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Correio da Manhã

Portugal
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Amigas brasileiras morrem queimadas (COM VÍDEO)

Marisa, 39 anos, ainda gritou por socorro, mas foi encurralada pelas chamas dentro de casa, num sótão. Elan, 22 anos, ficou irreconhecível
19 de Junho de 2011 às 00:30
Compartimento no sótão ficou totalmente destruído pelas chamas
Compartimento no sótão ficou totalmente destruído pelas chamas FOTO: Miguel Pereira da Silva

As duas amigas brasileiras tinham passado uma noite divertida num café das Caxinas, em Vila do Conde. E quando Elan, 22 anos, pediu a Marisa, 39, para a levar a casa, esta convenceu a primeira a dormir no seu apartamento – um compartimento no sótão de um prédio. Às 06h00, acordaram as duas sobressaltadas com um incêndio. Marisa ainda gritou por socorro, mas acabou encurralada pelas chamas e morreu queimada. Elan também ficou irreconhecível.

"Eu entrava em casa da Marisa e dizia que ela não podia viver lá. Não tinha condições nenhumas. Disse-lhe várias vezes para regressar ao Brasil, mas ela foi ficando porque tem cá a filha de apenas dois anos. Parece que já estava a adivinhar", lamentou uma amiga de Marisa.

Marisa Ribeiro de Sousa, que tal como Elan trabalhava num bar de alterne, vivia no quarto andar do prédio da avenida Carlos Pinto Ferreira, nas Caxinas, há um ano e meio. No espaço tinha cozinha, sala, quarto e casa de banho. Ontem, ao que tudo indica, um curto--circuito provocou o incêndio. Os compartimentos, separados por placas de madeira, foram rapidamente consumidos pelas chamas. Elan foi surpreendida quando fugia do quarto e ficou carbonizada. Marisa foi à pequena janela do quarto e gritou por socorro. Tentou sair pela janela, mas não conseguiu tirar as grades. O fogo encurralou-a.

"Vi o fumo e ouvi-a a gritar. Chamei os bombeiros e fui a correr para o apartamento. Já não consegui entrar, nem sequer se respirava com tanto fumo", disse ao CM o agente principal Maia, da Esquadra de Investigação Criminal da PSP de Vila do Conde, localizada em frente ao prédio.

Quando os bombeiros chegaram ao local só conseguiram retirar as botijas de gás e evitar a propagação do incêndio aos restantes apartamentos. Só depois de extinto o fogo foram descobertas as duas vítimas.

A Polícia Judiciária do Porto foi ao local e interrogou o senhorio do prédio e o morador do terceiro andar que subarrendava o sótão a Marisa. As circunstâncias do incêndio estão a ser investigadas. Marisa deixa a filha de dois anos, a morar com os avós na Maia. Elan vivia sozinha na Póvoa de Varzim.

MARISA PAGAVA 150€ DE RENDA E TRABALHAVA NUM BAR DE ALTERNE

Marisa vivia sozinha no sótão do prédio da avenida Carlos Pinto Ferreira, nas Caxinas, há um ano e meio, e pagava 150 euros de renda. O senhorio do prédio entregava-lhe o recibo do pagamento.

"O sótão é um anexo do apartamento do meu colega e fica mesmo por cima da casa do terceiro andar. Nós dávamos a água e a luz, mas ela pagava a renda ao senhorio. Aliás, os recibos que ele lhe entregava vinham sempre em nome da Marisa", contou ao CM Mário Ribeiro. A tese é sustentada pela amiga da vítima. "Ela pagava 150 euros por mês. Mas era uma pessoa com muitas dificuldades. [Trabalhava num bar de alterne fora de Vila do Conde]. Já a conheço há oito anos e ajudava-a muito. Levava-lhe comida e tudo. Era uma pessoa espectacular, mas tinha aquela mania de brasileiro de que quando as coisas não dão certo aqui eles têm vergonha de voltar", defende a mulher.

VIZINHO FICOU EM CHOQUE COM A TRAGÉDIA

José Dias, vizinho e proprietário do sótão que subarrendava a Marisa, ficou em estado de choque quando soube da morte das duas mulheres. "Eram cerca das 06h00 quando a minha vizinha me veio bater à porta para dizer que havia um incêndio. Só depois é que soube que, infelizmente, haviam duas vítimas. Conhecia a Marisa há um ano e meio, quando ela veio para cá", disse, transtornado.

"OUVIMOS GRITOS MAS NÃO CONSEGUÍAMOS AJUDAR"

O cheiro a fumo por todo o prédio fez com que os próprios moradores evacuassem ontem de madrugada o mais rápido possível o edifício. "Acordámos porque a minha vizinha avisou que havia fumo. Vimos fumo e saímos só com a roupa do corpo. Nem pensámos em mais nada", diz Rosa Terroso, moradora no apartamento do segundo andar.

O cenário viria a tornar-se pior. "Ouvimos muitos gritos de socorro, mas não conseguíamos fazer nada!", diz, revoltada. Os moradores dos seis apartamentos, distribuídos pelos três andares, conseguiram sair rapidamente do edifício.

"Depois de sairmos, os bombeiros chegaram logo a seguir, em cinco ou dez minutos. Ainda tentaram entrar dentro da casa mas tiveram de pôr a escada e entrar por fora. Só conseguiram controlar o fogo e tirar as botijas de gás. Parecia que estava a arder o prédio todo", descreveu a moradora Lurdes Terroso. A intervenção célere dos bombeiros não conseguiu evitar a tragédia. "Ela parou de gritar pouco antes de chegarem os bombeiros. A amiga já devia estar morta. Para elas não terem fugido é porque devia ter começado fora do quarto. A Marisa esteve na janela agarrada às grades, mas já ninguém conseguiu fazer nada", lembrou a vizinha.

As irmãs Rosa e Lurdes e a mãe não foram as únicas a ficar na rua de pijama. Os moradores permaneceram à porta do prédio até que os trabalhos das autoridades terminassem, por volta das 12h30.

 

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