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Correio da Manhã

Portugal
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Aparecia cá marcado...

Daniel, o menino de 27 meses que está internado no Hospital de Santa Maria vítima de maus tratos, aparecia, por vezes, ao pé do pai com nódoas negras.
13 de Março de 2007 às 00:00
Carlos, o pai, mora com a mãe e um irmão nesta casa humilde onde já iniciou obras para receber Daniel
Carlos, o pai, mora com a mãe e um irmão nesta casa humilde onde já iniciou obras para receber Daniel FOTO: Manuel Moreira
As últimas, há cerca de um mês, levaram Carlos, o pai, a suspeitar. Mas quando interrogou a mãe do menino – presa com o padrasto por maus tratos que colocaram o menino em coma – esta disse-lhe que as nódoas negras na cara de Daniel se deviam a uma travagem brusca de um autocarro.
Carlos acreditou, ou quis acreditar, justificam os amigos do jovem de 26 anos. “Ele sempre disse que ela não era capaz de lhe bater”, adiantam ao CM, acusando: “Ele, o homem com quem ela morava agora, é que lhe devia bater”, ao menino e à mãe, Vanessa, que também por vezes aparecia negra.
Vanessa, de 21 anos, residia em Fetais, Camarate, desde Novembro. Numa casa que devia estar vaga desde que ela e o companheiro foram detidos. Mas os vizinhos sabem que mora lá alguém. “Um casal que já lá estava quando eles foram presos e com o qual, por vezes, passeavam nas ruas da localidade.”
Além dos dois casais e de Daniel, morava ainda naquele 1.º andar da rua D. Nuno Álvares Pereira um menino, com cerca de três anos, filho do companheiro de Vanessa. “O menino tem ido visitar o Daniel e o Carlos diz que não lhe vê marcas”, conta uma amiga.
Carlos já contratou uma advogada para requerer a custódia do filho. E também já começou a construir um quarto para Daniel na casa onde mora, no Bairro Car, em Camarate.
A casa, da mãe, voltou a servir--lhe de refúgio desde que se separou de Vanessa. Já lá vão largos meses.
E a mãe, Elisa, tem sido o seu principal apoio. Apesar de já ser de idade, a senhora tem sido incansável, afirmam os vizinhos, um dos quais adianta ainda que, há algumas semanas, Elisa esteve para levar o neto Daniel ao hospital, pois o menino tinha um hematoma no corpo. Mas o receio demoveu-a. A verdade é que ninguém diria que Daniel era sujeito a tal violência: sempre que visitava os avós, maternos e paternos, “mostrava ser um menino feliz”.
O internamento de Daniel devido aos maus tratos que o deixaram em coma apanhou, sobretudo, de surpresa o avô materno, o pai de Vanessa. Um homem de convívio fácil que costumava frequentar o café do Bairro da Mina, Camarate, onde mora. Anda triste e “todos os dias chora”.
Daniel morou com os avós maternos até Novembro, quando Vanessa foi buscá-lo para ao pé dela e do companheiro - que quando o menino deu entrada no Hospital, apresentou-se como pai biológico, levando os funcionários a impedirem a entrada de Carlos.
FORA DOS CUIDADOS INTENSIVOS
O bebé registou uma “melhoria clínica” e já foi “suspensa a ventilação assistida”, informou ontem o Hospital de Santa Maria. Apesar de reduzido o risco de vida e de já não precisar de apoio clínico intensivo, mantém-se o prognóstico reservado, acrescenta em comunicado. Atendendo às “circunstâncias excepcionais”, mãe e companheiro presos e suspeitos dos maus tratos, o hospital adianta que informação continuará a ser “gerida com toda a cautela”. No entanto, fonte do serviço de pediatria adiantou ao CM que “todas as evoluções clínicas são comunicadas à família, neste caso os avós”. Pelo Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, fonte do gabinete do ministro garantiu ao CM que “o bebé não estava referenciado como ‘criança de risco’” e que “nada foi detectado aquando de anterior observação médica no Hospital Dona Estefânia”. A mesma fonte recusou mais informações por o caso se encontrar sob “segredo de justiça” e “com pessoas presas preventivamente”.
COMISSÃO AVALIA
Carlos, o pai do pequeno Daniel, trabalha numa empresa de computadores, a Fujitsu. Vanessa, a mãe, detida por ter, alegadamente, agredido o menino em conjunto com o companheiro, foi empregada de limpeza no Aeroporto de Lisboa. Ambos estão a ser avaliados pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Loures, que só recebeu a denuncia no passado dia 3, uma semana depois de Daniel ter dado entrada no Hospital de Santa Maria.
“Foi o hospital que nos contactou”, adiantou ao CM a responsável da Comissão, Ângela Botelho, lamentando que na esmagadora maioria das vezes sejam as entidades (polícia, hospitais, escolas...) a denunciar suspeitas de maus tratos, um crime público.
O caso de Daniel é urgente para a Comissão, pois tem de ser
determinado um poder paternal, uma pessoa que queira e esteja em condições de poder cuidar do menino, dando-lhe sobretudo afecto. Até que essa pessoa seja determinada, o poder paternal deverá ser entregue ao avós maternos.
PORMENORES
POLÍCIA ALERTADA
Daniel entrou em Santa Maria no dia 23 de Fevereiro. Dois dias depois os médicos alertaram a PSP: os ferimentos que o menino apresentava só podiam ter resultado de agressões.
LESÕES GRAVES
O menino apresentava lesões internas graves no crânio e tórax. Tinha vários hematomas que, segundo os médicos, indiciavam maus tratos.
NÃO CONFESSARAM
Quando a mãe e o padrasto de Carlos Daniel foram detidos não assumiram a autoria das agressões. Disseram apenas que era frequente haver “acidentes”.
DESDE NOVEMBRO
A mãe e o padrasto viviam juntos numa casa arrendada em Frielas desde Novembro. A criança já tinha sido assistida no Hospital da Estefânea.
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