VELA ATRAI JOVEM CEGA
"Oriento-me sentindo o vento, a luz do sol e ouvindo as indicações do instrutor" - para Susana Elias, de 21 anos, a cegueira não constitui impedimento para praticar vela, actividade desportiva a que se dedica desde há cerca de cinco anos, no Clube Naval de Portimão, sob a orientação do professor Jaime Ferreira, no que constitui um caso inédito no nosso País.
Aluna universitária - está a tirar o curso de Sociologia Aplicada no Instituto Superior de Matemáticas e Gestão - a jovem, invisual de nascença, entende que velejar "não é difícil": "Quando comecei, tive algum receio, até porque não sei nadar.
Mas esta é uma actividade que qualquer pessoa - criança ou adulto - pode praticar aqui, no Rio Arade, em total segurança e que aconselho a toda a gente", referiu Susana, que só não pratica mais vezes porque os estudos a limitam: "Devido ao meu curso e porque, devido à minha condição física, necessito de mais tempo para estudar, tenho vindo menos", esclareceu, adiantando que "a sensação de velejar é boa", embora confesse que "enjoo um bocadinho". Talvez por isso, Susana aprecia particularmente andar de barco a motor: "Gosto de acelerar e da adrenalina da velocidade. Na vela temos de ter mais concentração, pois qualquer falha na colocação da vela pode fazer virar a embarcação", esclareceu.
A jovem está integrada num grupo de principiantes, no CNP. "Às vezes sinto-me a mãe dos putos todos. Por isso, gostaria que mais invisuais ou outros adultos se juntassem às aulas", revelou, sublinhando que "a actividade física é positiva para qualquer pessoa e a vela ajuda a descontrair e a fugir à rotina".
É NECESSÁRIO UM GUIA E INDICAÇÕES VERBAIS CLARAS
Para ensinar vela a cegos, são essenciais um guia e indicações verbais claras - quem o afirma é Jaime Ferreira, o professor de vela para invisuais e principiantes do Clube Naval de Portimão. Hoje com 77 anos, aceitou o desafio que lhe foi proposto por Fernando Bivar, do Instituto Oftalmológico Gama Pinto. "Pensei muito nisto. Entretanto, li artigos da Yachting World que falavam no assunto e soube de um invisual que foi da Turquia às Bermudas, sozinho, num veleiro. Escrevi para a Nova Zelândia, de onde me enviaram um manual detalhado sobre o ensino de vela a invisuais e percebi que, afinal, era fácil. Comecei a ensinar a Susana, com sucesso, e sei que no Algarve há muitos mais invisuais, que poderiam beneficiar da prática da vela. Não há que ter medo, até porque eles nunca são deixados sozinhos. Além disso, estou disposto a colaborar com outras escolas", disse.
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