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Correio da Manhã

Portugal

1,5 milhões com alergias

O número de portugueses afectados pelas doenças alérgicas tem vindo a aumentar de forma significativa em Portugal nas duas últimas décadas, em especial nas crianças. Hoje, contam-se 1,5 milhões de portugueses que sofrem de alergias, dos quais cerca de 600 mil são crianças e adolescentes. O pior é que as rinites, a asma e os eczemas tendem a aumentar o número de doentes e a severidade dos casos. O tratamento das doenças alérgicas custa ao País cerca de quarenta milhões de euros por ano.
5 de Março de 2007 às 00:00
1,5 milhões com alergias
1,5 milhões com alergias FOTO: Vítor Mota
Estes problemas reúnem hoje especialistas em imunoalergologia na Universidade de Aveiro. Durante todo o dia vão debater questões relacionadas com as doenças alérgicas, designadamente a má qualidade do ar interior das casas, educação e preservação do ambiente, além de medidas educativas e preventivas a aplicar.
O imunoalergologista Libério Ribeiro, da Sociedade Portuguesa de Pediatria e médico do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, avançou ao CM alguns factores que desencadeiam alergias – a sexta causa de doenças crónicas – que afectam em Portugal uma em cada quatro crianças e adolescentes (600 mil) e dez em cada cem adultos (um milhão).
“A poluição e a ingestão de certos alimentos são factores que potenciam o aparecimento destas doenças. O abuso de antibióticos e o elevado número de vacinas fazem com que o organismo tenha uma menor resposta imunitária aos factores que potenciam estas doenças”, disse.
Os alimentos que podem desencadear alergias são sobretudo transgénicos e os que contêm corantes e conservantes. Mas não só. “Começaram a surgir muitos casos de alergias devido ao consumo de frutos tropicais, que há dez anos não tinham praticamente venda no nosso país. Há também muitos casos alérgicos relacionados com o abuso de antibióticos e com o elevado número de vacinas que as crianças tomam”, explica Libério Ribeiro.
Segundo o especialista, o tratamento dos doentes asmáticos, que implica administração de medicamentos e internamentos hospitalares, custa ao Serviço Nacional de Saúde cerca de vinte milhões de euros por ano, enquanto o de rinites e eczemas ronda outros vinte milhões.
“Não há um levantamento dos custos em Portugal e esta é uma extrapolação feita para o nosso país com base nos custos referentes aos Estados Unidos”, diz o médico.
Outro imunoalergologista, Pedro Lopes Mata, que participa na conferência ‘Ambientes, alergias, crianças e não só’, na Universidade de Aveiro, atribui as doenças alérgicas à mudança de hábitos e à falta de qualidade do ar que se respira dentro das casas. Para o médico, os infantários não têm pior qualidade do ar. “O que se passa é que nem sempre o espaço é suficiente, factor facilitador da propagação quando há um componente infeccioso”.
UNIDADES DE SAÚDE A MEIO-GÁS
O coordenador nacional da Missão para a Reforma dos Cuidados Primários, Luís Pisco, avançou ao CM três motivos para justificar a reduzida implantação das Unidades de Saúde Familiar (USF). Recorde-se que o ministro da Saúde, Correia de Campos, anunciou a intenção de ter a funcionar, até ao final de 2006, um total de cem USF, mas a verdade é que até essa altura só abriram 43. Hoje, o número chega às 48 USF. “Houve dificuldade em abrir mais USF porque, em alguns casos, é necessário fazer obras de adaptação nos centros de saúde e, noutros, é preciso criar as unidades de raiz.”
Segundo o responsável, um segundo factor deve-se à dificuldade em mobilizar os profissionais de Saúde, na formação dos profissionais (esperar pela saída de curso dos novos médicos de família) e no atraso na instalação de software.
ASMA DESDE OS DOIS ANOS
Mafalda Lopes vive a adolescência condicionada pela asma e outras alergias. Nascida em Lisboa, aos dois anos e oito meses foi-lhe diagnosticada a doença, que tem antecedentes na família, por vezes trágicos, o que faz com que cada crise seja encarada com grande preocupação. Um primo morreu aos 15 anos, com uma crise que achou que controlava, adiando a ida ao hospital, o que foi fatal.
Os sintomas aparecem-lhe na mudança das estações do ano ou com alterações atmosféricas bruscas. Após um período de melhoras, a frequência das crises regressou com a mudança de casa para Aveiro, onde o clima é mais húmido.
Mafalda está farta da ‘via sacra’ dos cuidados médicos e das esperas nas Urgências hospitalares, por vezes a horas tardias. Uma chamada ao quadro na escola resulta num festival de espirros por causa do giz. As alergias impõem-lhe condicionantes: não pode ter o computador nem livros no quarto, por causa dos ácaros. Não come marisco, morangos nem chocolate. A roupa é sem fibras e é alérgica à bijuteria.
APONTAMENTOS
12% COM ASMA
Cerca de dez a 12 por cento das crianças tem asma. Nas crianças com menos de seis anos, oito por cento tem intolerância alimentar e entre dois a quatro por cento tem reacções alérgicas a alimentos.
ÁCAROS
São um dos principais agentes de alergias respiratórias. Animais microscópicos, vivem sobretudo no pó da casa e alimentam-se de escamas de pele humana. Abundam nos colchões, mantas de lã, almofadas de penas, tapetes, alcatifas e bonecos de peluche. Desenvolvem-se em ambientes quentes e húmidos.
AREJAMENTO
As janelas fechadas são um erro porque o arejamento é essencial. Há cada vez mais vapor de água nas casas, que cria meios ideais para a propagação de fungos e bactérias. Um factor positivo nos últimos anos foi a redução do uso de alcatifas.
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