Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
8

Alto risco deixa tabaco sem seguro

Os distribuidores de tabaco estão desesperados perante a ameaça de um regresso em força dos assaltos e a impossibilidade de efectuarem seguros que possam cobrir os prejuízos. É que as seguradoras recusam-se a celebrar contratos ou renovar apólices, porque consideram que se trata de uma actividade de “alto risco”.
5 de Junho de 2005 às 00:00
Este ano foram já dezenas os roubos a distribuidores de tabaco
Este ano foram já dezenas os roubos a distribuidores de tabaco FOTO: Philippe Wojazer/Reuters
Revendedores e seguradoras concordam que não existem condições técnicas para garantir um mínimo de segurança no transporte de tabaco, com a agravante do ‘apetite’ de grupos marginais pelo produto atingir agora níveis elevados para contrabando, graças ao forte aumento que o Governo decidiu aplicar no imposto sobre o tabaco.
Na última semana, registaram-se assaltos em Póvoa de Lanhoso, Vila Verde, Barcelos e Guimarães, onde anteontem um grupo de quatro homens desviou uma carrinha carregada de tabaco, depois de ter sequestrado o condutor. Este ano são já dezenas os casos semelhantes, especialmente no Minho. Grande Porto, Aveiro e Viseu.
“Isto está complicado. Vivemos em constante sobressalto e ainda somos apertados de todos os lados, seja por legislação e mais impostos que incentivam o contrabando, seja pelos assaltantes armados até aos dentes”, queixou-se Silvestre Martins, que ontem participou num congresso em Santa Maria da Feira que juntou cerca de 250 distribuidores de tabaco de todo o País.
À margem da discussão sobre a impossibilidade de controlar nas máquinas de tabaco o cumprimento da nova legislação que proíbe a venda a menores de 16 anos – sob pena de sofrerem coimas até 44 mil euros –, os distribuidores realçaram o aumento do risco da sua actividade, com a agravante de estarem a trabalhar sem seguros que possam cobrir os prejuízos resultantes dos roubos.
As próprias seguradoras reconhecem a impossibilidade de satisfazer as pretensões dos revendedores de tabaco. “Perante os dados de que dispomos, temos de ter a noção de que fazer uma apólice com um revendedor de tabaco é comprar um sinistro garantido”, afirmou ao CM ‘António V.’, técnico comercial de uma seguradora nacional, falando em anonimato por não estar autorizado a prestar declarações à Comunicação Social.
No entender deste técnico, o forte aumento dos impostos sobre o tabaco veio agravar a situação, porque “vai incrementar o apetite por um produto que passa a ser um dos mais lucrativos no contrabando”. É que “o mercado negro é tanto mais vantajoso, quanto maior for o imposto e a carga fiscal”. E “não é só por piorarem as condições de vida que há mais assaltos quando aumentam os impostos”.
‘António V.’ adiantou que nas últimas semanas analisou cerca de 20 propostas para a celebração de contratos de seguros com revendedores de tabaco e “todas foram recusadas pela companhia”. “Nos últimos anos tive de pagar mais de 80 máquinas de tabaco só nos concelhos de Braga e Guimarães, sendo que cada uma vale mais de cinco mil euros (incluindo tabaco e dinheiro)”, explicou.
"DISTRIBUIDORES NÃO PODEM GARANTIR SEGURANÇA"
Para as seguradoras, o tabaco é um alvo privilegiado dos grupos marginais, tanto ao nível do crime organizado como de delinquentes comuns – onde se integram os toxicodependentes. “Para uns, é difícil ou impossível ganhar dinheiro para manter o vício, para outros, o contrabando é cada vez mais rentável”, explicou ao CM o técnico de seguros ‘António V.’.
“A verdade é que os distribuidores de tabaco não têm qualquer possibilidade de garantir condições mínimas de segurança, porque não podem fazer o transporte em carrinhas blindadas e com seguranças, já para não falar de andarem armados, porque isso não lhes têm adiantado de nada”, explicou. E acrescentou que são assaltados tanto de madrugada como em pleno dia, à porta de casa ou no meio da cidade, na estrada ou quando estão a abastecer um cliente.
‘António V.’ revelou ainda que a maioria dos assaltos a cafés acontece por causa das máquinas de tabaco, que “muitas vezes é a única peça roubada” dos estabelecimentos. Relatou o caso de uma empresa de distribuição de Guimarães “que tinha 30 máquinas espalhadas por diferentes estabelecimentos e que viu ser-lhe recusado qualquer seguro: a própria loja foi assaltada, assim como todas as máquinas, com excepção de uma situada na sede de um clube de futebol cujo edifício estava cheio de grades”.
ROUBOS RECENTES
GUIMARÃES
Quatro homens de cara destapada cercaram, anteontem, o condutor de uma carrinha de tabaco, quando este abastecia um café no centro da cidade de Guimarães. Levaram a carrinha e o funcionário para um local ermo, onde fizeram a trasfega da carga e abandonaram o veículo e o condutor. Foi o terceiro assalto a carrinhas da mesma empresa este ano.
ARMAZÉM
No concelho de Vila Verde, um armazém de tabaco foi assaltado por um grupo, que abandonou no local um carro alugado no Aeroporto de Lisboa. De nada valeu o alarme. O proprietário diz que “já há uns tempos” que está a tentar fazer um seguro, mas ainda não conseguiu.
À PORTA DE CASA
Na semana passada, um distribuidor de tabaco foi assaltado quando saía de casa, na Póvoa de Lanhoso. A carrinha foi abandonada num monte, sem carga.
SÓ A MÁQUINA
Uma grande superfície de Barcelos foi assaltada na quarta-feira da semana passada. Os assaltantes levaram apenas a máquina de tabaco, sem causar quaisquer outros danos.
SEQUESTROS
No passado mês de Abril, registaram-se dois assaltos a carrinhas de transporte de tabaco no concelho da Póvoa de Lanhoso. Um ocorreu na vila e outro em Garfe. Nos dois casos, os condutores foram sequestrados e abandonados em locais ermos.
Ver comentários