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Correio da Manhã

Portugal
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ALENTEJO E ALGARVE SEM NEUROCIRURGIÕES

Um traumatismo craniano ou um problema neurológico, resultantes de uma simples queda ou de um acidente rodovidário tem mais hipótese de ser fatal se suceder no Algarve. É que o único hospital da região Sul do País que assegura as urgências em neurocirurgia é o de Faro e apenas durante 12 horas uma vez por semana.
28 de Agosto de 2004 às 00:00
Consequências? Nos restantes dias, os doentes urgentes têm de ser transferidos para Lisboa e alguns não chegam a tempo.
“Houve uma noite em que recebemos dois doentes vítimas de acidente de viação, um com 21 anos. Ambos apresentavam um hematoma epidural, provocado por traumatismo craniano. Vieram transferidos do hospital de Faro, mas quando chegaram de ambulância a S. José já vinham em morte cerebral”, denuncia ao CM o neurocirurgião Coriolano Magalhães. Os dois doentes não foram operados porque, continua o especialista, a “cirurgia não iria alterar o desfecho fatal”.
Quando ocorre uma situação grave como esta, em que o doente sofre um traumatismo cranioencefálico, o seu socorro é uma corrida contra o tempo. Cada minuto é vital para a sua sobrevivência e para evitar que sofra sequelas irreversíveis que podem comprometer a sua qualidade de vida, no caso de resistir.
Segundo o neurocirurgião, dificilmente um doente consegue ser operado, em Lisboa, antes de seis a sete horas desde que sofreu o acidente no Algarve. Isto porque uma ambulância que faça o percurso entre Faro e a capital, a 300 quilómetros de distância, mesmo a exceder os limites de velocidade, leva cerca de duas horas e meia a chegar. A isto somam-se os procedimentos necessários para que o doente entre no bloco operatório, que incluem a realização de exames complementares e preparação da equipa médica para o acompanhar
URGÊNCIAS SÓ ÀS QUARTAS
O hospital de Faro tem características de um hospital central mas só tem no seu quadro clínico dois neurocirurgiões. Um deles tem mais de 55 anos e, por lei, está dispensado de fazer serviço de urgência (SU). A outra médica, faz urgências às quartas-feiras, das 9h00 às 21h00: as 12 horas por semana que a lei obriga.
O Algarve tem outro hospital, em Portimão, mas este não tem neurocirurgia, apenas neurologia. Quando há um doente com problemas graves é transferido para Lisboa, pois ali já sabem que o de Faro não tem capacidade.
“Por que é que o Algarve, que tem a estrada nacional 125 com um elevado índice de sinistralidade, não tem um serviço de neurocirurgia capaz de responder às necessidades?”, questiona Coriolano Magalhães. Que inclusive lembra que também por falta de mais ventiladores se tranferem doentes do Sul para os hospitais da capital.
A necessidade de uma cobertura médica para os doentes com traumatismo craniano está justificada com a dimensão populacional: 400 mil residentes no Algarve, com uma população flutuante que chega às 500 mil pessoas durante o ano e no Verão atinge os 1,2 milhões de indivíduos.
Contudo, outras regiões do País dispõem desta valência e têm uma menor cobertura demográfica. Além dos serviços de neurocirurgia existentes em Lisboa, Porto e Coimbra foram criados novos serviços que asseguram, 24 horas por dia, as seguintes populações: Almada (160 mil habitantes), Matosinhos (170 mil), Madeira (254 mil), Açores (238 mil), Gaia (300 mil), Viseu (395 mil) e Braga (830 mil).
PROBLEMA ARRASTA-SE
O hospital de Faro tem 7 lugares para a neurocirurgia, mas apenas 2 vagas estão preenchidas. “Temos falta de neurocirurgiões, mas o Ministério não abre concurso para o preenchimento das cinco vagas”, admite ao CM Barreiros Maymone, director do serviço de neurocirurgia, que gostaria de ter no quadro mais especialistas.
Já no segundo trimestre deste ano o CM confrontou a Administração Regional de Saúde do Algarve sobre esta carência de meios. Na altura, o organismo remeteu uma explicação para a administração do Hospital de Faro. O presidente do CA do hospital, Gonçalves Júnior, admitiu a carência de especialistas e afirmou desconhecer que “tenha havido alguma proposta de médicos interessados em trabalhar no hospital”, justificando esse desconhecimento com o facto de ter assumido funções em Fevereiro.
“O Hospital de Faro é um hospital de referência e se tivessemos todas as vagas preenchidas seria o ideal”, respondeu. O certo é que nada mudou desde então.
Solicitado a explicar a razão por que não são abertas vagas para a neurocirurgia, o Ministério da Saúde respondeu ontem que não tem uma justificação oficial.
Coriolano Magalhães é um dos neurocirurgiões que já manifestou interesse em trabalhar naquele hospital. “Não foi ainda aberto concurso para o preenchimento das vagas. Assim dou apoio no plano de Verão”, disse o especialista.
CRONOLOGIA DO SERVIÇO
12 ANOS
O Serviço de Neurocirurgia no Hospital Distrital de Faro foi criado há 12 anos, em 1992. Durante uma década exerceu clínica apenas um único especialista.
REFORÇO
Um segundo neurocirurgião entrou nos quadros clínicos do estabelecimento de saúde do Algarve há “dois ou três anos” e mantém-se o mesmo número de clínicos.
POLÍTICAS
A falta de neurocirurgiões no Algarve deve-se “por razões políticas”, criticam os especialistas. 5 lugares estão por preencher porque Governo não abre concursos.
BOA VONTADE SUSTENTA PLANO DE VERÃO
Para colmatar a falta de neurocirurgiões no Hospital Distrital de Faro, em especial neste período de Verão – altura em que aumenta a população, de turistas nacionais e estrangeiros –, foi criado há alguns anos o chamado Plano de Verão. Este plano prevê o reforço de especialistas que são dispensados dos hospitais onde trabalham, para assegurar o período de 15 de Junho a 15 de Setembro. Coriolano Magalhães é um dos dois especialistas que neste momento ali trabalha, por um mês, em regime de prevenção à Urgência. A segunda médica, vinda do hospital de Braga, iniciou funções na última quarta-feira.
Os dois especialistas substituem a neurocirurgiã “residente”, que se encontra de férias, ou seja, asseguram as urgências 24 horas por dia, estando de prevenção em casa. “Já estiveram cá dois colegas de Coimbra e um outro de Viseu, mas houve períodos, de Junho até agora, em que não houve cobertura de neurocirurgia na Urgência”, afirma o clínico. O director daquele serviço, Barreiros Maymone, diz que “neste momento as Urgências estão asseguradas graças ao bom ambiente entre colegas”.
Esse “bom ambiente” permite que sejam efectuadas cirurgias programadas, que estão para além da prevenção à urgência. “É o caso de um doente que foi operado esta semana a um tumor intracerebral”, disse o director de neurocirurgia, que afirma desconhecer em concreto o número de doentes que se encontra em lista de espera para a neurocirurgia. “São umas centenas”, avança.
Este responsável clínico admite que haja doentes daquele hospital que são transferidos para Lisboa, mas “por falta de ventiladores e não por falta de especialistas”. “Por vezes acontece que todos os ventiladores estão ocupados”, constata. A Unidade de Cuidados Intensivos dispõe de nove ventiladores para adultos e dois para jovens até aos 15 anos.
TESTEMUNHOS
“OPERADA DEVIDO A UM ANEURISMA"
“Durante 9 anos sofri de dores de cabeça terríveis. Diziam-me que eram enxaquecas, mas nunca me fizeram exames no hospital de Faro para saber do meu mal. Na tarde do dia 18 de Março de 1997 levaram-me para as Urgências daquele hospital. Tinha desmaiado. Mal conseguia falar. Uma médica que me assistiu falou para outra que eu estava bêbada. Não me esqueci. Mas nesse mesmo dia transferiram-me para o hospital de S. José, em Lisboa. Não explicaram porquê, falaram em fazer exames médicos. Ouvi um enfermeiro dizer que era o melhor para mim. Operaram-me a um aneurisma. Foi há 7 anos. (Teresa Mendes - 45 anos)
"TRATARAM-ME COMO UM CÃO"
Tenho algumas queixas sobre a forma como me trataram no Hospital de Faro. Tenho uma hérnia cervical que me provocou dores horríveis que me paralisavam e mandavam para uma cadeira de rodas, não conseguia andar. Nessas crises, um dos médicos disse-me que eu sofria de tuberculose óssea, mas não me fez quaisquer exames clínicos. Trataram-me como se faz aos cãos, puseram-me num canto. Ao fim de algum tempo, as dores passavam e mandavam-me para casa. Numa ida a Lisboa e tive uma crise. Fui parar a S. José. Operaram-me à coluna e hoje estou bem. (Maria João Vieira - 52 anos)
QUEDA FATAL PARA O CICLISTA JOAQUIM AGOSTINHO
Há 20 anos, o ciclista campeão nacional Joaquim Agostinho não resistiu a um hematoma epidural resultante de um traumatismo craniano, provocado por uma queda de bicicleta durante a Volta a Portugal, a 30 de Abril. Tinha acabado de cortar a meta, na Quarteira, quando um cão se atravessou à sua frente.
Os médicos fizeram tudo o que estava ao seu alcance, mas a morte fica na memória dos portugueses como um exemplo da falta de meios técnicos e humanos na assistência aos sinistrados no Algarve. Importa agora perceber se alguma coisa mudou nestes últimos 20 anos, ou se a falta de meios se mantém.
Joaquim Agostinho foi várias vezes campeão nacional da Volta a Portugal em bicicleta, foi figura de relevo no Tour de França e morreu há duas décadas, em Maio de 1984, com um traumatismo craniano. Após a queda de bicicleta, colocou-se a suspeita de um hematoma intracraniano. Para desespero das testemunhas, os socorros tardaram em aparecer e os meios aéreos na assistência a sinistrados não existiam à data.
Joaquim Agostinho foi transportado de ambulância do Algarve para Lisboa, numa estrada de má memória e o tempo do percurso foi suficiente para que o hematoma lhe provocasse morte cerebral. A cirurgia efectuada por uma equipa de neurocirurgiões não evitou o desfecho fatal já previsível no pré-operatório. Ao fim de 10 dias em coma, Agostinho não resistiu à luta contra a morte e o País perdia uma figura lendária do ciclismo português.
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