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Correio da Manhã

Portugal
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Amigo de Portugal ao lado do Papa

Afável, extrovertido, dialogante, cordeal e grande amante do futebol – chegou, inclusive, a fazer relatos radiofónicos – são algumas das características apontadas ao novo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal italiano Tarcisio Bertone, de 71 anos, que ontem tomou posse no Castelo Gandolfo, residência de Verão do Papa. Um nome conhecido dos portugueses, já que lhe coube preparar a publicação da terceira parte do segredo de Fátima, em 2000, tendo conversado, por diversas vezes, com a Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra.
16 de Setembro de 2006 às 00:00
“Uma mulher excepcional, mas simples, uma mulher de oração, de graça, de amizade com a humanidade, porque era depositária de uma grande esperança para a humanidade”, disse, em entrevista à Rádio Vaticano. A sua ligação a Fátima é tão profunda que lhe coube representar a Santa Sé no funeral da vidente.
Se a sua forma de ser e o facto de já ter gerido dossiês delicados para a Santa Sé – como a tentativa de aproximação aos seguidores de monsenhor Lefebvre – foram importantes para a decisão de Bento XVI quando o nomeou para o cargo, outros argumentos houve de maior peso. D. Tarcisio Bertone, salesiano, chega a número dois da hierarquia da Igreja Católica sobretudo pela sua grande preparação doutrinal. “Um pastor fiel, capaz de conjugar actividade pastoral e preparação doutrinal”, nas palavras do Santo Padre. A colaboração, durante sete anos, com o Papa, quando Joseph Ratzinger era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, foi, também, determinante. Só assim se explica, de resto, o facto de Bento XVI ter escolhido para secretário de Estado – o principal interlocutor dos líderes mundiais – uma figura sem qualquer experiência diplomática.
“Espero poder destacar a missão espiritual da Igreja, quase transcende a política e a diplomacia”, afirmou D. Tarcisio Bertone numa entrevista concedida recentemente à revista italiana ‘30 Giorni’. Na sua opinião, a Igreja tem “um papel de mediação e de procura da paz, trabalha para restabelecer os laços cortados pela violência”, acrescentou o cardeal, revelando, de seguida, o espírito de abertura que norteará o desempenho das suas funções: “Visitei numerosos países, estou aberto ao mundo.”
O único ‘problema’ é a língua inglesa. Na mesma entrevista, o braço--direito de Bento XVI confessa ter poucos conhecimentos de inglês, embora domine o português, o espanhol, o francês e o alemão. Uma dificuldade que levou ao conhecimento do Papa, quando Bento XVI lhe comunicou a escolha. Este disse-lhe para não se preocupar, lembrando-lhe que no Vaticano há sempre excelentes intérpretes.
No plano interno, e tal como anunciara logo que foi conhecida a sua nomeação, D. Tarcisio Bertone deverá introduzir profundas alterações na Cúria (o governo do Vaticano). “Vou procurar adaptar as estruturas existentes à missão da Igreja e, eventualmente, verificar se tudo o que existe deve ser mantido”, avisou o cardeal.
PERFIL
D. Tarcisio Bertone nasceu em Romano Canavese, Itália, a 2 de Dezembro de 1934. Obteve a licenciatura na Faculdade Salesiana de Teologia de Turim e o doutoramento em Direito Canónico no Ateneu Pontifício Salesiano, em Roma. Foi ordenado sacerdote a 1 de Julho de 1960 e nomeado arcebispo de Vercelli a 1 de Agosto de 1991. Em Junho de 1995 foi nomeado Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé. João Paulo II criou-o cardeal no consistório de 21 de Outubro de 2003.
POSIÇÕES POLÉMICAS
Homem de diálogo, D. Tarcisio Bertone não se inibe de tomar posições críticas – e polémicas – quando os dogmas da Igreja são postos em causa. O livro ‘O Código Da Vinci’ é apenas um exemplo. Aquando da sua publicação, o novo secretário de Estado do Vaticano apelou aos católicos para boicotarem a obra. Num outro plano, mas igualmente polémico, foram as declarações que produziu no início de Agosto, a propósito da intervenção de Israel no Líbano, condenando aquilo que designou de “massacres inúteis”.
"UM PASTOR DEDICADO"
O cardeal Tarcisio Bertone sucede na Secretaria de Estado a Angelo Sodano, que ocupava a função desde 29 de Junho de 1991, por indicação de João Paulo II. O Papa Bento XVI confirmou-o no cargo. Actualmente com 78 anos, o decano do Colégio de Cardeais conta-se entre os homens mais influentes do Vaticano das últimas duas décadas, tendo desenvolvido intensa actividade diplomática. Foi um dos nomes mais apontados para suceder ao papa polaco. Na cerimónia de despedida do cargo, Bento XVI agradeceu a sua colaboração, sublinhando o seu “espírito de pastor inteiramente dedicado ao serviço da Sé Apostólica”.
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