SAPOS DE LOIÇA REFORÇAM SEGURANÇA NAS LOJAS

Alguns comerciantes da Avenida do Brasil, em Lisboa, não abdicam de 'decorar' os seus estabelecimentos com sapos de loiça, com o objectivo de afugentar ladrões e desordeiros de etnia cigana. O receio demonstrado pelos elementos desta comunidade em relação ao animal está na base da medida dos lojistas, da qual não se mostram dispostos a abdicar.

14 de janeiro de 2004 às 00:00
SAPOS DE LOIÇA REFORÇAM SEGURANÇA NAS LOJAS Foto: Manuel Moreira
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Ninguém sabe exactamente quando tudo começou, nem quem foi o percursor do que muitos já consideram uma tradição naquela avenida lisboeta. "Quando entrei para a gerência deste café, há seis meses, já cá tinha o sapo. Desconheço há quanto tempo ele existe, mas sei que foi aqui posto para 'defender' o negócio", referiu ao CM Fernando Silva, gerente de uma cafetaria instalada no Centro Comercial Brasil.

No entanto, ao mesmo tempo que olha para o semblante sorridente do seu sapo, o comerciante mostra-se convicto de que a ausência de roubos ou distúrbios no seu estabelecimento, nada tem a ver com a presença do animal. "Penso que hoje só os ciganos mais velhos acreditam que os sapos trazem azar e infortúnio", acrescentou, acedendo, no entanto, que vai manter a 'figura' no café.

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Outros comerciantes, contudo, lamentam não ter aderido à 'moda do sapo' mais cedo. A proprietária de um restaurante instalado também no Centro Comercial Brasil, e que preferiu manter o anonimato, explicou que quando abriu o seu negócio não colocou logo os "sapos da ordem". "Por causa disso, houve algumas pessoas ciganas que criaram 'raízes' neste estabelecimento e que agora aqui vêm, por vezes para causar distúrbios", lamentou.

Da parte da PSP não há uma ideia definida sobre o assunto. Contactada pelo nosso jornal, uma fonte policial preferiu "não estabelecer uma ligação entre o uso de sapos e a subida ou descida do número de roubos e furtos em estabelecimentos comerciais".

SÍMBOLO DE AZAR E DISCÓRDIA

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É uma superstição levada muito a sério e que os pais passam aos filhos. Para o povo cigano, o sapo simboliza o mal e a discórdia e 'dá' azar e infelicidade às famílias. "Para nós, essa palavra é proibida. Quando a ouvimos, o dia vai correr mal: os comerciantes não conseguem vender...", ilustra ao CM Adelino Saavedra, mediador sócio-cultural e membro desta comunidade com cerca de 50 mil pessoas no País.

Os ciganos evitam a todo o custo cruzarem-se com um sapo, um pouco como acontece com quem tem receio do gato preto, mas de uma forma mais intensa. O próprio confronto com a palavra, mesmo que escrita, motiva preocupação: "Damos 'saltos' nos textos para as evitarmos."

As crianças, para arreliar os pais, usam-na, mas, de pequenas, são instruídas no sentido de respeitar a superstição. "É normal um pai dizer ao filho: não digas isso porque dá azar à nossa família." E chamar alguém de 'sapo' é insultuoso, podendo motivar uma zanga violência.

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