Os ventos que tudo levaram sopram agora solidariedade. Todas as mãos e idiomas contam na limpeza da cidade de Leiria
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.
No centro da cidade de Leiria, gravemente afetada pelo mau tempo, este sábado todas as mãos e idiomas contam nos trabalhos de limpeza, como se os ventos que tudo levaram soprassem agora solidariedade.
"Todas as mãos contam, sim, seja lá a cor, o credo, a raça, seja o que for, todas as mãos contam", diz Helena Palma, de 61 anos, que a agência Lusa encontrou no Jardim Luís de Camões, onde várias pessoas limpavam os detritos que a depressão Kristin espalhou.
Helena Palma, comercial de puericultura, saiu de Lisboa com o namorado e um casal de amigos para ajudar a reerguer a cidade.
"Acho que é necessário, porque se fosse comigo também gostava que me fizessem igual", declara, para lembrar que ninguém controla o estado do tempo, "mas se todos puderem ajudar... já que Portugal parece não ter infraestruturas suficientes para colmatar este tipo de situações".
E ao ver o rasto de destruição, a voluntária pediu aos políticos para se "preocuparem menos com o querer aparecer e o querer parecer bem e tentarem prevenir, sobretudo criar infraestruturas que previnam estas situações", de falta de água, eletricidade ou telecomunicações.
Munidos de pás e vassouras, pelo espaço do jardim, voluntários como o brasileiro Guilherme Mota, recém-chegado a Leiria, amontoavam galhos de árvores, plásticos ou vidros.
"A cidade acolheu-me. E eu achei que nada mais justo do que fazer parte disso e contribuir, de alguma forma, para que a cidade volte ao normal, porque afinal de contas isso impacta no bem-estar da cidade inteira, não só no meu", destaca.
Para o imigrante, de 34 anos, a solidariedade não devia escolher nacionalidade.
"Viemos do mesmo lugar, vamos para o mesmo lugar, somos por dentro todos iguais, não importa a língua que fale, a cultura em que cresceu, todos nós temos um propósito na vida, que é viver, amar, acolher, é fazer do lugar onde vivemos o melhor lugar do mundo", sustenta.
Para o brasileiro, "não faz sentido olhar as diferenças", pois "é muito pequeno diante de tudo o que aconteceu".
Guilherme Mota desfia ainda os prejuízos que também teve na casa onde mora, nos Pousos, às portas da capital de distrito. Danos no telhado, na sala de casa, nos painéis solares e em árvores de fruto, descreve, relevando a situação.
Lucas Máximo, de 18 anos, também procedia a trabalhos de limpeza.
"Eu, felizmente, já tenho condições em minha casa, água, luz e gás, mas há pessoas que não têm e achei bem vir cá ajudar quem precisa", adianta à Lusa.
No mesmo local, o restaurante Esplanada Jardim não foi poupado à depressão, mas os seus trabalhadores rapidamente puseram mãos à obra para restabelecer o funcionamento, como Ahmed Raza, paquistanês de 29 anos.
"O que é importante é a comunidade. É tudo sobre ajudar. Estou a viver cá, a trabalhar cá", afirma Ahmed Raza, realçando, por exemplo, nas primeiras horas pós impacto a entreajuda de quem tinha água e comida para quem não tinha esses bens fundamentais.
Pela cidade, o trânsito e algumas pessoas em esplanadas de cafés transmitem uma aparente normalidade, contrastando com dezenas de pessoas que, munidas de garrafões de cinco litros, iam buscar água à Fonte das Três Bicas e outras tantas de luvas, pás ou vassouras a limpar.
Próximo do Parque Professor José Hermano Saraiva, um grupo de jovens recolhia os despojos da depressão, como Francisca Alves, de 22 anos, residente em Leiria.
"Em minha casa não tenho nada para melhorar, então decidi vir melhorar o que dava para melhorar na cidade", diz a estudante, assumindo que em Leiria "toda a ajuda é pouca".
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho.
Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais do temporal.
Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade entre as 00:00 de quarta-feira até às 23:59 de dia 01 de fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.
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