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Correio da Manhã

Portugal
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AGREDIDA PELO COMPANHEIRO HÁ MAIS DE QUATRO ANOS

Uma mulher de 36 anos, residente em Camarate, Loures, está farta de tanta violência. Espancada há mais de quatro anos pelo companheiro, a vítima, operada anteontem à cara depois de mais uma agressão, já apresentou cinco queixas na PSP, mas que, até agora, não resultaram na detenção do indivíduo.
25 de Agosto de 2003 às 00:00
Maria de Fátima necessitou de ser operada à face, depois das agressões de que foi alvo pelo companheiro
Maria de Fátima necessitou de ser operada à face, depois das agressões de que foi alvo pelo companheiro FOTO: José Barradas
O corpo de Maria de Fátima Semedo não esconde o autêntico terror que foi para si o período de vivência em comum com Vítor. Um polegar partido pelo companheiro, nódoas negras em ambos os braços e costelas partidas são apenas alguns sinais de um físico que esconde uma mulher destroçada emocional e psicologicamente.
"Conheci o Vítor há pouco mais de quatro anos e no início fomos morar para a Quinta Grande, na Musgueira [Lisboa]. Logo aí, ele só soube vir com violência para o meu lado", recordou a natural de São Tomé e Príncipe, com a voz embargada pelas lágrimas.
Empregada de limpeza num restaurante, na zona de Sapadores, em Lisboa, Maria de Fátima contou, ao longo dos últimos quatro anos, com o apoio dos patrões, que a incentivaram a, após cada agressão, fazer queixa na Polícia. "Durante este tempo fiz cinco queixas-crime contra ele na Esquadra da PSP da Musgueira. Ele foi sempre identificado, mas nunca preso. E quando voltava, fazia sempre o mesmo", acrescentou.
'PARTIU-ME A CARA'
No sábado, a espiral de violência atingiu para Fátima um limite insuportável, que quase lhe ia custando a vida. Farta de tanto sofrer, a empregada anunciou ao companheiro, e ao casal Nixon e Domingas, que com eles partilhavam uma casa no Bairro do Grilo, em Camarate, que ia procurar outro sítio para viver.
Descontente com a decisão da companheira, Vítor aproveitou uma saída dos companheiros da casa de ambos para descarregar toda a sua fúria sobre ela. "Ele bateu-me ao murro e ao pontapé, na cara e no corpo, e até me chegou a bater com a porta. Partiu-me a cara", explicou, nervosa, Maria de Fátima.
Depois de o companheiro sair de casa, a são-tomense deslocou-se, pelo seu próprio pé, ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa. O estado grave em que se apresentou, com um hematoma no olho esquerdo, obrigou a realizar uma intervenção cirúrgica à face.
Só na manhã de ontem é que Maria de Fátima saiu do hospital, decidindo-se, mesmo apesar do perigo, a voltar para casa, onde o marido podia voltar a qualquer momento. "Vou continuar aqui, custe o que custar", garantiu, veemente.
'O CASO VAI PARA TRIBUNAL'
O futuro próximo para Maria de Fátima Semedo é bastante claro. "Não vou deixar que o caso morra", garante a são-tomense, de 36 anos. Ao fim de quatro anos a sofrer na pele a violência do companheiro, a empregada de limpeza assegura que, ainda durante o dia de hoje, se vai deslocar ao Tribunal de Loures, para tentar dar andamento ao processo-crime contra Vítor, o agora seu "ex-companheiro".
"A conselho da Polícia vou fazer aquilo que já devia ter feito há muito tempo. Quero que isto acabe depressa", expressou, ainda a custo, devido às dores da operação a que havia sido sujeita, poucas horas antes de receber a reportagem do CM.
No entanto, as más recordações de quatro anos consecutivos de agressões e violência são difíceis de apagar de um momento para o outro. Para além das sevícias físicas a que foi sujeita, Maria de Fátima garante, mostrando como prova um documento de uma loja de penhores, que chegou mesmo a ser vítima de furto por parte do ex-companheiro. "Há algum tempo atrás ele roubou-me, sem eu saber, vários artigos de ouro que guardava em casa. Depois disso foi a uma loja de penhores e conseguiu em troca quase 400 euros. Não sei o que ele fez com esse dinheiro", esclarece. A firmeza de ideias de Maria de Fátima continua, quando questionada sobre o paradeiro do companheiro. "Acho que ele está com os pais, mas já não quero saber disso", conclui, decidida.
EXEMPLOS DE DESESPERO
FERNANDA
Mãe de seis filhos, Fernanda Ascensão nunca conseguiu que as autoridades fizessem algo por ela e pelas crianças. O indivíduo agredia a jovem, de 25 anos, residente em Castelo Branco, e os filhos. A vítima espera agora que as autoridades possam colocar os filhos num colégio.
SUSANA
O dia 21 de Junho de 2001 ficou marcado a negro na vida de Susana Catarina. Após várias ameaças, quando chegava a casa, em Viseu, a jovem viu o ex-namorado atirar-lhe para a cara ácido sulfúrico, crime pelo qual viria a ser condenado a 10 anos de cadeia.
ESMERALDA
Cega parcial, Esmeralda Cavaco, residente em Vale Couvo, no concelho de Loulé, foi confrontada, na tarde de 17 de Agosto, com um acto inesperado do próprio pai. O idoso, de 69 anos, matou a tiro o marido de Esmeralda, consumando as ameças de morte.
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