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Correio da Manhã

Portugal
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'A COLUNA CUSTA A FICAR DIREITA'

Quantas vezes, rápida e desatentamente, cruzámos os centros das cidades, vilas e aldeias, por entre ruas e vielas, sem nunca nos darmos conta do trabalho que existe por debaixo dos nossos pés? A verdade é que o chão que pisamos é 'fruto' de vários anos de experiência, empenhamento e gosto artístico por parte de uma classe de artífices em vias de extinção: os calceteiros.
28 de Setembro de 2003 às 00:00
José Augusto  Reis, 58 anos
De mãos gretadas, envelhecidas, cansadas de tanto bater, 'nascem' autênticas obras de arte, com o manusear do martelo e da pedra a revelar mestria e, simultaneamente, magia, com a pancada seca e certeira a moldar as rochas ornamentais mais resistentes (granito, calcário, mármore, vidraça, basalto). Do nada surge o tudo. Da pedra surge a arte. E nós?
Nós, como sempre apressados, sem dar-mos conta, vamos pisando o trabalho destes artistas, esquecendo as exigências do mesmo, votando ao ostracismo uma arte que, mais cedo ou mais tarde, irá desaparecer.
"Os mais novos não querem continuar esta arte. Dá muito trabalho e pouco dinheiro", revela José Augusto Reis, um dos últimos calceteiros a trabalhar em Évora. Natural de Vila Nova da Baronia, actualmente com 58 anos, este 'ourives do chão' continua, assim, estoicamente, a dar continuidade a uma profissão que herdou do pai e dos tios.
Agora é com tristeza que se apercebe que a arte de embelezar o chão tende a desaparecer, já que "ninguém a quer aprender. Eu vejo pelo que se passa lá em casa. Eu aprendi com o meu pai, mas o meu filho já teve a possibilidade de estudar e, como tal, nem quer ouvir falar desta profissão".
Embora fundamental, principalmente em cidades com as características das de Évora, ser calceteiro tende a desaparecer, havendo uma enorme dificuldade em cativar aprendizes. "Por mais que a gente tente as pessoas não querem, ou então os poucos que poderiam ser aproveitados, mais tarde ou mais cedo, são atraídos por tarefas melhor remuneradas, desistindo".
"O problema é que este trabalho exige muito de nós. Para além de ser necessário gostar de fazer isto, de ser necessário ter alguma habilidade no manuseamento da pedra e do martelo, nem todos estão na disposição de estar debaixo do sol, no Verão, agachados todo o dia. Por vezes nem consigo endireitar as costas".
A trabalhar nesta arte desde os 12 anos, "já que o dinheiro fazia falta lá em casa e os estudos não alimentavam o corpo", José Augusto Reis não faz a mínima ideia de quantos quilómetros de calçada já fez. "Só sei que comecei muito cedo e que ainda aqui ando". Contudo, o seu currículo apresenta algumas obras de que o 'nosso' calceteiro se orgulha muito.
"Há cerca de 13 anos fui o responsável pela recuperação da calçada existente no tabuleiro da Praça de Giraldo. Foi uma obra que me deu muito prazer, principalmente por se tratar da principal 'sala de visitas' de Évora. Mas, não obstante assinar essa obra, "sempre que por lá passo fico arrepiado".
Como qualquer artista, também o calceteiro gosta que a sua obra seja contemplada e, acima de tudo, respeitada. "A mim até me dói o coração quando vejo a calçada esburacada, quando lhe espetam estacas ou quando está suja".
Se é certo que nas artérias das chamadas zonas históricas o cuidado com a calçada é maior, nas novas zonas de urbanização a acuidade empregue não é menor, embora nestes casos o rigor estético seja diferente.
BILHETE DE IDENTIDADE
A Associação de Exploradores de Calçada à Portuguesa estima que existam cerca de 1000 calceteiros. Normalmente ligados a empresas de pequena dimensão, fundamentalmente
de cariz familiar, que entre si exploram o calcário, escoam o produto e assentam a calçada.
CALÇADA APRECIADA LÁ FORA
A Calçada de Vidraço à Portuguesa constitui uma forma tradicional de tratamento do espaço urbano, que assumindo valor estético genuíno não pode deixar de ser considerado como uma verdadeira manifestação da nossa cultura, reconhecida e apreciada no estrangeiro.
Esta forma tradicional de revestimento artístico de passeios, confronta-se, no entanto, com enormes dificuldades, quer ao nível da obtenção da matéria-prima, quer ao nível da formação profissional.
Recorde-se que a Lei de Bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural considera que "Especial protecção devem merecer os modos tradicionais de fazer, nomeadamente as técnicas tradicionais de construção e de fabrico".
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