Na origem do excesso de alumínio detectado na albufeira de Monte Novo, em Évora – que levou ao corte de água, originando o caos, com milhares de pessoas a correrem para as fontes e hipermercados para se abastecerem –, pode ter estado o tratamento a que água, turva na sequência das enxurradas, foi sujeita. Designado de coagulação-floculação, este processo implica a aplicação de sulfato de alumínio, que cria flocos posteriormente filtrados.
Dado que em nenhuma outra albufeira do País se registou idêntica situação, no Ministério do Ambiente ganhava ontem força a ideia de que na origem do problema estava o tratamento da água e não a albufeira, hipótese igualmente considerada "a mais provável" pelo dirigente da Quercus, Francisco Ferreira.
Sem pinga de água nas torneiras durante 22 horas, os cerca de 60 mil habitantes afectados pelo corte esgotaram logo de manhã a água engarrafada nas superfícies comerciais. Muitos eborenses, ainda recordados do ano de 1993, em que 25 doentes renais morreram com altos teores de alumínio no sangue devido aos tratamentos com água da rede de Évora, tiveram de formar filas de espera por nova reposição de stock.
O corte no abastecimento deu-se às 23h00 de terça-feira devido à acumulação excessiva de iões metálicos detectados no momento da captura, na barragem do Monte Novo, que abastece o concelho.
A Comissão Municipal de Protecção Civil de Évora atribuiu o aumento de metais ao facto de a albufeira ter enchido mais nos últimos dias do que no último ano, admitindo que as enxurradas tivessem levantado sedimentos nocivos.
Responsáveis das Águas do Centro Alentejo referiram que a decisão de cortar a água foi tomada quando os valores de alumínio atingiram 200 microgramas por litro.
"Podemos garantir que não chegou às torneiras água com valores em excesso. A monitorização aconteceu na altura da captação", garantiu Artur Magalhães, das Águas do Centro Alentejo.
A água regressou por volta das 21h00, mas o autarca local, José Ernesto d’ Oliveira, avisou que se os níveis de qualidade piorarem haverá" novo corte" sem aviso prévio.
DISCURSO DIRECTO
"RESPEITO POR PARÂMETROS": Orlando Borges, Presidente Instituto da Água
Correio da Manhã – Pode, na sequência das chuvadas recentes, uma situação semelhante à que se verificou em Évora vir a afectar outras albufeiras em que se faz captação de água para consumo humano?
Orlando Borges – Esta foi uma situação pontual e única e resolvida de imediato.
– Qual é neste momento o ponto da situação relativo à qualidade da água na generalidade das albufeiras?
– As águas das albufeiras são constantemente monitorizadas e respeitam os parâmetros dos directivas comunitárias.
QUALIDADE DA ÁGUA PARA CONSUMO HUMANO TEM MELHORADO
Os relatórios anuais de controlo da qualidade da água para consumo humano têm dado conta de uma evolução qualitativa ao longo das últimas duas décadas em Portugal. O mais recente, publicado no fim do ano passado e relativo ao anterior, da responsabilidade da Entidade Reguladora da Água e dos Resíduos, apontava para apenas 2,4 por cento de situações de incumprimento dos valores paramétricos exigidos para múltiplas substâncias. Tais situações de incumprimento diziam principalmente respeito à presença de arsénio, ferro, manganês, bactérias coliformese enterococos, o que já se verificara em 2007. Na ocasião, o Ministério do Ambiente fez saber que, para um controlo mais eficaz, os incumprimentos seriam obrigatoriamente reportados ao então Instituto Regulador da Água e dos Resíduos e à autoridade de Saúde, no prazo máximo de 24 horas.
COMPORTAS ESTÃO AVARIADAS
A barragem do Arade, no concelho de Silves, tem as comportas de superfície avariadas há cerca de dez anos. Para salvaguardar um eventual problema, a albufeira tem de ser mantida a uma cota inferior ao que seria normal, dado que a capacidade de escoamento das comportas de fundo é baixa.
"Perdemos alguma capacidade de armazenamento de água. A barragem tem uma capacidade máxima utilizável de 24 milhões de metros cúbicos e só está a reter 18 milhões, de forma a permitir um encaixe de seis milhões em situação de emergência", explicou ao CM José Vilarinho, presidente da Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão, adiantando que compete ao Instituto da Água (INAG) a solução do caso e que este está avisado. Segundo este responsável, a reparação custa "uns 250 mil euros".
A presidente da autarquia silvense, Isabel Soares, mostra "preocupação", lembrando que "já fez, ao longo do tempo, várias alertas às entidades responsáveis". Recentemente até foram efectuadas obras na barragem, mas as comportas ficaram por arranjar.
Contactado pelo CM, o Ministério do Ambiente, que tutela o INAG, deu a garantia de que não existem riscos em termos de segurança. Quanto ao arranjo, o INAG entende que o mesmo compete à Associação de Regantes, que "é quem gere a barragem".
DEPOIMENTOS
"Já corri durante a manhã quatro hipermercados na cidade e não encontrei um único garrafão de água ou uma garrafa, mesmo das pequenas. Como estou sem água potável desde madrugada vou ter de esperar pela reposição dos stocks para me abastecer.": António Vila Viçosa 83 anos
"Quando abrimos a pizaria não havia água nas torneiras, mas conseguimos mantero normal funcionamento. Para as limpezas e lavaras casas de banho estou a encher baldes com a água da chuva que cai dos beirados do toldo. Com esta chuva enchem-se depressa.": Luís Guedes 38 anos
DISCURSO DIRECTO
"É PRECISO RENTABILIZAR ÁGUA SUBTERRÂNEA": Francisco Ferreira, Dirigente da Quercus sobre o que originou contaminação da água da albufeira de Monte Novo
Correio da Manhã – Parece-lhe provável que as enxurradas tenham originado a contaminação com metais da água da albufeira de Monte Novo?
Francisco Ferreira – Há informações contraditórias; a origem dos sedimentos não foi bem explicada. Há quem diga que os metais foram originados nos sedimentos da albufeira, mas o mais provável é que a precipitação tenha levado à forte turvação da água e, em tais circunstâncias, aplica-se um processo de tratamento, floculação da água, com recurso a sulfato de alumínio. A água extremamente barrenta obriga a uso muito intenso de sulfato de alumínio.
– Não há alternativa?
A água captada em aquíferos subterrâneos não exige este tipo de tratamento. Mais de metade da área era, há dez anos, de origem subterrânea. Actualmente, por razões económicas e de segurança de abastecimento, a maior parte da água é superficial, o que faz com que situações como esta sejam de mais difícil gestão.
– Situações como esta podem repetir-se no futuro?
Terão tendência a repetir-se em virtude das alterações climáticas, que implicam maior frequência de fenómenos climáticos extremos, nomeadamente chuvadas intensas e contínuas. É um aviso quando o Governo se prepara para debater a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas.
– O que pode fazer-se para prevenir a contaminação da água na sequência de tais episódios climáticos extremos?
– Nestes dias de temporal bastava olhar para a beira da estrada e ver a água a correr com a força que corria. Há pequenas obras – naturalizadas, sem betão –, que devem ser feitas para promover a infiltração. É preciso aprender com os erros para melhorar em termos de gestão de bacias hidrográficas. Temos de preparar-nos para este tipo de eventos e uma maneira de fazê-lo é reabilitando o uso da água subterrânea.
NOTAS
ALQUEVA: QUASE CHEIA
O nível de armazenamento de água na barragem de Alqueva atingiu ontem a cota 151,61, a 39centímetros da cota máxima (152). O volume de água está a ser gerido na produção de energia
BOMBEIROS: DIVOR ABASTECE
Por ordem do delegado de saúde de Évora, os bombeiros recorreram à rede da freguesia de Divor (captação própria) para encher os auto-tanques. A água serviu hospitais, clínicas e lares
MONTE NOVO: SAÍDAS DA REDE
Os concelhos de Reguengos de Monsaraze Mourão podiam também ter ficado sem água. Há dois dias que não abastecem no Monte Novo, recorrendo à albufeira da Vigia, Redondo
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