Afogou-se com os filhos

Vou matar-me e tu vais ficar sem as duas coisas que mais amas no mundo.” Foram as últimas palavras, escritas numa carta, que Maria do Rosário Durães Pinto dirigiu ao marido, de quem estava separada há um mês, anunciando a tragédia que mais tarde concretizou. Os irmãos Catarina, de dez anos, e António Manuel, de sete, morreram afogados – de roupão e pijama –, depois da mãe os ter tirado da cama e atirado o carro onde os três seguiam às águas do Rio Tâmega, em Marco de Canaveses, às 02h00 de ontem. Ao saber da tragédia, o pai das crianças tentou matar-se.
22.11.06
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Afogou-se com os filhos
Os bombeiros resgataram os corpos de Maria do Rosário e dos dois filhos quatro horas depois do carro ter sido lançado ao rio Foto Alexandre Panda
Maria do Rosário e Francisco Cardoso, pai das crianças, andavam com “problemas na relação”, facto que a levou a sair da moradia, tipo quinta, que há pouco tempo tinham restaurado e onde viviam juntos – em Gondalães, Paredes –, para casa da mãe, um prédio a poucas centenas de metros, levando os dois filhos.
Ao receber a notícia da tragédia, o pai das crianças terá tentado pôr fim à vida, com comprimidos, adiantou ao CM um amigo de Francisco Cardoso, que pediu o anonimato.
O pároco da freguesia, Armando Neto, adiantou ao CM que o casal se tinha mudado para Gondalães há uns meses e que os meninos eram “amorosos”. “Chegaram a frequentar a catequese, mas nos últimos tempos deixaram de aparecer sem razão”, acrescentou.
CASAL ASSISTIU
Os corpos da mãe e dos dois filhos foram resgatados horas depois pelos Bombeiros de Entre-os-Rios. Os Sapadores do Porto ajudaram a retirar os corpos de dentro de água, tarefa dificultada pela profundidade a que se encontravam. Os miúdos ainda estavam vestidos com os pijamas e os roupões.
Os jovens Bruno Sousa e Elizabete assistiram à tragédia. Encontravam-se a namorar dentro do carro quando a situação aconteceu. “Um Clio vermelho, com o motor desligado, chamou-nos a atenção, pois durante 45 minutos esteve parado na rampa de acesso ao rio, mas nunca imaginámos que ia terminar como terminou”, explicou o casal de namorados. “Só nos apercebemos de que algo de grave se passava quando ouvimos os gritos das crianças e reparámos que metade do carro já estava dentro do rio”, acrescentou Bruno, que alertou o 112 para o que se passava no Cais do Torrão.
Em Gondalães onde o casal tinha a restaurada quinta – Quinta do Bairro –, as pessoas comentavam em surdina os acontecimentos da madrugada, atribuindo a responsabilidade aos problemas que alegadamente a atribulada relação que tinham atravessava.
“Nunca os ouvi discutir, mas sei que ela saiu de casa com os meninos e foi para casa da mãe”, comentou o vizinho José Luís Ferreira. O casal não se relacionava muito com a vizinhança, “eles entravam e saíam de casa, mas não se davam a conhecer”, disse José Luís. A família não frequentava os estabelecimentos comerciais da localidade.
Durante a tarde de ontem, a família Pinto e a família Cardoso reuniram-se nas respectivas casas, recusando-se a falar com os jornalistas. “Só me lembro do meu nome e já não sei mais nada”, atirou o cunhado de Maria do Rosário, antes de se retirar para dentro de casa.
Os residentes de Gondalães não se conformam com a atitude de Maria do Rosário. “Se ela se queria matar não precisava de levar os meninos com ela, matava-se sozinha.”
"MENINOS AMOROSOS"
Francisco Cardoso, o pai das crianças que morreram afogadas, é vendedor de automóveis na Toyota, em Paredes. Ontem de manhã, após saber da tragédia, terá tentado o suicídio. Ao certo, ninguém sabe das razões de desentendimento do casal, embora não falte quem avente eventuais infidelidades.
Antes de se mudarem para a imponente Quinta do Bairro, em Gondalães, moraram na Madalena, também em Paredes, perto do pai de Francisco. Maria do Rosário, de 35 anos, segundo um vizinho, já tinha sido casada com outra pessoa antes de ir viver com Francisco, de 40.
Os filhos de ambos, Catarina e António Manuel, são lembrados como “meninos amorosos e muito simpáticos”, apesar do pouco contacto. O vizinho José Ferreira relembra ainda a comunhão da pequena Catarina, há dois anos, na igreja de Gondalães. “Ela ia muito bonita”, disse.
APONTAMENTOS
FUNERAL
O funeral de Maria do Rosário e dos filhos vai realizar-se amanhã às 16h00 na Capela Mortuária de Castelões de Cepeda, em Paredes.
EMPREGO
Maria do Rosário trabalhava numa clínica ortopédica em Paredes. Antes tinha sido empregada num escritório de uma empresa que vendia material agrícola.
ESCOLA
Catarina Pinto Cardoso, a filha mais velha, estudava no 5.º ano da Escola EB 2-3 de Castelões de Castelões de Cepeda, na zona escolar do centro de Paredes. O irmão António também estudava na mesma zona escolar, mas na escola primária.
CORPOS
O corpo da menina foi o último a ser encontrado pelos bombeiros, pelas 07h00. As condições climatéricas e a falta de iluminação dificultaram as buscas.

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