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Correio da Manhã

Portugal
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Alérgicos à civilização

Em Portugal a renite alérgica “assume números superiores à asma”, sendo que existem “600 mil portugueses asmáticos e mais de 1,2 milhões com renites”. As declarações são de António Segorbe Luís, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), e foram avançadas a propósito do 20.º Congresso de Pneumologia, que terminou ontem na Figueira da Foz.
12 de Dezembro de 2004 às 00:00
Privar as crianças do contacto com animais é um dos muitos erros
Privar as crianças do contacto com animais é um dos muitos erros FOTO: Jorge Paula
O especialista elenca como principais causadores das alergias dos portugueses os ácaros, os pólens, a sensibilidade a pêlos de animais e às baratas. Existe presentemente “uma certa tendência generalizada para considerar a renite uma patologia menor, sem importância” mas que contudo “acarreta custos elevados em termos pessoais, sócio-familiares e profissionais”, diz Segorbe Luís. Daí que a nova classificação da patologia “não se baseia nas causas, mas no grau de repercussão na qualidade de vida” dos portugueses.
O avanço e progresso civilizacionais são apontados como as causas mais prováveis para o aumento das alergias respiratórias. As crianças e jovens, que crescem num mundo em que os antibióticos e as vacinas aumentam, a par de uma diminuição de eventuais contactos alérgicos, estão a crescer com menos defesas, aumentando assim as alergias.
A resposta imunitária humana, orientada principalmente nas defesas antimicrobianas, “diminuiu com a evolução da sociedade”. É que hoje em dia vacina-se mais, há menos infecções e mais antibióticos, a comida tem uma componente microbiológica diferente e convive-se menos com animais.
Este conjunto de ocorrências “que sustentam a teoria higienista” prova que “as alergias têm vindo a aumentar dada a progressão dos cuidados higiénicos, na população e em geral e nos mais novos”, defende António Segourbe Luís.
PAIS FUMAM E FILHOS É QUE SOFREM
António Segorbe Luís, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) não tem dúvidas que o grande mal são as actuais condições de vida, sendo que em muitos lares existem pais fumadores (logo, crianças fumadoras passivas), e uma maior densidade populacional (apartamentos exíguos), com o inevitável aumento de tapetes, cobertores, edredões, tudo meios férteis para o desenvolvimento de ácaros.
O teor de ácaros nos lares “está relacionado com o grau de sensibilização das crianças que vivem nessas casas”, acrescendo-se o senão de, no caso de pais fumadores, “os miúdos passam a sofrer mais de otite média, infecções das vias áreas superiores, mais alergias, mais asma”. Razão pela qual o presidente da SPP afirma que “os nossos jovens estão claramente a contrair mais alergias”. Segorbe Luís concluiu com a explicação de que “o que desenvolvia o controlo das alergias eram as respostas antimicrobianas e virais, que se têm vindo a perder” com a civilização.
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