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Correio da Manhã

Portugal
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Alunos roubados no recreio e ameaçados com facas

Na Escola EB 2,3 Professor Agostinho da Silva, em Casal de Cambra, Sintra, alunos têm sido vítimas de assaltos por parte de colegas. As ameaças de agressão são constantes, por vezes com armas brancas. Ainda na última segunda-feira, como o CM noticiou, um estudante de 12 anos foi esfaqueado no recreio por outro um ano mais velho: por sorte, os ferimentos foram superficiais. Três dias depois, novo esfaqueamento, também sem gravidade.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Estudantes da Escola Professor Agostinho da Silva, em Casal de Cambra, Sintra, têm medo de ir às aulas
Estudantes da Escola Professor Agostinho da Silva, em Casal de Cambra, Sintra, têm medo de ir às aulas FOTO: Jorge Paula
O número de agressões deixa muitos pais alarmados: “Há assaltos todos os dias”, diz ao CM um encarregado de educação que, por recear represálias, prefere manter o anonimato. Mas a presidente do Conselho Executivo da escola, Maria José Carrilho, desdramatiza: “São apenas casos pontuais”, diz a professora.
A violência está relacionada com a existência, mesmo junto à escola, de um bairro social, construído há 12 anos e que serviu para o realojamento de famílias oriundas de barracas dos concelhos de Sintra e de Lisboa. “Os jovens deste bairro frequentam a escola e debatem-se muitas vezes com problemas financeiros e de insucesso escolar e são eles que têm mais apetência para roubar os colegas, tirando-lhes dinheiro, o cartão da escola, telemóveis e outros artigos de valor”, diz o mesmo encarregado de educação. Alunos de 15 e 16 anos vêem nas crianças de dez e onze as vítimas ideais.
O pai de um aluno de 12, que também pede reserva do nome, ouviu há dias do filho uma frase que o deixou preocupado: “Amanhã não vou à escola, porque se não levar dinheiro eles dão-me uma facada”, disse-lhe o filho. “Fora da escola, há muito tempo que os miúdos são assaltados. Por isso, passei a acompanhar todos os dias o meu filho à escola e no regresso a casa. Mas lá dentro não posso fazer nada, ele está entregue à sua sorte”, diz a mesma fonte.
Os funcionários da escola têm instruções para revistarem as mochilas dos alunos referenciados como problemáticos. Mas alguns rapazes saltam as grades para entrar na escola e escapam assim à revista. A professora Maria José Carrilho garante que “não há um sentimento de medo” e diz que a escola está empenhada na “reabilitação dos agressores”.
CASTIGOS SEM RESULTADOS
A presidente do Conselho Executivo da escola, Maria José Carrilho, reconhece que existem problemas de roubos na escola, mas diz que são praticados por “meia dúzia de alunos”, num estabelecimento com cerca de 840. “As agressões, ameaças e roubos são praticados por um grupo de jovens carenciados do bairro vizinho”, diz. No entanto, assume que as sanções, como a suspensão por cinco dias, poucos resultados práticos têm.
Em relação ao facto de alunos andarem armados com navalhas no recreio da escola, a professora diz: “É muito fácil esconder uma faca. Já tínhamos encontrado algumas navalhas, que os funcionários tinham visto nas mãos de alunos. As armas foram retiradas, alunos foram admoestados e começaram a ser vigiados de perto pelos funcionários.”
PAI LAMENTA AUSÊNCIA DE GNR
João Teixeira Amorim, presidente da Associação de Pais, diz que a Escola Professor Agostinho da Silva não é um estabeleciemento de ensino problemático. “Funciona bem e até é uma escola sossegada”, garante. “Estou é a notar uma ausência muito grande da Escola Segura.” Na freguesia de Casal de Cambra, o programa Escola Segura é assegurado pela GNR.
João Teixeira Amorim diz que a guarda “apenas tem uma viatura para sete freguesias”. “A Associação de Pais contactou a GNR e eles disseram que não tinham efectivos suficientes para as escolas todas”, afirma. Apela para que os encarregados de educação dos alunos assaltados, agredidos ou ameaçados apresentem queixa por queixa à Associação de Pais e ao Conselho Executivo. “É importante que o façam para as apresentarmos à GNR”, diz.
SINAIS DE VIOLÊNCIA
JOVEM SEM MEDO
“Ele não tem medo de nada”, disse Maria José Carrilho sobre o jovem de 13 anos que esfaqueou um colega, conforme noticiou o CM. “Temos medo que ele venha a tornar-se um criminoso”, diz a professora. A escola está empenhada em encontrar uma solução para este aluno que padece de “graves problemas sociais e de fome.”
TODOS OS DIAS
Uma aluna do 7.º ano revela ao CM: “Pedem-me dinheiro todos os dias. Eles perguntam-me se tenho dinheiro, eu digo sempre que não. Então pedem-me o cartão.”
CARTÃO ESCOLAR
A escola possui um sistema de cartões individuais, tipo multibanco, que podem ser carregados com dinheiro para utilização na cantina e na papelaria da escola. Estes cartões são roubados por alunos que apenas querem comer qualquer coisa. Os funcionários têm ordem para aceitarem os cartões apenas se apresentados pelos verdadeiros proprietários.
ROUPA DE MARCA
Ténis, blusões e outras peças de vestuário de marcas conceituadas são uma verdadeira tentação para os jovens que praticam roubos no interior e nas redondezas da escola. “Um colega do meu filho, um dia destes, foi descalço para casa porque lhe roubaram os ténis”, diz ao CM um encarregado de educação.
CONSELHOS
Como medida de precaução, a presidente do Conselho Executivo aconselha os pais a enviarem os filhos para a escola com roupa e ténis simples, que não são alvo de cobiça. Os telemóveis e dinheiro são de evitar.
PROBLEMAS SOCIAIS
“Não temos uma fórmula para resolver os problemas sociais e se dez por cento (dos jovens que praticam os roubos) melhorar para nós já é bom”, diz a professora Maria José Carrilho. “Esta não é uma comunidade marginal, nem esta é uma escola de alunos marginais. Há apenas alunos com problemas sociais, alguns deles graves.”
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