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Correio da Manhã

Portugal
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Ando sempre com o credo na boca

Maria Rosa vai misturando os sorrisos trémulos com os gestos nervosos, sempre que fala da vida perigosa do marido, José Mendes, adjunto do comandante dos Bombeiros de Melres. Pelo meio, Maria lá deixa escapar a expressão da sua angustia: “Ando sempre com o credo na boca”.
14 de Julho de 2005 às 00:00
Maria Rosa
Maria Rosa FOTO: João Malta
Ao longo de 26 anos de bombeiro, a vida pessoal de José e Maria tem passado para segundo lugar. Quando as chamas não dão tréguas, como aconteceu a semana passada na pequena localidade situada no concelho de Gondomar, Maria viu o marido apenas uma vez. E, porque quando os fogos chamam, José nunca diz não, até os momentos mais marcantes da história familiar ficam pelo caminho. “Veja bem que o neto nasceu na terça-feira e só no sábado é que ele arranjou tempo para o ver”, diz entristecida.
Mas Maria, que também já foi bombeiro, compreende a profissão do marido.
“Foi a vida que ele escolheu, e se não fossem pessoas como ele o que seria de nós”, diz, em tom resignado.
Para as alturas em que o medo aperta e tudo parece correr mal, como quando há oito anos lhe disseram que o marido estava cercado pelo inferno, Maria Rosa encontra refúgio na fé . “Acredito muito em Nossa Senhora de Fátima e ela nunca me deixou ficar mal”, afirma.
Mesmo assim, quando a sirene dos Bombeiros toca, o coração de Maria aperta-se. “Sabe, sofre-se muito com esta vida de mulher de bombeiro”, diz.
José Mendes sabe bem das amarguras da mulher, mas quando o perigo das chamas avança, não há nada que o pare. “Nessas alturas a minha família passa para segundo lugar, porque eles estão bem e há pessoas que precisam mais de mim”, diz o bombeiro.
José só tem pena que a sua vida não lhe permita estar mais tempo com os filhos. “Como passo muito tempo fora de casa, perdi grande parte do seu crescimento”, conta.
JÁ ARDERAM 30 MIL HECTARES DE FLORESTA
A área ardida em Portugal continental atingiu a 10 de Julho os 29 580 hectares, em consequência dos 2 548 incêndios florestais e fogachos registados pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF), só neste mês, num relatório divulgado ontem. O número de ocorrências registadas pela DGRF, que no final de Junho era de 12 690, aumentou no passado dia 10 para um total de 15 238, enquanto a área ardida aumentou de 21 504 hectares para 29 580 em cerca de duas semanas. Segundo o mesmo relatório, das 15 538 ocorrências registadas, 3375 foram incêndios florestais e 11 863 fogachos – área ardida inferior a um hectare. Os distritos mais afectados pelas chamas foram Porto, Viseu e Viana do Castelo, respectivamente com 3890, 3271 e 3166 hectares ardidos. O maior incêndio registado até ao momento deflagrou a 8 de Junho em Valmaior, Albergaria-a-Velha (Aveiro) e destruiu 1201 hectares.
FILME DO DIA
07H30 - 630 bombeiros envolvidos em acções de combate, rescaldo e vigilância. Especial incidência para três incêndios: Carrazeda de Ansiães (Bragança), Infesta e Carreiros, Amarante (Porto).
10H30 - Um incêndio com origem em Almofrela, Baião (Porto), alastrou a Marco de Canaveses e está activo em duas frentes, em Serradelas. Em Baião lavra outro incêndio, em Paredes de Cima.
13H00 - Circunscritos os fogos em Lavandeira, Carrazeda de Ansiães (Bragança) e Sobral, São Pedro do Sul (Viseu), combate-se um incêndio recente em Oleiros (Castelo Branco).
15H30 - Deflagra um incêndio em Sequeira (Braga) ameaçando casas e um parque industrial. Fogos activos em Maceda, Ovar (Aveiro), Almofrela, Baião (Porto) e Nelas, Vila Ruiva (Viseu).
17H00 - Os bombeiros combatem as chamas em Torre de Terrenho (Guarda), Gondizalves (Braga) e Lugar de Ferrões, Amarante (Porto). O incêndio de Sobral, São Pedro do Sul está em rescaldo.
18H30 - Os incêndios em Torre de Terrenho (Guarda) e Lugar de Ferrões, Amarante (Porto) estão circunscritos. Combatem-se as chamas em Figueiredo, Vieira do Minho (Braga).
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