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Correio da Manhã

Portugal
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ANARQUIA NAS URGÊNCIAS

Há uma anarquia no acesso à urgência hospitalar que resulta em que metade do número de pessoas que ali vão procurar assistência podiam resolver os seus problemas nos centros de saúde e respectivas urgências, o que corresponde a algumas centenas de utentes todos os dias. Este o resultado de um estudo elaborado pelo Hospital Amadora-Sintra.
23 de Dezembro de 2003 às 00:00
O Amadora-Sintra defende a articulação com os centros de saúde
O Amadora-Sintra defende a articulação com os centros de saúde FOTO: Tiago Sousa Dias
"Uma anarquia perfeitamente inexplicável e que tem de ser resolvida por medidas disciplinares perfeitamente definidas", defende o director clínico do Hospital Fernando da Fonseca, cardiologista Rafael Ferreira.
Segundo o responsável, um estudo elaborado entre aquele hospital e o Santo António, no Porto, que envolveu num ano milhares de doentes, concluiu-se que "48 por cento dos doentes que vêm à urgência não têm justificação" para o fazer podendo resolver os seus problemas nas urgências dos centros de saúde. Em 52 por cento dos casos têm justificação.
COM FEBRE E ESPIRROS?
"Porque é que uma pessoa que tem febre 24 horas, tosse ou dá três espirros deve ir à urgência hospitalar? Alguma vez alguém colocou esse problema e tentou explicar porque é que isso sucede? É essa uma função dos hospitais atender viroses gripais no período do Inverno?", questiona o director clínico, para sublinhar que o hospital é um centro de referenciação para patologias graves e para doentes em risco.
A afluência ao serviço de urgências não é apenas no período nocturno, verifica-se nas 24 horas por dia. O que não é correctamente feito, segundo aquele responsável, é a articulação entre os hospitais e os centros de saúde.
seguir exemplo da pediatria. "Há três anos instituiu-se um sistema no âmbito da pediatria em que os doentes eram sempre vistos no centro de saúde e só vinham ao hospital se houvesse uma carta de referenciação do médico de família. Esta situação diminuiu a afluência nas urgências entre 30 a 40 por cento. Porque é que não se faz o mesmo em relação aos adultos?", indaga.
O director clínico reconhece, contudo, que é preciso que os centros de saúde tenham condições, recursos técnicos e humanos, para de facto poderem atender os doentes. "O problema é fundamentalmente este, os centros de saúde não têm recursos humanos nem técnicos suficientes para poderem dar resposta às solicitações", reconhece.
Esta questão é tão ou mais dimensionada se se pensar que a urgência do Amadora-Sintra atinge, globalmente, os 600 doentes e nas épocas de maior afluência quase atinge o milhar. "A nossa urgência geral tem 400 doentes por dia e é neste momento a segunda do País a seguir à do Santo António, no Porto", afirma o director clínico.
A somar aos 400 doentes na urgência geral somam-se as urgências de obstétrica e ginecológica e a pediátrica, chegando aos 600 utentes que ali são assistidos, em média, todos os dias. "Temos metade das camas do Hospital de Santa Maria, que tem uma população mais baixa que a nossa", afirma o responsável. "O problema da urgência não é só o que se passa ali, a atender os doentes, nesta altura do ano temos uma média superior por dia de 30 doentes que temos de internar só em medicina, e as camas não sobram", conclui Rafael Ferreira.
CARDIOLOGISTA NO CENTRO
Desde há dois anos que, uma vez por mês, um cardiologista daquele hospital desloca-se, a expensas suas, ao centro de saúde de Queluz para avaliar casos de doentes apresentados pelos clínicos gerais.
"Nessas reuniões são discutidos os casos e conclui-se que em 80 por cento dos doentes em dúvida não é necessário a sua deslocação ao hospital. Com os restantes casos, o seu internamento é mais rápido", afirma o prof. Rafael Ferreira. Esta solução encontrada pela cardiologia, que não tem listas de espera em consulta nem em cirurgia, pode alargar-se aos nove centros de saúde dos concelhos de Amadora e Sintra e está a ser seguida pela neurologia e gastrenterologia.
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