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Correio da Manhã

Portugal
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AGRICULTOR VIVE NOS ESCOMBROS DE UMA QUINTA

"Não saio daqui porque não posso abandonar o chibo (bode), nem as minhas coisas", afirma Manuel dos Santos, um agricultor da Guarda que desde o início de Agosto vive nos escombros de uma quinta consumida pelo fogo.
11 de Setembro de 2003 às 00:00
Manuel dos Santos vive nas ruínas de uma casa destruída pelo fogo
Manuel dos Santos vive nas ruínas de uma casa destruída pelo fogo FOTO: Sá Rodrigues
O homem, de 58 anos, viúvo, mora sozinho na Quinta do Barrocão, próximo de Monte Brás, na freguesia de Marmeleiro, numa casa destruída por um incêndio no dia 7 do mês passado, propriedade de um irmão.
Desde então, a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia e a Assistência Social têm ajudado e procurado demover Manuel dos Santos, mas o agricultor afirma que apenas sai se arranjarem a sua casa, que está em ruínas.
"Vem cá todos os dias uma menina, por volta do meio-dia, trazer-me o comer. A comida é muita, o farnel é avantajado, dá para o dia todo", afirma, adiantando que só sai da quinta para a sua “casinha da Aldeia de Santa Madalena que está toda caída (em ruínas)". A Câmara Municipal tenciona fazer, com rapidez, obras nesta casa. Manuel dos Santos sempre disse, depois do incêndio, que não abandonava a habitação da quinta, onde vivia há quatro anos e agora passa os dias com um bode, a sua "única companhia", entre quatro paredes e escombros.
A casa não tem energia eléctrica, pois o fogo destruiu os painéis solares que produziam a electricidade e o agricultor faz a vida num pequeno cubículo, que, por ter placa, resistiu melhor às chamas, embora o telhado tinha ficado destruído.
A "porta" do espaço é um latão que encontrou "no meio do pinhal" e o tecto uma placa de cimento: "Quando chover não sei como vai ser, porque a água que já caiu entrou aqui toda e até tive que abrir um guarda-chuva", afirma.
O rosto, as mãos e a roupa pintados de negro revelam a falta de higiene e as más condições em que vive Manuel dos Santos, que desconhece o que lhe reserva o futuro: “Já fui visitado por duas meninas da Segurança Social, mas não sei se vou receber alguma ajuda, pois a casa pertence ao meu irmão”.
Quanto a sair da quinta, por exemplo para uma instituição de solidariedade social, como lhe propuseram os técnicos de apoio social da Câmara, “nem pensar”. Face à recusa do homem, a Junta de Freguesia intercedeu junto do Centro de Dia da aldeia para lhe fornecer as refeições.
Manuel dos Santos não tem filhos e teima em fazer a vida nos escombros da casa que o fogo destruiu "num dia em que o diabo andava à solta", deixando-o apenas com a roupa que trazia no corpo.
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