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Correio da Manhã

Portugal

Almoço de Páscoa reúne sem-abrigo e idosos sós

Um almoço de Páscoa juntou ontem mais de três centenas de pessoas, entre sem-abrigo e idosos solitários, nas instalações da Voz do Operário, junto à Graça, em Lisboa.
9 de Abril de 2007 às 00:00
Iniciativa da associação NOUNI , organização vocacionada para a imigração, o almoço faz parte do projecto ‘Por uma Lisboa Mais Solidária’.
Tratando-se a NOUNI de uma instituição particular de solidariedade social (IPSS), o almoço contou com o apoio de restaurantes, como Martinho da Arcada, Brasileira e Pizzaria do Pantaleone, assim como de outras empresas.
EMENTA VARIADA
Da ementa, e além das entradas de Leitão de Negrais e pizza e das sobremesas (fruta e bolos), fizeram parte pratos representativos de variadas gastronomias: moamba de galinha (Angola), cachupa (Cabo Verde) e bacalhau com natas (Portugal). Como bebidas: água, vinho ou sumo.
A ideia foi a de, como explicou ao CM o presidente da NOUNI, Agostinho Rodrigues, “juntar pessoas de diferentes culturas”, dos imigrantes africanos aos do Leste europeu, passando pelos sem-abrigo e pelos idosos solitários.
DIVULGAÇÃO PRÉVIA
Para que os potenciais convivas não ficassem esquecidos houve, como disse o director da NOUNI, Jerónimo David, um “trabalho de divulgação” nos postos nocturnos de distribuição de comida e nas juntas de freguesia.
Agostinho Rodrigues admite que “a ideia inicial era organizar dez almoços noutras tantas paróquias”.
Mas como a Voz do Operário cedeu as instalações foi decidido confinar o almoço e festa (música ambiente e actuação ao vivo) num só espaço.
Os mais aptos deslocaram-se pelos próprios meios. Para quem não o conseguisse, a organização disponibilizou carrinhas para o transporte de e para locais da cidade previamente definidos.
"NÓS "UNIDOS EM CRIOULO
Nascida no Gabinete para a Imigração dos Trabalhadores Sociais-Democratas (TSD), a NOUNI (“Nós Unidos” em crioulo) – é hoje uma Organização Não Governamental reconhecida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Vocacionada para os filhos de imigrantes de segunda geração que “não se sentem portugueses nem têm país de origem”, como explica Agostinho Rodrigues, presidente da associação, a NOUNI tem em mãos o projecto Lisboa mais Solidária, dirigido aos sem-abrigo e aos idosos. É nesse sentido que se integra o almoço que ontem reuniu cerca de três centenas de convivas entre idosos e sem-abrigo de vários pontos de Lisboa, nas instalações da Voz do Operário.
NA PRIMEIRA PESSOA
"AJUDA DEVE SER ANTES DA QUEDA" (Hafid Bousmina, 36 anos)
Afirmando-se estudante “dos sem-abrigo”, Hafid nota que em Portugal “a maioria dos excluídos são nacionais”. Na sua opinião, “a sociedade deve evitar a queda e não ajudar depois”.
NEM UM TELEFONEMA DOS FILHOS E DOS NETOS (Florinda Jesus, 80 anos)
Frequentadora do Centro Social no Campo Grande, Florinda elogia a iniciativa, sem a qual “ficava em casa”. Notando que a “solidão faz-se sentir mais” nos dias de festa, lamenta a falta de, pelo menos, um telefonema dos filhos e netos.
"PIOR SÃO OS PATRÕES" (Valery G., 63 anos)
Para o ucraniano Valery o pior no País “não é a fome”, mas o desemprego ou patrões que “pagam sempre amanhã” e contra os quais “não há ajuda” dos tribunais, Estado ou entidades privadas.
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