Ainda é incerto o tamanho exacto da cidade de Lisboa no tempo em que os romanos por ali passaram, mas graças às últimas descobertas é possível afirmar que era maior do que se pensava. Foram detectadas algumas sepulturas na Encosta de Santana que datam do período romano e que, de acordo com os arqueólogos, pertenciam a uma grande necrópole que começava na Praça da Figueira. “Esta necrópole era de facto muito grande. E não era única. Há elementos que nos permitem dizer que havia muito mais necrópoles, mas esta será talvez a maior da cidade romana”, afirma Manuela Leitão, a arqueóloga do Museu da Cidade responsável pelos trabalhos relativos a esse período.
Esta meganecrópole esteve a funcionar praticamente durante quatro séculos (do I ao IV d.C.). “Lisboa, na época romana, era já uma cidade bastante grande. As necrópoles estão geralmente situadas fora de uma muralha, ao longo de um eixo viário. Só pela extensão desta necrópole dá para ter uma ideia de que a cidade tinha já um volume populacional considerável, embora não seja possível falar ao certo de números”, disse ao CM.
Depois, já aparecem vestígios da ocupação islâmica. “Pelos vestígios que foram detectados – um número significativo de silos, muros e caminhos – a ocupação islâmica que aqui se fez já não tem nada a ver com a necrópole. Nessa altura, esta era uma área de cariz habitacional, ligado a actividades agrícolas”, explica Manuela Leitão, para quem há ainda muito por descobrir na Lisboa subterrânea.
OS OSSOS DE OLISIPO
Uma das mais impressionantes descobertas feitas no local foram os restos mortais de uma rapariga sepultada na antiga necrópole romana, numa altura em que Lisboa se chamava Olisipo. A antropóloga Nathalie Antunes Ferreira foi capaz de traçar em linhas gerais o perfil daquela lisboeta, que terá vivido entre os séculos III e IV d.C. “Era uma rapariga nova, entre os 17 e 20 anos, o que se constata pelos dentes”, anunciou ao CM.
Manuela Leitão, por seu turno, explicou tratar-se de uma pessoa pobre. “Esta senhora não trazia espólio nenhum que nos permitisse traçar uma cronologia mais precisa sobre a altura em que foi sepultada. Não foi detectado qualquer tipo de artefacto. Normalmente aparecem lucernas, uma moeda, alguns utensílios de uso quotidiano, mas não neste caso.”
Além desta, já haviam sido encontrados outros dois indivíduos mais ou menos da mesma época: um homem por volta dos 40 anos, e uma mulher de 20 ou 21 anos.
A MURALHA FERNANDINA
A muralha construída por D.Fernando I, entre 1373 e 1375, foi uma obra grandiosa de mais de 100 quilómetros. Contígua à zona onde se realizam as escavações está um dos vestígios que restaram da antiga muralha fernandina, a chamada Torre do Jogo da Péla, assim baptizada por ter sido um dia utilizada para praticar esse jogo, originário do País Basco e que era uma forma ancestral daquilo que é hoje a pelota basca, um desporto semelhante ao squash.
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