TRABALHO ATÉ DE MADRUGADA
Ingredientes: uma prancha velha e a precisar de arranjo, um amigo com paciência para ajudar, resina e um véu de noiva. Preparação: Desbasta-se a prancha com uma plaina de madeira, acerta-se com o ralador de cenoura e aplica-se a fibra de vidro com o véu de noiva.
Deixa-se cozer durante 28 anos e o resultado é uma empresa que dá emprego a nove pessoas, uma produção anual de mil unidades e a certeza de estar entre os melhores ‘shapers’ do mundo. Aos 40 anos, Álvaro tem a receita para uma vida de alegrias: ET. Não, não é extraterrestre. É Energia Tropical. Em forma de prancha.
Brasileiro de Florianópolis – “tem 42 praias na minha ilha” – Álvaro Pereira nasceu virado para o mar, a ouvir as ondas da Joaquina. Percebeu cedo que o seu futuro estava algures para lá da rebentação. Se não fosse ‘shaper’, seria surfista. Fez melhor: é ‘shaper’ e surfista. E empresário. “Por vezes, na vida, é preciso deixar de fazer algo de que se gosta para se fazer outra coisa de que se gosta mais.”
Álvaro deixou de fazer surf todos os dias, a toda a hora, para se dedicar às pranchas, que permitem a outros surfar todos os dias a toda a hora. “Não gosto do que faço, gosto mais de desenvolver o que faço”. É uma diferença subtil, quase imperceptível, mas que faz toda a diferença do mundo.
Começou na cozinha na mãe a arranjar pranchas estragadas. “O pessoal gostava e começou a pedir.” Chamavam-lhe o ‘Mágico dos Remendos’. Um dia arriscou e fez uma prancha do nada. Ficou pesada, mas era a sua primeira. Além disso, andava e foi assim que atravessou o Atlântico.
“Quando ainda morava no Brasil, conheci um português que foi lá apanhar ondas e que me desafiou a vir para cá. Na verdade mostrou-me fotografias de Ribeira D’Ilhas e Supertubos clássico”. Na altura, Álvaro não sabia que a Ericeira e Peniche não são sempre assim, com ondas perfeitas. Mas como estava de saída para a Indonésia, onde está muitas vezes assim, pensou: Porque não?
Enfiou três das suas pranchas na bagagem e voou para Lisboa. “Mal cheguei, o cara com quem eu vinha ficou com uma das pranchas e pediu-me para fazer outra”. Ainda resistiu, sempre a pensar na Indonésia. Marcou a data de partida para daí a 15 dias. A segunda prancha vendeu-a pouco tempo depois, e a partida voltou a ser adiada: “Três meses e vou”. Não foi e as encomendas começaram a surgir, umas após as outras, como as ondas. Com a ajuda de amigos, a Energia Tropical começou a ganhar forma.
Depois casou-se. A Indonésia, por esta altura, em 1996, era já um sonho distante. Aos poucos, o outro sonho transformava-se em realidade. “Ainda me lembro do que o meu pai me disse. Hoje em dia, com curso você não é nada, sem curso nada é”. Mas Álvaro não pensava assim. “Larguei a universidade e disse ao meu pai: vou fazer pranchas de surf”. Perdeu-se um dentista e hoje há muitos surfistas que mostram os dentes para agradecer a escolha. “Vendemos pranchas para toda a Europa graças à internet, mas a sede e a marca estão em Portugal”.
O maior mercado, claro, é o português, e por agora, o atendimento é na Malveira da Serra, atrás do balcão de madeira. Álvaro ou a mulher, Sofia, assumem a responsabilidade. “Os nossos clientes são pessoas exigentes, com bom nível de surf e com conhecimentos sobre o tipo de material que procuram”, explica o ‘shaper’. “Nós somos responsáveis pelo que fazemos.”
Trabalho não falta e nos meses de Verão ainda é mais, começa cedo e vai até de madrugada. “É das sete às duas da manhã.”
COMPETIR COM OS 'GRINGOS'
Ver um surfista na água não chega para perceber a complexidade de uma indústria mundial de milhões de dólares, em constante evolução e permanente competição. “Neste momento, com a nossa máquina de ‘shape’, a Energia Tropical está entre as cinco melhores pranchas do mundo”, garante Álvaro Pereira.
Nas instalações da Malveira da Serra trabalham nove pessoas. “Alguns deles serão o futuro do surf em Portugal. São eles que, dentro de alguns anos, vão competir com os gringos.” Longe vão os tempos de remendar pranchas com utensílios de cozinha, massa de vidro e resina. tecnologia tomou conta do negócio e parte importante do trabalho faz-se agora com atletas como Frederico Morais, de 13 anos. “Foi vice-campeão!”
BILHETE DE IDENTIDADE
Existem em Portugal dezenas de fabricantes de pranchas e a tendência, neste momento, é para que o número cresça.
A par das principais marcas, com posição consolidada no mercado, as salas de ‘shape’ proliferam por todo o país e, como é natural, quase cada cidade com boas ondas tem o seu ‘shaper’ local.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt