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Correio da Manhã

Portugal

ALGO NA FEIRA CHEIRA MAL

Os moradores do largo Vasco da Gama, na Costa de Caparica, já não aguentam a falta de higiene e os distúrbios que ocorrem numa feira que se realiza diariamente mesmo em frente aos seus prédios. A Junta de Freguesia da Costa de Caparica admite que a feira como está não pode continuar, mas a situação há muito que se arrasta.
28 de Agosto de 2004 às 00:00
“O que sentimos aqui é a enorme porcaria de que o largo se encontra atulhado. Quando termina a feira, chega a haver dejectos à volta dos prédios”, queixa-se Hélder Santos, que mora mesmo em frente ao mercado ambulante. “As brigas entre os feirantes são frequentes, com cenas de violência e pedras que são arremessadas e podem atingir qualquer um que vá a passar”, conta ao CM. Resumindo, “isto é uma situação abaixo de Terceiro Mundo”.
João José Marques é titular de uma bancada na feira, onde ganha a vida com a sua mulher a vender caracóis e frutos secos. Para ele, o estado calamitoso em que o comércio se realiza naquele espaço é culpa dos comerciantes ciganos. João dos Caracóis, como é mais conhecido, diz já ter sido vítima de vários crimes. “Já agrediram a minha mulher, que foi parar ao hospital, estão constantemente a roubar-me os caracóis e a semana passada assaltaram a minha carrinha de onde levaram uma carteira com 200 contos”, contou, acusando também os ciganos de acções de intimidação para ocuparem os melhores espaços nas bancadas da feira. “Ou fazemos o que eles querem ou sofremos as agressões.”
O CM ouviu também alguns ciganos que fazem negócio no local. Um deles, de cerca de 40 anos, que não se quis identificar com medo de retaliações das autoridades, nega que tenha havido grandes distúrbios. “Não há aqui nada disso. O que existe, por vezes, é alguma discussão de boca, mas aqui nem há tiros como acontece noutras feiras. O que há para aí é muito racismo”, afirma, responsabilizando os outros feirantes pelos citados esporádicos desacatos.
Até ao fecho desta edição, não foi possível contactar algum responsável na Câmara de Almada que se mostrasse disponível para comentar a situação.
ENTRE COCÓS E FACADAS - SITUAÇÃO ARRASTA-SE HÁ ANOS
O largo Vasco da Gama, na Costa de Caparica é, há vários anos, palco de um mercado ambulante que diariamente ocupa um espaço privilegiado, de frente para o mar. Ao fim do dia, aquele que é o principal acesso à praia está transformado num amontoado de lixo, dejectos e maus cheiros. Os moradores da zona queixam-se das condições de higiene e da falta de segurança causada pelos constantes conflitos entre os feirantes, que por vezes culminam em actos violentos.
Para pôr cobro à situação, a Junta de Freguesia local propôs à Câmara de Almada a trasladação da feira para um outro lugar, mais distante da praia, onde só seriam admitidos os feirantes licenciados. A junta espera agora até ao final do mês a autorização oficial da autarquia para proceder à mudança. “O problema não está no local. Isso é só mudar a doença para outro lado, mas o cancro continua”, considera o feirante João José Marques, o João dos Caracóis.
"COMO ESTÁ NÃO PODE CONTINUAR"
António Neves, presidente da junta da Costa de Caparica
Correio da Manhã – Quais são os principais problemas da feira ambulante?
António Neves – Não tem condições de saúde pública nem de segurança. Aquilo como está não pode continuar.
Os feirantes costumam portar-se mal?
Há feirantes que não pagam para estar ali, nomeadamente os de etnia cigana, outros cujas licenças já expiraram. Há cenas de pancadaria com frequência. Só a polícia é que consegue pôr cobro àquilo. Além disso, fazem necessidades na via pública.
O que é que falta para começarem a fazer a feira noutro sítio?
Há seis anos que andamos a lutar contra aquilo. Propusemos um novo espaço com condições e já temos autorização verbal do vereador para avançar. Estamos só à espera da ordem oficial. Esperamos que isso aconteça até ao fim do mês.
Isso vai resolver a situação, ou é apenas a transferência do problema?
Pelo menos, no novo espaço, os feirantes ilegais não vão ter lugar. A tendência desse tipo de comércio ilícito é para acabar e não para aumentar.
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