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Correio da Manhã

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ANESTÉSICO SOB SUSPEITA

A Ordem dos Médicos remete para o Ministério da Saúde a responsabilidade de mais incidentes com o uso do anestésico utilizado nas intervenções cirúrgicas que redundaram na morte de duas pessoas no Hospital de Lagos.
8 de Abril de 2004 às 00:00
Pedro Nunes, presidente do Conselho Regional do Sul, garantiu ontem ao Correio da Manhã que “há anestesistas que dizem que o produto genérico utilizado não é tão fiável como o original”.
Segundo as informações do dirigente, quase todos os hopitais do País estão a usar o genérico de um produto para induzir a anestesia que já terá causado vários problemas.
Pedro Nunes deu já conta desse temor ao ministro da Saúde, numa reunião de urgência que solicitou, mas Luís Filipe Pereira preferiu manter as decisões que já tinha tomado: o inquérito da Inspecção-Geral da Saúde e a suspensão de funções da anestesista de Lagos.
A tentativa de Pedro Nunes de sensibilizar o ministro para o problema fracassou, mesmo com os dados que o dirigente da Ordem apresentou e que apontam, segundo o próprio, para a “inexistência de qualquer erro técnico”. Ontem mesmo, o presidente do Colégio da Especialidade de Anestesiologia da Ordem, Carlos Guinoth, deslocou-se ao Hospital de Lagos e ouviu todos os médicos envolvidos nos casos.
Pedro Nunes coloca agora duas possibilidades: ou “mero acidente”, que estranha por terem ocorrido dois casos consecutivos; ou problemas com um produto, de que os anestesistas começam a duvidar.
Para o presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, “é espantoso que o ministro da Saúde tenha suspendido a médica e não o medicamento”.
Agora, “que acontecerá se morrerem outras pessoas?”, pergunta o dirigente da Ordem, que acusa o Ministério de ter lançado para a opinião pública o que “mais lhe interessa”, ou seja a responsabilização da médica que foi responsável pelo processo de indução da anestesia.
Pedro Nunes quer também alertar a opinião pública: “A Ordem está a fazer o que tinha de fazer, mas o Ministério não”.
MINISTRO NÃO COMENTA
O Ministério da Saúde, contactado ontem pelo Correio da Manhã, manteve a posição veiculada numa nota à Comunicação Social, divulgada na segunda-feira.
Esperar pelos resultados do inquérito em curso, da responsabilidade da Inspecção-Geral da Saúde, e manter a anestesista suspensa por 90 dias foram as decisões já tomadas por Luís Filipe Pereira.
Quanto à possibilidade de estarmos perante um problema com o produto usado, uma fonte do gabinete do ministro da Saúde disse ao Correio da Manhã que “não há nenhuma indicação que aponte para isso”.
“O sr. ministro não se vai pronunciar mais enquanto não for concluído o inquérito”, sublinou a mesma fonte.
DADOS
PRODUTO
O produto em causa é um anestésico, propofol, que tem oito genéricos aprovados, de acordo com informação do Infarmed. Os mais recentes estão a ser comercializados desde Julho do ano passado.
LOTES
Outra hipótese que se coloca é que o problema esteja no lote de produto que foi usado. Um anestesista disse ao Correio da Manhã que o genérico do propofol que tem usado implica dosagens superiores.
TROCAS
Há casos históricos de trocas de produtos. Há mais de uma década, morreram doentes por terem sido trocados os gases anestésicos. No Brasil uma troca de um produto injectável matou várias crianças.
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