Rede de burlões vendia casas de chineses com vistos 'gold'
Grupo organizado apropriava-se de vivendas de luxo cujos donos estavam fora do País e vendiam-nas a outros estrangeiros.
Procuravam vivendas de luxo, em Cascais e zonas nobres de Lisboa, compradas por asiáticos, sobretudo chineses milionários, que dessa forma beneficiavam dos vistos ‘gold’ para poderem circular livremente no espaço Schengen. A seguir arrombavam portas, trocavam fechaduras e falsificavam documentos - contratos fictícios e identificações totalmente inventadas. A documentação era depois autenticada e submetida eletronicamente no Registo Predial, passando a propriedade das casas para os nomes de compradores estrangeiros, mas que não existiam.
Depois, colocavam essas casas no mercado a um preço apetecível e abaixo da média e faziam visitas aos imóveis como se fossem seus. E desta forma lucraram mais de 10 milhões em pouco tempo. A rede de burlões, composta por cinco homens e três mulheres com idades entre os 26 e os 62 anos, foi esta terça-feira desmantelada pela Polícia Judiciária.
O grupo, do qual faziam parte pelo menos dois solicitadores, fazia assim duas vítimas com cada vivenda: os legítimos proprietários e os compradores, em ambos os casos estrangeiros. Algumas vivendas de luxo terão sido integralmente pagas, noutros casos o grupo desaparecia do mapa assim que recebia o sinal de 10% no momento de assinatura do contrato-promessa de compra e venda. Para apagar o rasto da burla, o grupo criou um esquema de circulação de capitais, através de transferências sucessivas e compra e venda de bens de luxo, sobretudo automóveis de gama alta. São esta quinta-feira presentes a tribunal para primeiro interrogatório judicial.
E também
Queixas desde julho de 2025
De acordo com o diretor da Polícia Judiciária de Lisboa, as primeiras queixas sobre este esquema de burlas surgiram em julho de 2025 e foram apresentadas por cidadãos estrangeiros. A investigação permitiu apurar que havia mais vítimas e em oito meses avançar para o desmantelamento do grupo.
Apanhado com armas
Os oito detidos respondem pelos crimes de associação criminosa, falsificação de documentos, burlas qualificadas e branqueamento de capitais. Um dos suspeitos foi apanhado em flagrante na posse de armas proibidas.
1,5 milhões apreendidos
A PJ indica que foram recuperados diversos imóveis e saldos bancários de 1,5 milhões de euros, resultado da venda fraudulenta dessas habitações.
Cabecilha orientava grupo
Segundo a Polícia Judiciária, os rendimentos do cabecilha do grupo “provinham exclusivamente das vantagens obtidas com estes crimes”. O homem “envolvia terceiros, também detidos, que agiam sob as suas orientações”. Se a associação criminosa for comprovada em julgamento, as penas dos outros crimes serão agravadas.
430 milhões em apenas 4 anos
O programa de vistos ‘gold’ de Portugal é extremamente popular entre investidores chineses, que lideraram as concessões desde 2012. Representam quase 60% dos vistos emitidos na última década. Só entre 2012 e 2018 foram mais de 4 mil os vistos ‘gold’ atribuídos a investidores chineses.
Embora as regras tenham mudado em 2023, eliminando a compra de imóveis, os investidores chineses continuam a procurar alternativas, como a transferência de capital ou fundos de investimento. Entre 2020 e 2023, o investimento chinês ultrapassou os 430 milhões de euros, mesmo com estas restrições.
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