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Correio da Manhã

Portugal
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A história, as verdades e as mentiras sobre a morte de Valentina

Do desaparecimento até à descoberta do corpo e à prisão preventiva do pai e da madrasta suspeitos do homicídio da menina de Peniche.
Daniela Vilar Santos e Tânia Laranjo 13 de Maio de 2020 às 17:50
Do desaparecimento até à descoberta do corpo e à prisão preventiva do pai e da madrasta suspeitos do homicídio da menina de Peniche.
Por Daniela Vilar Santos e Tânia Laranjo 13 de Maio de 2020 às 17:50
Valentina Fonseca, de 9 anos, foi morta em casa e o corpo apareceu numa serra, a seis quilómetros da habitação, quatro dias depois. Os principais suspeitos do crime são o pai e a madrasta.

Na quinta-feira, dia 7, o pai dava o alerta à GNR do desaparecimento da menina em Atouguia da Baleia, Peniche. Foram quatro dias de buscas. Polícias, bombeiros, escuteiros, militares e populares juntaram-se para encontrar Valentina.

A calma do pai, o tapete na varanda, as roupas lavadas e as incongruências nos testemunhos levaram a PJ a uma conclusão: Valentina Fonseca terá sido espancada e morta pelo pai com a ajuda da madrasta. A autópsia revela que esteve 13 horas em agonia. O corpo foi largado numa serra e tapado por giestas. 

Uma semana depois da sua morte, o pai e a madrasta são condenados a prisão preventiva.
7 de maio

Sandro Bernardo, pai de Valentina, alertou a GNR às 8h30 para o desaparecimento da filha de 9 anos.

Bombeiros, GNR e cães pisteiros correram ruas e campos na freguesia. A menina não podia estar longe.

O cenário de crime estava afastado. A Polícia Judiciária já estava em cima do caso com a indicação que em 2018, a menina já tinha desaparecido de uma outra casa onde a família residia no concelho, tendo sido encontrada depois pela polícia.
8 de maio

Com o passar do tempo e sem notícias da menina começam a surgir as dúvidas. A primeira questão é a hora em que Valentina desapareceu. O pai diz que viu a filha pela última vez por volta da uma da madrugada. Diz que a foi aconchegar à cama.

Valentina estava há uma semana na casa do pai. Daria mostras de estar triste; a alteração das rotinas - a ausência da escola e a impossibilidade de estar com os amigos - poderá ter perturbado a menina.

Não havia sinais de intervenção de terceiros e nenhum indício de qualquer ato de violência na casa. Também o facto de a criança ter saído de pijama, chinelos e com apenas um casaco poderá levar a que pensasse que não andaria muito. Poderia pretender regressar. Não tinha acesso ao telemóvel nem à Internet.

Outra hipótese, avançada pela família, é que a criança tivesse tido uma crise de sonambulismo. A possibilidade era porém pouco provável, sendo certo que a menina tinha muito medo do escuro.

Já tinha passado um dia e não há rasto de Valentina.

Meu amor, volta para junto de nós, estamos desesperados"

Mãe de Valentina no Facebook
O pai da menina estaria a pensar emigrar com a madrasta e os dois meios-irmãos, ambos bebés. A criança estava perturbada também por mudar as suas rotinas.
 
Mudou de casa - vivia com a mãe no Bombarral - e foi alojar-se com o pai, a madrasta e os meios-irmãos em Atouguia da Baleia, em Peniche, local onde melhor podia seguir a escola através de aulas online. Estava longe dos amigos, convivia de perto com dois meios-irmãos.

Os familiares e pessoas próximas da família continuam a ser interrogados pela PJ. 
9 de maio

Terceiro dia de buscas por Valentina. Os rostos dão sinais de cansaço. A tristeza é visível no rosto dos familiares, populares, amigos, bombeiros e militares que se desdobram em buscas.

As falsas pistas estão a atrasar a investigação da Polícia Judiciária. Avistamentos, videntes e até roupas. Um homem a cavalo encontrou um casaco e uma t-shirt numa zona de ninguém. Ao início da noite encontraram mais um casaco cuja importância estava por validar. 

As pistas apontam cada vez mais à volta do desaparecimento voluntário: Valentina pode ter saído de casa pelo próprio pé durante a madrugada.

"Volta para os nossos braços por amor de Deus"

Mãe de Valentina no Facebook
10 de maio

As buscas por Valentina são travadas pela trágica notícia: o corpo da menina de 9 anos foi encontrado camuflado na Serra d'El Rei, a seis quilómetros da casa do pai. 

A madrasta e o pai de Valentina são detidos e começam a conhecer-se os contornos do crime. A menina terá sido morta em casa na noite de quarta-feira. Na mesma habitação estavam outras três crianças, de 12 anos, 4 e uma de poucos meses. 

O pai da menina começa por dizer à PJ que a menina tinha sofrido um ataque, que tinha sido um espasmo, e que entraram em pânico.
Sandro Bernardo terá mantido a mentira durante três dias até que, o filho da madrasta de Valentina, de 12 anos, desvendou o mistério. 

O meio-irmão da menina explicou que viu a menina a entrar com os adultos na casa de banho, na quarta-feira, e que já não a viu sair. Depois mandaram-no ir dormir.

Depois de confrontado com esta afirmação do menino, Sandro confessou. Disse que estava a exigir à filha que lhe contasse a verdade sobre boatos de ela ser vítima de abusos sexuais. Conta que Valentina tomava banho e foi nessa altura que a pressionou e tentou forçar uma confissão. Mas, ainda na versão dele, ela teve um ataque e convulsões. E morreu. Márcia, a madrasta, disse que nem estava no WC. Nem assume que ajudou a esconder o corpo. Sandro confirma, mas iliba a mulher da morte. Levaram o cadáver da menina no banco de trás da sua Renault Scenic verde e esconderam-no com as giestas.

Também o 'avô de coração' de Valentina, atual companheiro da avó materna da menina, revelou que a polícia precisou de entregar aos cães pisteiros as roupas da menina mas que Márcia se recusou a dar porque tinha "lavado a roupa" na quarta-feira.
Casa do pai e da madrasta de Valentina e local onde foi encontrado o corpo da menina

12 de maio

Emoção, lágrimas e muita revolta. Foi assim o funeral de Valentina, que teve lugar no Bombarral, local onde morava com a mãe, Sónia Fonseca. O povo fez questão de se despedir da menina de 9 anos.

Fizeram-se ouvir palmas e balões brancos e cor-de-rosa foram lançados na direção do carro onde seguia a urna. Lá dentro, as lágrimas e o desespero cobriam a cara de Sónia Fonseca, que estava acompanhada pelo namorado e pelo tio da criança.

A GNR montou um perímetro de segurança e apenas permitiu o acesso às cerimónias a familiares e amigos mais próximos, fazendo cumprir as recomendações da Direção-Geral da Saúde devido à pandemia.

Já no acesso ao cemitério outro momento comovente com a mãe de Valentina, agarrada ao caixão, em completo desespero. Um padre proferiu breves palavras antes de o cortejo seguir para a última morada da menina. Sónia Fonseca não conteve toda a a emoção depois de enterrar a filha e acabou por desmaiar. De imediato foi chamada uma ambulância que a transportou para o hospital.
Funeral Valentina
Funeral Valentina
Funeral Valentina
O emocionado adeus a Valentina, a menina de 9 anos agredida até à morte
O emocionado adeus a Valentina, a menina de 9 anos agredida até à morte
O emocionado adeus a Valentina, a menina de 9 anos agredida até à morte
Funeral Valentina
Funeral Valentina
Funeral Valentina
Funeral Valentina
Funeral Valentina
13 de maio

O Tribunal de Leiria decretou prisão preventiva para o pai e madrasta de Valentina, a menina de 9 anos encontrada morta em Peniche.

O pai da criança terá sido o autor do crime, de acordo com o juiz de instrução do Tribunal de Leiria.

Sandro Bernardo está acusado do homicídio qualificado e violência doméstica. Márcia está igualmente acusada de homicídio qualificado e sob dolo eventual". Ambos os arguidos estão ainda acusados do crime de profanação de cadáver.

Sandro Bernardo, pai de Valentina, chegou ao tribunal sob fortes medidas de segurança
Madrasta de Valentina no Tribunal de Leiria
Pai de Valentina à chegada do Tribunal de Leiria
Pai de menina de nove anos já está a depor no Tribunal de Leiria
Pai de menina de nove anos já está a depor no Tribunal de Leiria
Madrasta de Valentina à chegada do Tribunal de Leiria
Madrasta de Valentina à chegada do Tribunal de Leiria
Pai de Valentina à chegada do Tribunal de Leiria
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