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Correio da Manhã

Portugal
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AMEAÇA DE FOME PREOCUPA SESIMBRA

Sesimbra vive sob a ameaça de fome em algumas franjas da sua população. Segundo o presidente da Câmara Municipal, Amadeu Penin, “a crise que afecta o País é particularmente sentida no concelho, pelo que se criou uma situação bastante preocupante sendo cada vez menos aqueles que pretendem investir”.
7 de Março de 2003 às 00:00
Ainda não refeito dos despedimentos resultantes do fim da pesca da pescada e do espadarte, em Marrocos, há cerca de quatro anos, o concelho de Sesimbra conhece agora um abrandamento da actividade da construção civil, sector que absorveu grande parte dos pescadores mais jovens. O desemprego sofreu ainda um aumento com o encerramento, em Novembro último, do Hotel Villas de Sesimbra, uma infra-estrutura com 450 camas e que representava 50 por cento da capacidade do concelho.

Como que uma bola de neve, a desaceleração registada nos três sectores predominantes na economia do concelho leva a que outros agentes empregadores venham a sofrer as suas consequências. “Com o encerramento do hotel diminuiu a realização de congressos e seminários bem como o número de turistas, pelo que a restauração sentiu igualmente com esta decisão”, apontou o presidente.

PESCA EM CRISE

Para António Pinto, 59 anos, 45 dos quais a pescar nas águas de Marrocos, o sector das pescas “está parado e não se vê solução à vista”. Foram mais de mil pessoas atingidas com o fim da pesca em Marrocos e isso só dá é fome”, disse o pescador, recentemente reformado, depois de estar três anos a viver com o subsídio de desemprego e alguns meses sem qualquer vencimento.

Amadeu Penin frisou não ter “conhecimento de nenhum caso concreto de fome no concelho”, mas admitiu essa possibilidade no grupo etário mais idoso, devido à redução do peixe capturado. Com o porto de Sesimbra a cair do primeiro para sexto, em termos de entradas de pescado, João Lopes, dirigente da Mútua de Pescadores, referiu ao CM que os pescadores de Seismbra que se viram a braços com o desemprego “não tiveram outra alternativa do que recorrerem ao desenrasque, encontrando soluções de trabalho muitas das vezes precárias”. “As pessoas não podem ficar de braços cruzados e tiveram de encontrar outros empregos, perante a descida de cerca de 50 por cento do pescado entrado na lota”, sublinhou.

Paralelamente, Francisco Silva, dirigente da delegação de Setúbal do Sindicato de Hotelaria e Turismo precisou que “para além do encerramento do Aparthotel Villas de Sesimbra, os trabalhadores deste sector não encontram outras alternativas na zona, uma vez que quer o Hotel do Mar, em Sesimbra, como a Torralta, em Tróia (Grândola), têm optado por uma política de redução dos postos de trabalho, recorrendo a empresas de mão-de-obra”.

Sentindo na pele essa situação Damião Gato após ter ficado desempregado no Villas de Sesimbra compreendeu que dificilmente poderá encontrar emprego num outro hotel da zona. “Aqui existem poucas oportunidades de trabalho, pelo que continuo sem trabalho, tal como a maioria dos meus colegas”, explicou. Com 57 anos, acrescentou: “o problema é que só procuram pessoas até os 35 anos de idade”.

HOTEL PODE NUNCA REABRIR

O Aparthotel Villas de Sesimbra pode nunca vir a ser reaberto. “Quatro meses após o seu encerramento ainda não se vislumbra uma solução para esta unidade hoteleira que com 450 camas representava cerca de 50 por cento da oferta do concelho”, disse Amadeu Penin.

“Após a decisão da Caixa Geral de Depósitos e do Fundo de Turismo, proprietários do imóvel, terem optado pelo encerramento do aparthotel, a autarquia teme que a Patrihotel, entidade que geria esta unidade possa vir a inviabilizar o negócio possível entre o Fundo de Turismo e uma outra empresa”, sublinhou Amadeu Penin. Para os antigos trabalhadores desta unidade de quatro estrelas, “a decisão da Caixa Geral de Depósitos de encerrar o hotel, terminado o contrato de exploração com a Patrihotel, não faz qualquer sentido”.

Damião Gato, que durante onze anos exerceu a função de chefe de compras no Villas de Sesimbra, precisou que “o hotel apartamento, tinha um número muito razoável de dormidas”.
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