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Correio da Manhã

Portugal
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AJUDAS DE LEITE SABEM A POUCO

A distribuição de água, leite e sumos às vítimas dos incêndios de Póvoa da Ribeira, freguesia de Vilar Barroco, Oleiros, está a decepcionar a população, que se queixa de ter perdido tudo e não ter nada para comer.
7 de Setembro de 2003 às 00:00
A população reclama da pouca ajuda que está a receber
A população reclama da pouca ajuda que está a receber FOTO: Lídia Barata
"Água, tenho cá muita e boa, precisava era de arroz, massa, óleo e coisas assim para comer, porque sou muito doente e fiquei sem nada", disse Deolinda Gaspar, de 68 anos, que só num pinhal teve 50 mil euros de prejuízo.
Os três garrafões de água, três litros de leite e um sumo que deixaram em casa da idosa é "uma ajuda que sabe a pouco". Apesar disso, não se arrepende da ajuda que prestou durante os incêndios.
"Fiz tudo o que podia aos bombeiros e a quem aqui esteve. Gastei um presunto, quatro queijos, seis pães, dei-lhes sempre de comer, fiz tudo o que podia e agora ninguém me ajuda", disse Deolinda Gaspar, comovendo-se ainda com as más lembranças deixadas pelas chamas devastadoras.
"Isto é uma miséria. O meu marido trabalhou 20 anos na França, investiu tudo em pinhal e agora não temos nada, nem dinheiro, nem pinheiros, para além das oliveiras, vinha e da horta", lamentou.
Júlio Reis, de 68 anos, também recebeu água mas não a aceitou: "Para que é que eu queria a água, se a tenho aqui tão boa? Só aceitei o leite porque vinha a minha filha e podia ser que ela o bebesse, porque eu não o bebo. Para beber não me interessa nada, deviam era trazer-me coisas para comer".
E o mesmo se passou com Manuel Carvalho, de 79 anos, que recebeu uma garrafa de água e dois litros de leite, que "ainda estão onde os puseram. Nem lhes toquei, porque a água que temos aqui é melhor e leite não bebo.
O idoso afirma precisar de "ajuda para recuperar a floresta. Para comer ainda tenho, mas nem telefones há para acedermos às ajudas".
Manuel Carvalho ainda sente demasiado as perdas, porque foi "o trabalho de uma vida inteira, com grande sacrifício" e agora "nem há quem compre a madeira queimada. Gastei 1500 contos em limpeza para me arder tudo, só fiquei com isto ao pé da porta".
José Roque, presidente da Junta de Freguesia de Vilar Barroco, afirma que "há muita coisa para distribuir", mas as pessoas têm dificuldade em se deslocar ao pavilhão onde estão as dádivas".
Todas as dádivas - alimentos, roupas e sapatos - estão num pavilhão com 800 metros quadrados, à disposição das pessoas que podem "escolher à-vontade".
"Seria muito complicado carregar camiões de roupa e distribuir", disse o vereador Vitor Antunes, adiantando que as pessoas que tiverem dificuldades de transporte podem usar os camiões que o Exército disponibilizou.
FAMÍLIA VIVE EM GARAGEM
A Câmara Municipal de Oleiros disponibilizou quatro equipas de técnicos, que já estão no 'terreno' a fazer um levantamento de todos os edifícios atingidos pelos incêndios, de acordo com as directivas da Secretaria de Estado da Administração Local.
A autarquia tem ainda por resolver duas situações de realojamento: uma família que está numa garagem, própria, mas que será uma situação temporária, e uma segunda família que está na residência de estudantes, mas que, com o início das aulas, terá de ser encontrado um novo espaço para se instalarem.
As pessoas que precisem de ajuda devem dirigir-se às juntas de freguesia da área da sua residência, disse o vereador Vítor Antunes, adiantando que "os presidentes das juntas têm toda a informação para as populações".
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