URÂNIO 'ABANDONADO' SOB INVESTIGAÇÃO
A exploração e tratamento do minério de urânio em Portugal terminou em 2001, mas resta uma herança de 56 sítios em que houve actividade mineira, a maioria nos distritos de Viseu, Guarda e Coimbra.
As consequências dos resíduos da indústria extractiva de urânio sobre a saúde das populações e o ambiente estão por avaliar. É esse o objectivo do projecto "MinUrar", desenvolvido, desde Maio, por vários laboratórios do Estado, entre os quais o Instituto Nacional de Saúde, o Instituto Geológico Mineiro e o Instituto Tecnológico e Nuclear, através do Departamento de Protecção Radiológica e Nuclear.
Segundo afirmou o director daquele departamento, Fernando Carvalho, ao Correio da Manhã, o projecto implica, designadamente e no que respeita à saúde pública, a realização de análises de sangue e de cabelo. O estudo epidemiológico abrange 600 homens e mulheres com idades entre os 45 e os 64 anos, residentes nas freguesias dos concelhos de Nelas, Vouzela, Viseu e Sátão (Viseu), Trancoso, Celorico da Beira e Seia (Guarda). Na vertente ambiental, decorre a avaliação da contaminação radioactiva dos solos, da água da rede e dos aquíferos.
Como nota o mesmo perito, em comunicação recente, "o volume de resíduos de minérios radioactivos depositados à superfície é elevado e, frequentemente, situado próximo de aglomerados populacionais importantes". Por outro lado, "as minas em que existem águas ácidas e potencial contaminação radioactiva de aquíferos representam um problema ambiental significativo".
As "cicatrizes" da exploração do minério são visíveis, quer sob a forma de grandes crateras, quer de escombreiras com inertes (rochas sem urânio) ou minérios pobres (com baixo teor de urânio) deixados de lado. Assim é nas minas de Mortórios, Prado Velho, Freixinho, Vale de Abrutiga e Mondego Sul, entre outras.
ÁGUAS ÁCIDAS NA URGEIRIÇA
Noutros locais houve tratamento químico dos minérios ou utilização de ácido sulfúrico para dissolução do urânio da rocha. Aí, “os problemas de contaminação radioactiva ambiental são, potencialmente, mais sérios”, escreve Fernando Carvalho, nomeando “a Urgeiriça, Cunha-Baixa, Senhora das Fontes, Bica ou Quinta do Bispo, onde as escombreiras têm cerca de 2,9 milhões de toneladas de resíduos muito radioactivos”.
Nos sítios onde foi utilizado ácido sulfúrico para dissolução do urânio “há sérias infiltrações de ácido e contaminantes radioactivos nas águas subterrâneas”, nota o biólogo, doutorado em Química e Ambiente, alertando para o facto de que “a avaliação desta situação e a decisão para lidar com o problema das águas ácidas ainda estão por efectuar”.
Fernando Carvalho considera que, uma vez “cessada a exploração do minério, o ambiente deve ser reposto por forma a que as populações não fiquem expostas a doses de radiação mais elevadas em relação ao fundo radiológico natural da região”. Assim, “as escombreiras radioactivas devem ser confinadas”, de maneira a não constituírem risco para a saúde pública.
O projecto “MinUrar” decorrerá entre 2003 e 2005, mas estima-se que no próximo ano serão já conhecidos resultados sobre o nível de contaminação radioactiva do ambiente.
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