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Correio da Manhã

Portugal
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A mulher que revolucionou o mundo dos enfermeiros

Quando, há mais de 25 anos, a então enfermeira cirúrgica Jean Watson viu um paciente morrer na sala de operações, decidiu que havia alguma coisa a fazer. “Foi o pior momento da minha vida profissional, constatar que aquele homem que ali estava era tratado como um simples objecto e não como uma pessoa e com toda a dignidade que merecia”, contou ontem ao CM a escritora e conferencista norte-americana.
15 de Junho de 2007 às 00:00
A mulher que revolucionou o mundo dos enfermeiros
A mulher que revolucionou o mundo dos enfermeiros FOTO: André Nacho
Na adolescência, Jean Watson decidiu que queria ser enfermeira. Tinha o sonho romântico de ajudar pessoas e de fazer a diferença. E acabou por concretizá-lo: “Sentia que podia ajudar os outros, não só no aspecto da doença mas também do ponto de vista humano.”
Depois de trabalhar em vários hospitais e clínicas, a norte-americana começou a elaborar teorias que foram aplaudidas em todo o mundo. Um do seus livros – ‘Uma Teoria de Enfermagem’ – constitui uma espécie de Bíblia Sagrada para quem segue a profissão.
“Os enfermeiros não servem apenas para prestar cuidados clínicos. Existe uma diferença entre o trabalho dos médicos e o dos enfermeiros e cabe a estes últimos lidar individualmente com cada paciente, incorporar o conceito de sofrimento e proporcionar-lhes momentos de afecto. É preciso humanizar o trabalho”, explica Jean Watson.
Quando começou a elaborar modelos teóricos e práticos de conduta da classe, recebeu de imediato louvores de todo o mundo. Desde então, divide a sua existência entre os pacientes e os inúmeros colóquios e conferências em vários países do Mundo.
O CM encontrou a especialista ontem à tarde na reitoria da Universidade de Lisboa, onde deixou pistas para a redefinição da enfermagem. Na manhã de ontem, a especialista foi homenageada com a Medalha de Honra da Universidade de Lisboa.
Uma das suas batalhas consiste em fazer com que os hospitais – públicos e privados – e as clínicas compreendam a nova dinâmica da enfermagem e que criem condições para humanizarem ao máximo o seu papel. “Em alguns países é possível. Temos um longo trabalho pela frente. E, no fundo, um enfermeiro é um especialista, um psicólogo, um sociólogo, um amigo... é aquela pessoa que deve estar sempre lá”, diz.
Quando olha para trás e para o seu extenso currículo, Jean Watson recorda com emoção um dos momentos em que sentiu que tinha feito a escolha certa: “É muito gratificante podermos ajudar e segurar a mão de um doente inconsciente ou com distúrbios mentais e sentirmos que, mesmo no meio da doença e da vulnerabilidade, ou da inconsciência, estamos a fazer a diferença porque o doente nos sente”.
A CIÊNCIA DE "SABER CUIDAR" DE QUEM MAIS PRECISA DE CUIDADOS
Jean Watson lançou um novo paradigma na Enfermagem em ‘Theory of Human Caring’ (’A Teoria do Cuidar Humano’) e explica os pressupostos científicos da mesma: “Esta ciência do saber cuidar é intrínseca à enfermagem e acaba por ser utilizada noutras áreas, como a ecologia, a educação, a filosofia e a ética. Por isso considero-a uma base de estudo interdisciplinar.”
Para a autora desta nova teoria, a ciência do cuidar está aberta a “várias perspectivas epistemológicas, incluindo as empíricas”. Segundo a teoria defendida pela norte-americana, todos as pessoas devem ser vistas como um todo e com dignidade, devem ser integradas num ambiente: “Não posso aceitar que o ser humano – sobretudo na sua vulnerabilidade, ou seja, quando necessita de cuidados – possa ser tratado como um objecto ou como só mais um. É preciso saber cuidar”, remata.
PERFIL
Jean Watson nasceu na Virgínia Ocidental, nos EUA, mas fez todo o seu percurso no estado do Colorado, onde se licenciou em enfermagem no ano de 1964.
Seguiram-se várias especializações e mestrados. Tem seis doutoramentos ‘honoris causa’ que lhe foram atribuídos por universidades dos EUA, Canadá e Suécia.
Escreveu o primeiro livro em 1979 e tem uma vasta obra publicada, destacando-se ‘Uma Teoria da Enfermagem’ e ‘Enfermagem Pós-moderna e Futura’.
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