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Achados nos correios

Presuntos, vibradores, pneus de camião, pregos, alianças, medicamentos, bicicletas, até sacos para cadáveres. Tudo se perde na volta do correio. Todos os meses cerca de 60 mil objectos – dois mil por dia – vão parar ao chamado refugo postal dos CTT, uma espécie de perdidos e achados dos correios, onde se abrem cartas e encomendas como último recurso para encontrar o destinatário.

18 de agosto de 2006 às 00:00

Se não aparecer ninguém a reclamar a sua posse, tudo o que tiver valor vai a leilão. A restante correspondência é destruída.

“Aparece de tudo, desde roupa e calçado, até às coisas mais esquisitas.” É pelas mãos de Pedro Villalva, chefe da Secção de Refugo Postal, que passam muitos dos objectos que não têm dono. O responsável não quer adiantar muito sobre as esquisitices, mas salta à vista que são de cariz sexual.

A maior parte dos perdidos são cartas. Nas encomendas, o mais usual são CD, roupa e calçado. Mas há outras.

“Já tinha montado um automóvel, se tivesse ficado com as peças que aparecem por aí”, refere, explicando o mecanismo: só chegam ao refugo quando já estiverem esgotadas todas as hipóteses de se encontrar, quer o destinatário quer o remetente de determinado volume. Ali, a correspondência é aberta e o seu conteúdo analisado. Procura-se a pista derradeira.

LIXO OU LEILÃO

Depois disso, escolhe-se um destino para os objectos, que não podem ficar eternamente no armazém dos CTT, no Campo Grande.

As cartas registadas ficam guardadas durante um ano; o correio normal, só lá fica um mês. Findo os prazos, escolhe-se o destino. Ou são destruídos ou leiloados.

A forma de destruir o material é mais simples do que se possa supor: se for papel, vai à máquina trituradora; os restantes inutilizam-se e deitam-se no lixo. É para aí que vai um vibrador, por exemplo.

Já os objectos de valor – onde se incluem peças em ouro e prata – juntam-se e vão a leilão. O valor reverte para os CTT que, diz Pedro Villalva, “já ficam a perder com as taxas de devolução, expedição e armazenagem”.

Os leilões realizam-se de três em três meses e, ao que conta o responsável, são bastante frequentados. “Compram tudo. Não fico com nada”, sublinha, dando nota de que os compradores são quase sempre os mesmos: pessoas que compram material usado, mais barato, para vender nas feiras.

Além das cartas e encomendas que não indicam destinatário e das moradas erradas que inviabilizam a entrega, há uma quantidade de correspondência com destinatários pouco terrenos – caso de Santo António – ou impossíveis de encontrar: ‘É favor entregar à menina que passa às quatro da tarde em frente ao café’ ou ‘dar ao senhor Zé da mercearia em frente à linha de comboio”. “Há muitos malucos”, diz Pedro Villalva.

PERDIDOS NOS COMBOIOS

Nos primeiros sete meses do ano, a CP Lisboa, que abrange as linhas de Sintra, Cascais, Azambuja e Sado, contabilizou 1221 objectos perdidos em carruagens e estações. Os objectos mais curiosos passam por instrumentos musicais, entre eles um violino, e muitos bonecos de peluche. Segundo a CP Lisboa, a reclamação do objecto perdido pode ser feita nos gabinetes de apoio do Cais do Sodré e Entrecampos, ou por telefone, pelo número 808 208 208.

Até serem reclamados, os achados ficam armazenados nesses gabinetes. Os bens perecíveis, como os alimentos, são destruídos, enquanto os documentos são remetidos no fim de cada mês para a entidade responsável: Polícia ou Direcção-Geral de Viação, entre outras. E quando o dono não aparece, os objectos são entregues a instituições de caridade.

MAIS MALAS NO AEROPORTO

O Aeroporto da Portela, em Lisboa, está pelas costuras com o elevado número de voos da época e em clima de agitação face ao alerta de atentado terrorista divulgado pelas autoridades britânicas, o que provocou um aumento do número de malas perdidas. Segundo o porta-voz da TAP, António Monteiro, houve um “significativo” aumento de malas extraviadas, a par de um acréscimo do número de queixas. “Verificou-se um aumento das dificuldades porque se reforçaram os níveis de segurança e isso teve implicações em termos operacionais”, justificou.

A Groundforce, uma das duas empresas de gestão de bagagem na Portela, diz que os atrasos se devem aos condicionalismos do aeroporto. Cláudia Colaço, porta-voz da empresa, afirma que, com o aumento de voos, “os tapetes chegam a parar durante horas e as malas não embarcam”. A outra empresa, a Portway, garante que “a bagagem não chega por culpa do aeroporto de partida”. Há passageiros a aguardar horas pela chegada das malas aos tapetes de recolha.

REGRAS

A abertura da correspondência no refugo postal dos CTT obedece a determinadas regras. A secção tem três pessoas que estão autorizadas a fazê-lo legalmente. Os objectos só podem ser abertos quando estiverem pelo menos dois desses funcionários e não o podem fazer na presença de estranhos.

CRIME

Quem não estiver devidamente autorizado a abrir correspondência alheia incorre em crime, punido com prisão até um ano ou com pena de multa.

6 MILHÕE POR DIA

Os correios movimentam cerca de seis milhões de objectos por dia, 180 milhões por mês.

ALDEIAS

Nas aldeias, os carteiros têm mais facilidade em encontrar os destinatários dos objectos.

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