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Ana Isabel Fonseca
JornalistaDaniela Vilar Santos
JornalistaTermina a sessão
João Lopes explica o porquê de o encontro ter sido Norteshopping
João Lopes começa a falar da entrega de dinheiro a 23 de junho de 2021 no centro comercial Norteshopping, em Matosinhos.
“Falei com o Malafaia, ele sugeriu o encontro no Norteshopping. Vou tentar explicar porque lá foi. Eu quando fui ao gabinete do Malafaia tinha lá uma coluna de som que eu gostava. Depois percebi o porquê de irmos ao Norteshopping. Encontrei-o no parque e o Malafaia disse que tinha uma bolsa para me entregar, mas que era da esposa do senhor Elad e precisava de comprar outra bolsa para retirar o conteúdo e devolver a outra ao Elad”, conta João Lopes, que dá pormenores sobre a entrega de dinheiro.
“Fomos à casa de banho, que o senhor Malafaia tem um problema urinário. Eu fiquei junto aos lavatórios e ele foi para um dos gabinetes. Ele depois trocou o conteúdo e deu-me a bolsa preta de colocar à cintura. Depois fomos à loja da Apple e ele deu-me uma coluna de som igual à dele”, conclui.
“Neste dia recebi 24.600 euros. Num dos maços faltavam 400 euros”, diz João Lopes.
“Os 400 euros não foram o valor da coluna?”, questiona a procuradora.
O advogado diz que não sabe, mas que, de facto, a coluna teve esse preço. A juíza pergunta se João Lopes não abordou Malafaia sobre a falta deste montante.
“Fui tão tonto que perguntei, ele disse para ficar assim”, explica João Lopes, que diz que recebeu o dinheiro em notas de 50 euros.
João Lopes dá mais explicações sobre como gastou o dinheiro recebido. “Fiz pagamentos a viagem, em fevereiro, março, a Madrid. Ficámos alojados em Madrid. Fiz pagamentos de cartão de crédito. Alguns pagamentos médicos, mas nada muito exagerado”, explica.
A procuradora questiona em que altura João Lopes começou a pedir uma nova tranche de dinheiro. Existiam mensagens, onde falavam da necessidade de “adoçar a boca” ao vice-presidente. “Foi mais ou menos na altura do verão. Foi a forma que arranjei de pedir dinheiro para mim”, diz João Lopes. “Eu penso que o Paulo Malafaia sabia desde o início que o dinheiro não era para mim. Eu só no dia 16 de maio ( dia da detenção) é que soube que tinha o cognome de ‘Gorila’, que era assim que me chamavam”, afirma.
A juíza não entende o motivo pelo qual Malafaia e Elad continuaram a entregar dinheiro se sabiam que não era para Patrocínio e tendo em conta que João Lopes recebia já uma avença pelos seus serviços. “Foi uma estupidez, entrei numa avidez de dinheiro”, diz o advogado, sem conseguir explicar o que a magistrada pretendia.
Um dos juízes refere vários movimentos da conta de João Lopes. “Porque é que tinha tanta necessidade de receber 25 mil euros, se meses antes tinha recebido dinheiro das Construções? Primeiro 100 mil, depois 30 mil e outros pagamentos. E foi dinheiro que recebeu se andar aqui com esses enredos. Em que gastava o dinheiro para estar assim tão aflito?”, questiona o juiz.
Foi um erro, habituei-me a um nível de vida que não era meu. Gastei dinheiro mal gasto, comprei um carro para a minha mulher. Como disse o meu pai: 'era um par de lambadas nessas trombas, era o que precisavas'. É essa a realidade”, diz João Lopes.
“A empresa do senhor Malafaia, a ‘Attic’, pagava sempre por transferência. Estes 50 mil porque é que tinham de ser em dinheiro?”, questiona o juiz. João Lopes diz que foi uma exigência sua e não queria pagar impostos. “O senhor tinha recebido um pagamento de 100 mil euros por transferência e de repente lembrou-se de não pagar impostos?”, pergunta o magistrado, que não fica convencido com a explicação de João Lopes.
Sessão retomada
Intervalo para almoço
"O dinheiro estava em maços de 5 mil euros”
A procuradora questiona João Lopes sobre a forma como os primeiros 25 mil euros foram entregues.
“Foi na sede do grupo Fortera. Estava o senhor Paulo Malafaia e o senhor Elad. O senhor Elad entregou uma bolsa ao senhor Paulo Malafaia e ele deu-me a bolsa. Guardei o dinheiro em casa e fui gastando como necessitava. O dinheiro estava em maços de 5 mil euros”, afirma João Lopes, que depois diz dá mais explicações.
“Em minha casa tenho um cofre, mas eu não o sei abrir, foi a minha mulher que abriu. Usei para despesas familiares médicas, para outras despesas de família. Depositei algum do dinheiro na minha conta e depois fazia os pagamentos de lá”, admite, quando questionado pelo juiz sobre a forma como gastou o dinheiro.
João Lopes diz que "para a torneira em Gaia continuar aberta" significa investir na cidade
A procuradora confronta João Lopes com uma mensagem enviada a Patrocínio Azevedo no final de 2020. “É importante tranquilizar o homem para a torneira para Gaia continuar aberta”, dizia João Lopes ao então ‘vice’ da Câmara.
O advogado tenta explica que considerava importante tranquilizarem os investidores, nomeadamente o grupo Fortera.
“O que é a torneira?”, questiona a juíza.
João Lopes diz que se referia ao investimento na cidade.
“A certa altura o senhor começa a pedir algo a Paulo Malafaia, dinheiro?, questiona a procuradora. “Sim”, assume, João Lopes.
João Lopes diz que começou a pedir dinheiro a Malafaia em janeiro de 2021. “Perante uma necessidade pessoal usei o nome do engenheiro Patrocínio para tentar numa reunião conseguir obter dinheiro para ti”, volta a assumir João Lopes.
“Quando pergunta se o resto está a ser tratado é já a falar de dinheiro?, questiona a procuradora. João Lopes diz que não se recorda.
"Eu nunca disse especificamente que ia corromper o engenheiro Patrocínio. Dei a entender que ia conseguir resolver o problema e queria determinado montante", afirma o advogado.
João Lopes dá mais explicações. "Que tentei criar um cenário que era para o senhor engenheiro isso é verdade", conclui.
O advogado admite que possa ter dado a entender que o dinheiro "era para terceiros", mas que na realidade era para ele. "Nunca foi nada para ele. Pedi e usei em proveito próprio. Se houvesse um pacto corruptivo com o engenheiro Patrocínio não havia necessidade de eu continuar depois em negociações", diz João Lopes.
O advogado dá mais explicações. "Dei a entender que o dinheiro não era para mim, mas nunca disse que ia corromper com ele o engenheiro Patrocínio. Não sei o que ia na cabeça deles", diz João Lopes, que refere que a certa altura Paulo Malafaia e Elad Dror perceberam que o dinheiro não era para Patrocínio Azevedo.
Um dos juízes pergunta o que é que o dinheiro ia desbloquear. "Não ia desbloquear nada, percebi desde o primeiro momento que o engenheiro Patrocínio ia arranjar uma solução", diz.
"É uma nódoa que tenho na minha vida que vou ter para o resto da minha vida, tenho andado medicado. Na semana passada, saí daqui a sentir-me tão mal, estou a fazer desmame da medicação para conseguir falar", diz João Lopes.
O advogado acrescenta que nunca teve intenção de cometer qualquer ilegalidade e volta a referir que recebeu 50 mil euros : 25 mil em janeiro de 2021 e mais 25 em junho do mesmo ano. Diz que foi depois desta segunda entrega no centro comercial Norteshopping que contou a Paulo Malafaia que o dinheiro era para si.
“A minha mais-valia, neste caso, era facilidade de marcação de reuniões, não era mais que isso. Não houve aceleração de procedimentos, não resultou mais-valias para o construtor, não houve aumento da capacidade construtiva, manteve-se a que existia”, afirma o advogado, que rejeita assim que tenha existido algum favorecimento no projeto 'Riverside'.
Procurador questiona João Lopes sobre projeto 'Riverside'. Acusação diz que Patrocínio Azevedo recebeu subornos de 125 mil euros
A procuradora começa a colocar algumas questões relacionadas com o projeto ‘Riverside’, na Quinta de Santo António. A acusação diz que foi neste projeto que Patrocínio Azevedo recebeu subornos de 125 mil euros.
“A primeira vez que tive acesso a este projeto foi em julho de 2020. O senhor Paulo Malafaia pediu-me que falasse com o engenheiro Patrocínio Azevedo para ver uns elementos deste projeto”, afirma João Lopes, que dá mais explicações. “O Paulo Malafaia só no final do ano pediu depois a minha intervenção”.
A magistrada questiona qual era a intenção de Paulo Malafaia. “Estavam a existir algumas dificuldade nas reuniões entre os técnicos da Câmara e os da Fortera em chegarem a uma solução para o Riverside. Foi depois em janeiro do ano seguinte que falei do assunto com o engenheiro Patrocínio”, diz o advogado.
No projeto 'Riverside' surgiram problemas depois de serem encontrados vestígios arqueológicos num dos lotes do terreno. “A Fortera queria manter a capacidade construtiva do terreno. Queriam por isso arranjar uma solução arquitetónica, que passou depois por adquirir o lote 1 e 2”, acrescenta João Lopes.
A juíza questiona qual podia ser o contributo de João Lopes como jurista. “A Câmara não tinha juristas?”, questiona a magistrada.
João Lopes apenas diz que lhe pediram a intervenção.
“O senhor Paulo Malafaia mostrava a preocupação do senhor Elad. Sentia que tinha feito um investimento e que se calhar não iria ter o retorno que pensava devido a este problema da capacidade construtiva”, afirma João Lopes, que explica depois o motivo pelo qual Paulo Malafaia dizia que era importante tomar café com Patrocínio Azevedo.
“Tinha dificuldade em contactar por vezes com o engenheiro Patrocínio Azevedo e por vezes eram nestes 3 ou 4 minutos no café que conseguia resolver as coisas”, explica.
João Lopes explica que a certa altura decidiram que fosse enviada informação para a comunicação social a dar conta da existência de vestígios arqueológicos no terreno. A ideia seria valorizar os achados arqueológicos, com vista a que depois fosse ali criado um centro.
"Isto foi uma ideia do engenheiro Patrocínio?", questiona a procuradora. João Lopes diz se a ideia resultou "de um consenso entre a Câmara e a Fortera". O advogado diz que a ideia da notícia era "criar ruído".
Recomeça a sessão com o advogado João Lopes, arguido no processo, a falar
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