Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
7

ANTÓNIO CAETANO: CONTO TUDO AO DIAP E NO PARLAMENTO

António Caetano – um dos agentes da Polícia Judiciária que, em 1982, participou numa rusga a casa do embaixador Jorge Ritto, em Cascais, e apreendeu fotos de várias personalidades em actos de pedofilia com crianças da Casa Pia – está disposto a contar tudo o que viu, caso venha a ser intimado para comparecer na Assembleia da República, ou no inquérito mandado instaurar pelo procurador-geral da República que está em curso no DIAP.
6 de Janeiro de 2003 às 00:05
“Sei que está a decorrer um inquérito parlamentar sobre o caso da Casa Pia. Se os deputados entenderem que o meu depoimento poderá ter algum interesse para esclarecer a verdade, só têm de me convocar”, disse ontem ao CM.

E sem se deter, assegurou que vai contar tudo o que sabe, nomeadamente os nomes das personalidades que aparecem nas fotos que apreendeu: “Respondo a tudo o que me perguntarem. Estando eu sob juramento, é claro que só direi a verdade. O que é que posso dizer? Tudo o que sei sobre o processo.”

António Caetano frisou, depois, que além da Assembleia da República também está disposto a colaborar no inquérito do DIAP. “Vou onde me pedirem. Mas não devia ser só eu. Além de mim, deviam ser inquiridas as seguintes pessoas: o inspector da secção, na altura, Leontina Fernandes, que é hoje directora-adjunta da Polícia Judiciária; o chefe de brigada, Saturnino Ramos; mais os inspectores Viriato Gomes e José Martins Andrade. Todas estas pessoas intervieram no processo, pelo que devem recordar-se de alguma coisa”.

O ex-agente da PJ garantiu, ainda, que se for inquirido não será alvo de “um ataque súbito de amnésia”. “Comigo, isso não se vai passar. Se quisesse ter uma amnésia, com toda a certeza que não estava a fazer estas declarações. Se tenho receio pela minha integridade física? Todos nós estamos sujeitos a que nos suceda qualquer coisa, a partir do momentos em que, por exemplo, saímos de casa.”

Quanto à importância do depoimento que está disposto a prestar na Assembleia da República e no DIAP, António Caetano não tem dúvidas: “Vai ser muito últil para esclarecer a verdade. Disso, tenho a certeza absoluta.”

O ex-agente da PJ comentoui ainda, o facto de a procuradora Maria do Carmo Peralta – a magistrada que arquivou o processo em que estava envolvido Jorge Ritto – ter afirmado nunca ter visto as fotografias encontradas na casa que o embaixador possuia em Cascais. “Isso é um problema dela. Eu continuo a dizer que o processo foi todo para o tribunal de Cascais, inclusivamente as fotografias.”

A concluir, António Caetano referiu que a investigação em que participou foi um “êxito”. “Prova disso é que ainda hoje estou convencido que o tribunal teve à disposição todos os meios que lhe permitiriam deduzir acusação contra os implicados. Sem revelar nomes, reitero que foram ouvidas todas as pessoas que tinham interesse para a investigação. As das fotografias? Foram todas inquiridas”.

HÁ DOIS CONJUNTOS DE FOTOGRAFIAS

As fotografias onde aparecem personalidades a cometer actos de pedofilia com crianças da Casa Pia que António Caetano assegura ter apreendido na casa que o embaixador Jorge Ritto possuía em Cascais são diferentes daquelas que Teresa Costa Macedo tem referido que viu e mandou entregar na Polícia Judiciária.

As fotos a que a ex-secretária de Estado da Família teve acesso foram encontradas no dia 2 de Março de 1982, por um agente da PSP de Cascais e por dois educadores da Casa Pia, quando se deslocaram a casa do embaixador, para tentar descobrir o paradeiro das crianças A. e B. tendo-as encontrado a dormir num sofá. A 30 de Julho de 1982, Teresa Costa Macedo remeteu o que lhe foi entregue à Polícia Judiciária, ofício que foi assinado pelo então seu chefe de gabinete, Joaquim Pignatelli.

Segundo António Caetano, as fotos a que se refere (ver peça principal) foram apreendidas posteriormente a 2 de Março de 1982, numa rusga efectuada à casa de Jorge Ritto. Além das fotos, o ex-agente da PJ diz que também foram descobertos filmes e revistas pornográficas. E nas investigações que se sucederam, António Caetano adianta que a secção de crimes sexuais inquiriu todas as pessoas que apareciam nas fotografias.

ESPECIALISTA EM CAÇAR VIOLADORES

António Caetano foi um dos mais prestigiados agentes da Polícia Judiciária, na área dos crimes sexuais. Chamavam-lhe o “caça violadores” e “anjo da guarda” embora também se tenha dedicado aos crimes de liberdade de imprensa e distinguido em descobrir crianças raptadas.

Ficou célebre, aliás, um caso que ocorreu em Junho de 1984, no Hospital Particular, em Lisboa: momentos depois de nascer, a filha – Mariana – de Rita Carrajola desapareceu. Caetano liderou as investigações, que duraram três anos até serem concluídas. Na década 90, porém, decidiu ganhar “dinheiro por fora”, através de intimações falsas que apresentava a amigos, empresários e familiares. Quando os apanhava na PJ, propunha-lhes fazer um jeito, a troco de algumas centenas ou milhares de contos.

Durante algum tempo, a coisa correu bem. Até que, em Junho de 1994, o amigo José Mário Pereira Machado denunciou-o. Foi afastado da PJ, acusado de nove crimes de falsificação de mandatos de captura, 16 de abuso de poder e 13 de burla. Apanhou 12 anos de cadeia. Cumpriu sete, tendo sido libertado em 2001. “Apesar de ter feito alguns disparates, foi um bom funcionário e um bom amigo. Continuo a acreditar no que diz”, assegura o também ex-agente Viriato Gomes, que o conheceu bem, dado que ambos trabalhavam na mesma secção PJ.

António Caetano nasceu em em 1949, em Casal de Donas (Penalva do Castelo). No último ano em que trabalhou prendeu 53 violadores.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)