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Correio da Manhã

Portugal
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A Ordem dos Médicos deve ser interventiva

Miguel Leão, candidato a bastonário da ordem dos médicos, quer unir a classe e acusa Pedro Nunes de demasiada passividade face às medidas tomadas pelo ministro da Saúde. Se o conseguir derrotar promete grandes alterações.
3 de Dezembro de 2007 às 00:00
A Ordem dos Médicos deve ser interventiva
A Ordem dos Médicos deve ser interventiva FOTO: Bruno Colaço
Correio da Manhã – Quais as razões que o levam a candidatar-se a bastonário?
Miguel Leão – O meu objectivo é defender e unir os médicos.
– Não estão defendidos? De quem?
– Não estão defendidos. Quando existe uma greve marcada pelos dois sindicatos e o presidente [Pedro Nunes] não se pronuncia sobre ela – que além de ter motivos evidentes é um acto simbólico, pois os sindicatos estão unidos – é estranho a Ordem não tomar posição e manifestar o descontentamento da classe face às políticas de Saúde.
– Mas a Ordem deve tomar posições sindicais?
– Deve defender os médicos. Essa é a grande diferença entre mim e o actual bastonário. Nesta matéria – que é simbólica, visto que os dois sindicatos não estavam unidos há muito tempo em relação a questões essenciais – o presidente da Ordem não quer tomar uma posição e isso é porque não é capaz de defender os médicos e de os unir.
– O bastonário deve estar ao lado dos sindicatos?
– Quando o bastonário se afasta, tem medo e não é capaz de apoiar uma greve que está altamente justificada, essa é a demonstração clara de que não tem condições para unir os médicos.
– Está a ser bastante crítico da actuação de Pedro Nunes. Acha que foi um mau bastonário?
– Conhece a posição da Ordem sobre os contratos individuais de trabalho? Não há posição conhecida. A questão do acordo do Governo com a ANF [Associação Nacional das Farmácias], que permite estabelecimento de meios de diagnóstico e terapêutica nas farmácias? Não conheço. Sobre o agrupamento dos centros de saúde? Não existe.
– A posição do bastonário devia ter vindo a público em todas essas medidas do Governo?
– São exemplos de um presidente omisso e que não defende os médicos. A Ordem não é um sindicato. Tem várias finalidades, como defender a ética e a qualidade da medicina. Implementar os interesses da profissão médica e é uma finalidade tão relevante quanto as outras e não tem sido acautelada pelo presidente da Ordem.
– Pedro Nunes foi firme na recente questão da recusa do Código Deontológico.
– Na questão do Código Deontológico concordo com Pedro Nunes, mas também acho que lhe veio dar imenso jeito. O ministro permitiu-lhe um balão de oxigénio com esta guerra.
– O que quer dizer com isso?
– Alguém perverso podia dizer que tudo isto foi combinado. Há uma grande coincidência com uma questão que se arrasta há meses. Esta intervenção autoritária e prepotente do ministro ocorreu na véspera das eleições. Pedro Nunes ficou a dever um favor a Correia de Campos.
"DEFENDI UMA REVISÃO"
CM – Concorda com a alteração ao Código Deontológico?
Miguel Leão – Desde Março, quando apresentei a candidatura, defendi uma revisão do Código, dos termos defendidos pelos médicos. Pedro Nunes lembrou-se agora do referendo. Ando a dizer isso desde Março. O Código está desactualizado. Sempre defendi a revisão não apenas pela questão da interrupção da gravidez mas uma revisão global feita e referendada pelos médicos.
– Se for eleito tem força pa-ra contrariar medidas do Ministério da Saúde?
– Não tenho dúvidas de que tenho melhores condições do que Pedro Nunes para ter uma relação saudável com os sindicatos SIM e FNAM e com a Associação dos Médicos de Clínica Geral.
"PODE HAVER UM PROBLEMA"
CM – Qual a pior medida de Correia de Campos?
Miguel Leão – Do ponto de vista do reflexo para os médicos foi a questão do pagamento das taxas à Entidade Reguladora da Saúde: é a questão mais sensível. Do ponto de vista simbólico, foi esta questão [da alteração] do Código Deontológico e a possibilidade de haver meios de diagnóstico e terapêutica nas farmácias.
– Isso é mau?
– Como os médicos não podem associar-se às actividades das farmácias, não podem ser médicos a executar esses meios de diagnóstico. Pode haver um problema grave, eventualmente, de saúde pública.
– Qual a pior medida para a população?
– A questão do fecho dos SAP. Mais uma omissão da Ordem.
PERFIL
Miguel Leão, 47 anos, nasceu no Porto. Divorciado, com uma filha, licenciou-se em Medicina na cidade natal. Especialista em Genética Médica e em Neurologia Pediátrica, foi secretário e presidente do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos. Sócio do Benfica, foi vice-presidente do Conselho Nacional Executivo da Ordem dos Médicos entre 1999 e 2001. Exerceu o cargo de secretário-geral do Comité Permanente dos Médicos da Comunidade Europeia.
NOTAS
65 ANOS
O aumento da idade da reforma, dos 55 para os 65 anos, uma medida tomada por este Governo, criou mal-estar na classe.
POR QUANTO É ELEITO O BASTONÁRIO?
O mandato do bastonário é de três anos. A Ordem é composta por três secções regionais e um conselho nacional executivo.
TRÊS CANDIDATOS
Três profissionais candidatam-se este ano ao cargo de bastonário: Pedro Nunes, Miguel Leão e CLarlos Silva Santos.
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