a UI da Figueira da Foz há 12 anos mas pelo meio cancelou muitas matrículas e trabalhou em várias empresas do ramo da informática. “Foi um filho que nunca nos deixou ficar mal. Ele adorava a vida académica, e a prova disso foi que no dia do funeral estiveram cá muitos amigos”, refere Regina Nabais, mãe do estudante.

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A vítima era uma pessoa “saudável”, com “bons hábitos” e com uma facilidade “incrível” em fazer amigos. “No meio académico da Figueira da Foz toda a gente conhecia o Nabais, não só porque era um grande dinamizador das tunas da cidade mas, sobretudo, porque se tratava de uma pessoa espectacular”, afirma Miguel Brás, presidente da Associação de Estudantes da UI.

Os amigos mais próximos de Luís Nabais, entre eles os ligados à Tuna Académica da Figueira da Foz, escusaram-se ontem a fazer comentários sobre as causas e as circunstâncias que rodeiam a sua morte. A noite de Santo António decorreu “com a normalidade” de todas as outras. “Com muita alegria”, limitou-se a dizer um dos seus companheiros.

Os pais de Luís dispensaram a autópsia ao filho (ver caixa), querendo só confirmar, através de exames a amostras retiradas quando estava hospitalizado, a causa da sua morte.

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EXAMES DEMORAM DOIS MESES

Após terem sido informados pelos médicos do Hospital dos Covões da causa da morte, os pais de Luís Nabais dispensaram a autópsia. Agora aguardam o resultado dos exames bioquímicos a amostras retiradas do filho enquanto estava vivo, para confirmar em definitivo as causas da infecção. “Pelo que os médicos nos disseram, os exames demoram algum tempo, em princípio dois meses”, explicou Alda Nabais, irmã da vítima. A mãe nem está muito interessada em saber. “Isso não vai diminuir o nosso sofrimento”, desabafa Regina Nabais. Os familiares de Luís Nabais não querem atribuir responsabilidades a ninguém e “lamentam imenso” o sucedido com o filho. “Aquilo que lhe aconteceu poderia suceder a qualquer um. Que seja um sinal de alerta, para toda a gente ter atenção a esta doença”, conclui o pai.

CAUSADA POR BACTÉRIA

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A leptospirose, conhecida como ‘a doença dos ratos’, pode ser transmitida ao Homem através da urina dos roedores. É uma infecção febril aguda, de carácter sistémico, potencialmente grave e causada por uma bactéria, a leptospira. Atinge pessoas de todas as idades, mas em 90 por cento dos casos tem uma evolução benigna. A infecção resulta da exposição à urina dos animais infectados que se verifica no contacto com lamas, águas contaminadas ou através da ingestão de alimentos mal lavados, como por exemplo em saladas.

A grande incidência de infecções registada nos Açores é atribuída às condições de humidade e às temperaturas médias anuais do clima subtropical da região, as quais facilitam a sobrevivência da bactéria. As pessoas cujas profissões impliquem actividades que pressupõem o contacto com animais e com a terra – caso dos agricultores, tratadores de gado e trabalhadores do saneamento básico, entre outros – são mais susceptíveis a contrair esta doença.

- 1,1 casos por cada cem mil habitantes é a taxa de incidência da doença em Portugal continental. Nos Açores é de 11,1 para o mesmo número de pessoas – ou seja, dez vezes mais.

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- 161 foi o total de casos de leptospirose declarados nos Açores entre 1992 e meados de 2003. Treze destes doentes acabaram por morrer devido à infecção.

INCUBAÇÃO

A doença tem um período de incubação médio de dez dias, pode atingir vários órgãos e os sinais da doença costumam aparecer de forma abrupta.

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GRIPE

Os principais sintomas são o aparecimento de febre, calafrios e fraqueza, o que pode complicar o diagnóstico por poderem assemelhar-se a uma simples gripe.

CURA

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O tratamento é considerado simples em situações normais. Todos os antibióticos, começando pela penicilina, são eficazes.

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