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Correio da Manhã

Portugal
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“Acolheu-a para não ficar na rua”

Maria Sameiro nem sempre morava com João Francisco. Tinham casado na Suíça, mas a união não estava oficializada em Portugal. Por isso, eram ambos considerados solteiros e estavam separados há algum tempo, porque ela tinha escolhido ir viver com outra pessoa.
8 de Fevereiro de 2011 às 00:30
Luísa Ferreira estava ontem inconsolável com a tragédia de que foi vítima a amiga
Luísa Ferreira estava ontem inconsolável com a tragédia de que foi vítima a amiga

Mas, segundo Luísa Ferreira, amiga de Maria, "foi expulsa no domingo da casa do actual companheiro e, para não ficar na rua, o João acolheu-a". "Ela não quis vir para a minha casa. Se tivesse vindo, nada disto teria acontecido", lamentou ao CM Luísa Ferreira, que considerava a vítima "como se fosse uma irmã".

"[Ontem] tinha--me fartado de ligar para os quatro telemóveis deles mas ninguém me atendia. Já desconfiava de que alguma coisa pudesse ter acontecido. E soube do incêndio logo de manhã, mas nunca pensei que tivessem sido eles a morrer", desabafou.

"Ainda hoje [ontem] me tinham perguntado por ela e eu respondi que estava bem. Estava longe de saber da desgraça", declarou, adiantando que na próxima sexta--feira esperava por Maria Sameiro em casa "para comer sardinhas".

Além do rapaz que morreu ontem, Maria e João tinham outra filha, de 18 anos, que se encontra num internato feminino em Leiria. "Foi-lhes retirada pela Segurança Social, porque não tinham condições para mantê-la. O mesmo tinha acontecido com o filho, que esteve na Misericórdia das Caldas, mas ele agora já era adulto e passou a viver com o pai", revelou Luísa Ferreira. Segundo descreveu, o quarto improvisado nas águas furtadas do nº4 da Travessa da Piedade "incluía no mesmo espaço a sala e cozinha e era muito apertado". "Mas era onde eles podiam viver, pagando cerca de 120 euros mensais". Luísa Ferreira disse desconhecer quem eram os outros ocupantes do prédio.

João Francisco trabalhava numa estufa de flores na zona industrial das Caldas da Rainha. Quanto ao filho, João Dinis, estava a tentar fazer uma formação para poder entrar no mercado de trabalho. Maria Sameiro encontrava-se desempregada mas ia começar a trabalhar numa fábrica de peixe em Peniche.

"Eles eram pessoas pobres e iam procurar-nos todos os dias para os almoços e jantares", referiu ao CM Maria José, da associação De Volta a Casa, que presta apoio a pessoas desfavorecidas da região.

ESPERARAM PELO SOCORRO EM CIMA DO TELHADO

O pânico provocou reacções diferentes nos hóspedes. Houve quem saísse pela porta principal, outros ficaram imobilizados à espera de socorro ou subiram para as águas furtadas. Três pessoas que subiram para a cobertura foram resgatadas pela auto-escada dos bombeiros, assim como a mulher que pulou do telhado para outro prédio. O proprietário do prédio chegou ao local e bateu às portas dos quartos para as pessoas saírem.

SUSPEITA DEVE SER OUVIDA HOJE EM TRIBUNAL

Uma das moradoras, ocupante do quarto onde as chamas terão começado, foi assistida no hospital e terá sido detida depois pela Polícia Judiciária de Leiria. É apontada como a responsável pela deflagração das chamas e deverá ser hoje presente a um juiz de instrução criminal do Tribunal das Caldas da Rainha. A mulher, de nacionalidade ucraniana, pode vir a ser acusada pelo Ministério Público de um crime de homicídio com dolo eventual, apurou ontem o CM.

DISCURSO DIRECTO

"É PRECISO MAIS FISCALIZAÇÃO": Fernando Curto, Pres. Ass. Nac. Bombeiros Profissionais

Correio da Manhã – Os centros históricos ainda são complicados para os bombeiros?

Fernando Curto – Sim, na perspectiva da dificuldade de acesso. E por a maioria dos moradores serem pessoas de idade. É preciso mais prevenção e fiscalização.

– Foram registadas melhorias nos últimos anos?

– De uma forma geral, sim. Mas há sempre situações que escapam e, por isso, é preciso continuar a reestruturar e a fiscalizar.

– É preciso alterar a filosofia de utilização destes centros?

– Devem ser reajustados para permitir o acesso rápido às viaturas dos bombeiros. E deviam ser criadas equipas de primeira intervenção para estas zonas. 

"FIZERAM-ME EXCESSO DE PERGUNTAS NO 112"

O tempo que os bombeiros demoraram a chegar ao local do incêndio foi alvo de críticas por parte de alguns moradores. "Liguei para o 112, fizeram-me muitas perguntas, em excesso, e eu só pedia que fossem urgentes. Os bombeiros devem ter demorado 15 minutos a chegar. Telefonei para o dono do prédio e foi mais rápido", diz uma moradora, que pediu para não ser identificada.

Segundo o comandante dos Bombeiros de Caldas da Rainha, José António, desde a chamada inicial até à chegada dos bombeiros ao prédio passaram "12 minutos". E nove minutos foram ocupados com a transferência da chamada do 112 para o CDOS de Leiria e daí para os bombeiros. O CM tentou obter pormenores sobre os passos da ocorrência das Caldas da Rainha junto dos responsáveis pelo Centro Sul do 112, sem sucesso. Mas uma fonte do serviço de emergência explicou que é normal colocarem-se questões a quem telefona a pedir socorro. O objectivo é despistar eventuais falsos alarmes e obter o máximo de informações à partida para fazer avançar para o terreno os meios de auxílio mais adequados ao tipo de sinistro em causa.

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