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Correio da Manhã

Portugal
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88 jovens sub-18 nas cadeias

Rodolfo tem 87 ‘companheiros’ da sua faixa etária. Mas Bárbara só encontra uma rapariga.
30 de Maio de 2011 às 00:30
Sónia, mãe de Rodolfo, falou com a namorada e os amigos do filho antes  de o visitar
Sónia, mãe de Rodolfo, falou com a namorada e os amigos do filho antes de o visitar FOTO: Vítor Mota

No primeiro dia de Bárbara Oliveira e Rodolfo Santos em prisão preventiva, de 16 e 18 anos, respectivamente, pelas violentas agressões a uma menor de 13 anos, em Lisboa, num caso que chocou o País através das imagens do crime, filmado e divulgado através da internet, o CM apurou ontem que nas cadeias portuguesas se encontram detidos outros 88 jovens entre 16 e 18 anos. Mas só uma rapariga.

Uns estão também em prisão preventiva; outros já condenados e a cumprir pena. Mas é um número que tem vindo a subir progressivamente desde o ano de 2008 – depois de uma queda, em finais de 2007, após a entrada em vigor das actuais leis penais, mais restritivas para a aplicação da prisão preventiva.

Segundo os dados mais recentes da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, referentes ao primeiro trimestre deste ano, a maioria dos jovens deste escalão etário detidos estão em prisão preventiva e são portugueses, sexo masculino (55).

Antes de Bárbara ter dado entrada em Caxias, anteontem, por espancar a menor de 13 anos enquanto era filmada pelo cúmplice, Rodolfo, havia só uma mulher desta faixa etária presa e era estrangeira.

De acordo com as estatísticas, às quais o CM teve acesso, os crimes contra as pessoas, onde se enquadram acima de tudo os roubos com ameaça de faca ou pistola mas também as ofensas à integridade física – tipo de crime imputado a Bárbara e Rodolfo pelas agressões a Filipa T. – encabeçam a lista de ilícitos que levam os jovens entre os 16 e os 18 anos às cadeias portuguesas.

Ontem, no dia em que o CM acompanhou as visitas dos pais e amigos de Bárbara e Rodolfo às cadeias onde estes se encontram detidos – ele na Zona Prisional da PJ, ela em Caxias (ver peças secundárias) –, fonte judicial adiantou que o Ministério Público pode avançar com mais detenções nos próximos dias, "caso alguém prejudique de alguma forma este inquérito, exercendo coacção sobre testemunhas ou arguidos".

52 INQUÉRITOS POR VIOLÊNCIA NA ESCOLA

O Ministério Público do distrito judicial de Lisboa abriu 52 inquéritos pelo crime de violência na comunidade escolar nos primeiros três meses deste ano. Segundo os dados mais recentes da procuradoria distrital, este fenómeno criminal deu origem a mais duas investigações quando comparado com o mesmo período do ano passado. Já em relação a 2009, a violência no meio escolar regista uma subida acentuada: passa de 31 para 52 inquéritos. Sintra é o concelho com mais situações. 

AGRESSORA DE 15 ANOS CONTINUA DESAPARECIDA

Raquel, a jovem de 15 anos que também espancou Filipa, de 13, continua dada como desaparecida. Os pais apresentaram queixa na esquadra da PSP de Loures, mas até ao momento não há informações sobre o paradeiro da menor. Jovens que a conhecem afirmaram ao CM que Raquel "fugiu para o Porto". A Raquel, de 15 anos, aplica-se a lei tutelar educativa, podendo a medida a aplicar pela sua agressão ir de simples admoestação até ao internamento num centro educativo em regime fechado.

"AGARRADA A MIM A CHORAR"

À saída da visita à filha, que se encontra em prisão preventiva no Hospital-Prisão de Caxias, Fernando Oliveira, pai da Bárbara, uma das agressoras de Filipa, estava visivelmente desanimado e comovido. "Assim que ela me viu agarrou-se a mim a chorar", contou ao CM, emocionado.

Bárbara está indiciada pelo crime de ofensas à integridade física qualificada e hoje será observada por um psiquiatra.

O pai, doente e com dificuldades em andar, deslocou-se ontem a Caxias, de transportes públicos, carregando uma mala com comida e objectos pessoais para a filha. "Levei-lhe cereais, leite e iogurtes, mas só me deixaram entregar roupa e umas folhas e esferográficas para ela passar o tempo". Segundo o pai da jovem de 16 anos, Bárbara está "muito abalada e arrependida", pois "só agora percebeu a gravidade da situação".

Fernando confessou que quando confrontou a filha pela primeira vez sobre o vídeo, esta assegurou que a "Filipa tinha merecido a sova". Mas garante que foram as "más companhias" da escola que a desencaminharam, levando até ao mundo da droga. Para Fernando, a prisão preventiva "é um exagero", pois Bárbara "é uma criança e não pode estar misturada com criminosos com cadastro".

A jovem foi abandonada pela mãe ainda em criança, tendo sido criada pela avó e pelo pai.

ADVOGADO IMPEDIDO DE VER RODOLFO

lO advogado de Rodolfo não pôde, ontem à tarde, visitar o seu cliente na Zona Prisional da Polícia Judiciária, em Lisboa, onde o rapaz de 18 anos está em prisão preventiva. Sónia Patrícia, a mãe do autor do vídeo da violenta agressão à menor de 13 anos, considerado o instigador do crime, foi a única a poder entrar no edifício e ver o filho. "Supostamente, o Rodolfo tinha direito a três visitas e o advogado era uma delas, mas não o deixaram entrar", contou ao CM Soraia, de 17 anos, namorada do rapaz. Como esta foi a primeira visita a que o jovem teve direito desde que está preso, a prioridade foi dada à família, neste caso, à mãe.

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