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Advogado João Lopes é outro dos arguidos
Atualizado a 10 de fevereiro de 2025 às 17:02

João Lopes usou dinheiro pedido em nome do ex-vice de Gaia para despesas familiares. Tudo o que foi dito em julgamento

Operação Babel

Os 16 arguidos no caso da Operação Babel regressaram esta segunda-feira a tribunal. Os suspeitos estão indiciados pela violação de normas em processos de licenciamento urbanísticos em Gaia. Patrocínio Azevedo, o ex-vice-presidente da Câmara Municipal de Gaia, os empresários do ramo imobiliário Paulo Malafaia e Elad Dror, fundador do grupo Fortera, fazem parte do grupo de arguidos e estão acusados de dezenas de crimes económicos, inclusive corrupção e tráfico de influência. O advogado João Lopes continuou a ser ouvido na nona sessão do julgamento.

Julgamento acompanhado ao minuto pelas jornalistas Ana Isabel Fonseca e Daniela Vilar Santos
Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 17h01

Termina a sessão

Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 16h44

João Lopes explica o porquê de o encontro ter sido Norteshopping

João Lopes começa a falar da entrega de dinheiro a 23 de junho de 2021 no centro comercial Norteshopping, em Matosinhos.

“Falei com o Malafaia, ele sugeriu o encontro no Norteshopping. Vou tentar explicar porque lá foi. Eu quando fui ao gabinete do Malafaia tinha lá uma coluna de som que eu gostava. Depois percebi o porquê de irmos ao Norteshopping. Encontrei-o no parque e o Malafaia disse que tinha uma bolsa para me entregar, mas que era da esposa do senhor Elad e precisava de comprar outra bolsa para retirar o conteúdo e devolver a outra ao Elad”, conta João Lopes, que dá pormenores sobre a entrega de dinheiro.

“Fomos à casa de banho, que o senhor Malafaia tem um problema urinário. Eu fiquei junto aos lavatórios e ele foi para um dos gabinetes. Ele depois trocou o conteúdo e deu-me a bolsa preta de colocar à cintura. Depois fomos à loja da Apple e ele deu-me uma coluna de som igual à dele”, conclui.

“Neste dia recebi 24.600 euros. Num dos maços faltavam 400 euros”, diz João Lopes.

“Os 400 euros não foram o valor da coluna?”, questiona a procuradora.

O advogado diz que não sabe, mas que, de facto, a coluna teve esse preço. A juíza pergunta se João Lopes não abordou Malafaia sobre a falta deste montante.

“Fui tão tonto que perguntei, ele disse para ficar assim”, explica João Lopes, que diz que recebeu o dinheiro em notas de 50 euros.

Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 14h42

João Lopes dá mais explicações sobre como gastou o dinheiro recebido. “Fiz pagamentos a viagem, em fevereiro, março, a Madrid. Ficámos alojados em Madrid. Fiz pagamentos de cartão de crédito. Alguns pagamentos médicos, mas nada muito exagerado”, explica.

A procuradora questiona em que altura João Lopes começou a pedir uma nova tranche de dinheiro. Existiam mensagens, onde falavam da necessidade de “adoçar a boca” ao vice-presidente. “Foi mais ou menos na altura do verão. Foi a forma que arranjei de pedir dinheiro para mim”, diz João Lopes. “Eu penso que o Paulo Malafaia sabia desde o início que o dinheiro não era para mim. Eu só no dia 16 de maio ( dia da detenção) é que soube que tinha o cognome de ‘Gorila’, que era assim que me chamavam”, afirma.

A juíza não entende o motivo pelo qual Malafaia e Elad continuaram a entregar dinheiro se sabiam que não era para Patrocínio e tendo em conta que João Lopes recebia já uma avença pelos seus serviços.  “Foi uma estupidez, entrei numa avidez de dinheiro”, diz o advogado, sem conseguir explicar o que a magistrada pretendia.

Um dos juízes refere vários movimentos da conta de João Lopes. “Porque é que tinha tanta necessidade de receber 25 mil euros, se meses antes tinha recebido dinheiro das Construções? Primeiro 100 mil, depois 30 mil e outros pagamentos. E foi dinheiro que recebeu se andar aqui com esses enredos. Em que gastava o dinheiro para estar assim tão aflito?”, questiona o juiz.

Foi um erro, habituei-me a um nível de vida que não era meu. Gastei dinheiro mal gasto, comprei um carro para a minha mulher. Como disse o meu pai: 'era um par de lambadas nessas trombas, era o que precisavas'. É essa a realidade”, diz João Lopes.

“A empresa do senhor Malafaia, a ‘Attic’, pagava sempre por transferência. Estes 50 mil porque é que tinham de ser em dinheiro?”, questiona o juiz. João Lopes diz que foi uma exigência sua e não queria pagar impostos. “O senhor tinha recebido um pagamento de 100 mil euros por transferência e de repente lembrou-se de não pagar impostos?”, pergunta o magistrado, que não fica convencido com a explicação de João Lopes.

Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 14h41

Sessão retomada

Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 12h37

Intervalo para almoço

Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 12h36

"O dinheiro estava em maços de 5 mil euros”

A procuradora questiona João Lopes sobre a forma como os primeiros 25 mil euros foram entregues.

“Foi na sede do grupo Fortera. Estava o senhor Paulo Malafaia e o senhor Elad. O senhor Elad entregou uma bolsa ao senhor Paulo Malafaia e ele deu-me a bolsa. Guardei o dinheiro em casa e fui gastando como necessitava. O dinheiro estava em maços de 5 mil euros”, afirma João Lopes, que depois diz dá mais explicações.

“Em minha casa tenho um cofre, mas eu não o sei abrir, foi a minha mulher que abriu. Usei para despesas familiares médicas, para outras despesas de família. Depositei algum do dinheiro na minha conta e depois fazia os pagamentos de lá”, admite, quando questionado pelo juiz sobre a forma como gastou o dinheiro.

Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 11h17

João Lopes diz que "para a torneira em Gaia continuar aberta" significa investir na cidade

A procuradora confronta João Lopes com uma mensagem enviada a Patrocínio Azevedo no final de 2020. “É importante tranquilizar o homem para a torneira para Gaia continuar aberta”, dizia João Lopes ao então ‘vice’ da Câmara.

O advogado tenta explica que considerava importante tranquilizarem os investidores, nomeadamente o grupo Fortera.

“O que é a torneira?”, questiona a juíza.

João Lopes diz que se referia ao investimento na cidade.

“A certa altura o senhor começa a pedir algo a Paulo Malafaia, dinheiro?, questiona a procuradora. “Sim”, assume, João Lopes.

João Lopes diz que começou a pedir dinheiro a Malafaia em janeiro de 2021. “Perante uma necessidade pessoal usei o nome do engenheiro Patrocínio para tentar numa reunião conseguir obter dinheiro para ti”, volta a assumir João Lopes.

“Quando pergunta se o resto está a ser tratado é já a falar de dinheiro?, questiona a procuradora.  João Lopes diz que não se recorda.

"Eu nunca disse especificamente que ia corromper o engenheiro Patrocínio. Dei a entender que ia conseguir resolver o problema e queria determinado montante", afirma o advogado.

João Lopes dá mais explicações. "Que tentei criar um cenário que era para o senhor engenheiro isso é verdade", conclui.

O advogado admite que possa ter dado a entender que o dinheiro "era para terceiros", mas que na realidade era para ele. "Nunca foi nada para ele. Pedi e usei em proveito próprio. Se houvesse um pacto corruptivo com o engenheiro Patrocínio não havia necessidade de eu continuar depois em negociações", diz João Lopes.

O advogado dá mais explicações. "Dei a entender que o dinheiro não era para mim, mas nunca disse que ia corromper com ele o engenheiro Patrocínio. Não sei o que ia na cabeça deles", diz João Lopes, que refere que a certa altura Paulo Malafaia e Elad Dror perceberam que o dinheiro não era para Patrocínio Azevedo.

Um dos juízes pergunta o que é que o dinheiro ia desbloquear. "Não ia desbloquear nada, percebi desde o primeiro momento que o engenheiro Patrocínio ia arranjar uma solução", diz.

"É uma nódoa que tenho na minha vida que vou ter para o resto da minha vida, tenho andado medicado. Na semana passada, saí daqui a sentir-me tão mal, estou a fazer desmame da medicação para conseguir falar", diz João Lopes.

O advogado acrescenta que nunca teve intenção de cometer qualquer ilegalidade e volta a referir que recebeu 50 mil euros : 25 mil em janeiro de 2021 e mais 25 em junho do mesmo ano. Diz que foi depois desta segunda entrega no centro comercial Norteshopping que contou a Paulo Malafaia que o dinheiro era para si.

“A minha mais-valia, neste caso, era facilidade de marcação de reuniões, não era mais que isso. Não houve aceleração de procedimentos, não resultou mais-valias para o construtor, não houve aumento da capacidade construtiva, manteve-se a que existia”, afirma o advogado, que rejeita assim que tenha existido algum favorecimento no projeto 'Riverside'.

Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 10h27

Procurador questiona João Lopes sobre projeto 'Riverside'. Acusação diz que Patrocínio Azevedo recebeu subornos de 125 mil euros

A procuradora começa a colocar algumas questões relacionadas com o projeto ‘Riverside’, na Quinta de Santo António. A acusação diz que foi neste projeto que Patrocínio Azevedo recebeu subornos de 125 mil euros.

“A primeira vez que tive acesso a este projeto foi em julho de 2020. O senhor Paulo Malafaia pediu-me que falasse com o engenheiro Patrocínio Azevedo para ver uns elementos deste projeto”, afirma João Lopes, que dá mais explicações. “O Paulo Malafaia só no final do ano pediu depois a minha intervenção”.

A magistrada questiona qual era a intenção de Paulo Malafaia. “Estavam a existir algumas dificuldade nas reuniões entre os técnicos da Câmara e os da Fortera em chegarem a uma solução para o Riverside. Foi depois em janeiro do ano seguinte que falei do assunto com o engenheiro Patrocínio”, diz o advogado.

No projeto 'Riverside' surgiram problemas depois de serem encontrados vestígios arqueológicos num dos lotes do terreno. “A Fortera queria manter a capacidade construtiva do terreno. Queriam por isso arranjar uma solução arquitetónica, que passou depois por adquirir o lote 1 e 2”, acrescenta João Lopes.

A juíza questiona qual podia ser o contributo de João Lopes como jurista. “A Câmara não tinha juristas?”, questiona a magistrada.

João Lopes apenas diz que lhe pediram a intervenção.

“O senhor Paulo Malafaia mostrava a preocupação do senhor Elad. Sentia que tinha feito um investimento e que se calhar não iria ter o retorno que pensava devido a este problema da capacidade construtiva”, afirma João Lopes, que explica depois o motivo pelo qual Paulo Malafaia dizia que era importante tomar café com Patrocínio Azevedo.

“Tinha dificuldade em contactar por vezes com o engenheiro Patrocínio Azevedo e por vezes eram nestes 3 ou 4 minutos no café que conseguia resolver as coisas”, explica.

João Lopes explica que a certa altura decidiram que fosse enviada informação para a comunicação social a dar conta da existência de vestígios arqueológicos no terreno. A ideia seria valorizar os achados arqueológicos, com vista a que depois fosse ali criado um centro.

"Isto foi uma ideia do engenheiro Patrocínio?", questiona a procuradora. João Lopes diz se a ideia resultou "de um consenso entre a Câmara e a Fortera". O advogado diz que a ideia da notícia era "criar ruído".

Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025 às 10h17

Recomeça a sessão com o advogado João Lopes, arguido no processo, a falar

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João Lopes admite ter usado nome do vice-presidente de Gaia para pedir dinheiro

Publicada originalmente a 10 de fevereiro de 2025 às 10:17

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