SERÁ ESTE O NOSSO PAÍS DAQUI A 100 ANOS?
Ondas de calor mais frequentes, aumento do número de dias com temperaturas superiores a 35 graus centígrados e menos chuva – assim será a mudança climática em Portugal. O alerta surge no âmbito da II fase do projecto SIAM – Scenarios, Impacts and Adaptation Measures (Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação).
Iniciado há quatro anos, o SIAM reúne especialistas de dez áreas, que, a partir de quatro cenários de evolução da economia e da sociedade, desenharam as futuras tendências do clima. Filipe Duarte Santos, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, nota que tais quadros diferem em relação à quantidade de gases de efeito de estufa (GEE) – responsáveis pelo aquecimento global – lançados para a atmosfera.
“Tudo depende das emissões de GEE”, sublinha, referindo-se à importância da entrada em vigor do Protocolo de Quioto, cujo objectivo é reduzi-las. Os GEE, entre os quais o dióxido de carbono, estão associados ao uso de energias fósseis (petróleo, carvão e gás natural), que representa “entre 80 a 90 por cento das fontes primárias de energia”.
No cenário em que as sociedades mantêm a dependência das energias fósseis e não aplicam medidas no sentido do desenvolvimento sustentado – infelizmente aquele que se verifica –, prevê-se que ocorram graves alterações climáticas até 2100.
O coordenador do projecto destaca “o aumento da frequência das ondas de calor semelhantes à do ano passado” e a repetição de dias com temperaturas superiores a 35 graus centígrados. “Podem verificar-se 60 ou 70 dias muito quentes por ano – actualmente são 10 – e a temperatura máxima no Verão poderá subir até oito graus centígrados no final do século.” Mais penalizadas serão as regiões do Interior e Sul, enquanto a influência atlântica trará alívio ao Litoral.
Assinala-se ainda a perda de precipitação em todo o País – menos 20 por cento de chuva no Norte e 50 no Sul. “Tal redução não é importante no Inverno, mas no resto do ano”, diz Pedro Miranda, responsável pelo estudo dos cenários climáticos.
A subida da temperatura e a redução da precipitação têm efeitos, nomeadamente sobre a floresta, e Filipe Duarte Santos questiona a sustentabilidade da mesma no Sul. E, uma vez que as condições de clima associadas a esta região vão deslocar-se para o Norte, é provável que aqui surjam espécies vegetais características do Sul, como os sobreiros.
A nível demográfico, todos os cenários apontam para o desaparecimento de montes e aldeias isoladas, a favor da concentração nas vilas e cidades. Em contrapartida, haverá aumento das segundas habitações e espaços de lazer em zona rural.
Com a mudança climática, Filipe Duarte Santos salienta a probabilidade de doenças associadas a climas quentes ocorrerem com maior frequência. José Manuel Calheiros, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e coordenador da parte do estudo sobre saúde, afasta a hipótese de reintrodução da malária, mas realça que o calor favorece, por exemplo, os agentes da leishmaniose (transmitida pelos cães), da leptospirose (associada aos fluidos dos roedores) e da febre da carraça.
O especialista alerta para a subnotificação destas doenças, de declaração obrigatória. Exemplo disso é o facto de, entre 1995 e 2000, terem sido reportados apenas 87 casos de leishmaniose, mas hospitalizadas 245 pessoas com a doença. Calheiros refere-se igualmente às doenças respiratórias associadas às ondas de calor que potenciam a poluição atmosférica, nomeadamente por ozono.
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